A felicidade é azul!

Lorena Filgueiras

A Cidade Velha tem um prefeito só dela e ele atende pelo nome de Rubens Lobato. Se o nome não soou familiar, não culpe sua memória, até porque ele é conhecido pelo apelido carinhoso: Rubão. A grandeza faz jus: nosso entrevistado tem 1,80m de altura e, tão grande quanto ele, são seus sorrisos e a gargalhada – sonora – que preenche todo o bar, local onde esse bate-papo ocorreu. Ao chegar ao endereço, eu e o fotógrafo Dudu Maroja o encontramos vestindo uma roupa belíssima em azul royal e com um adorno de cabeça, que lembrava muito a peruca de Cleópatra (“foi meu amigo Mauriti quem fez”). Ao longo de uma hora, gargalhamos. Rubão é dono de uma alegria única e só houve um único momento em que a risada desaparece e dá lugar às lágrimas abundantes: ao falar da mãe, dona Nazira, falecida há 15 anos. “Morro de saudades dela”, ele diz. Ali, entre memórias, fotos de Fafá de Belém e da atriz Glória Pires (que são maioria nas paredes de seu bar) e muitas imagens religiosas (embora não se declare religioso, mas diz que todas foram presentes), ele revisitou sua infância, falou sobre a experiência no serviço militar, carnaval e, como não podia deixar de ser, de seu amor pela cozinha.  

Troppo + Mulher: Você já acorda assim, Rubão? [ele estava vestido pantalonas e kaftan azul royal]
Rubão: Eu acordo assim porque é o meu dia-a-dia, né? Tenho que ir pra Feira do Ver-O-Peso – 
coisa que faço todo dia –, supermercado e, quando volto, eu me interno para fazer a lavagem das louças, higienizar os alimentos, até umas 12, 13 horas. E só retorno umas 4 da tarde, para começar os preparos para de noite. Daí em diante, vou embora...

T+M: Vai ser muito indelicado se eu perguntar sua idade?
Rubão: (ele dá uma longa gargalhada) De jeito nenhum! Pra mim, é uma felicidade! Tenho 69 anos!

T+M: E quando será o festão dos 70?
Rubão: Dia 12 de agosto e, desde já estão todos convidados! (ele gargalha) Eu fecho essa rua aqui e todos os meus amigos, vizinhos, o pessoal que me considera... enfim, todos vêm para comer um pouco da maniçoba que eu faço, do vatapá, do arroz de caranguejo. São, em média, 400 pessoas! (ele solta mais uma gargalhada sonora)

T+M: Ouvindo a sua risada, não posso deixar de perguntar se Fafá se identifica com ela..
Rubão: É uma loucura quando estamos juntos! (e ri de novo!)
 
T+M: Contavas, antes de a gente começar a entrevista, que entraste muito novo na cozinha e que aprendeste a arte da culinária só de olhar tua mãe, mas que alcançaste outro patamar aprendendo a cozinhar com os vizinhos... Como foi isso?
Rubão: Aqui na Cidade Velha, antigamente, a maioria dos habitantes era de estrangeiros. Japoneses, portugueses, libaneses eram vizinhos muito presentes. Lá no Palacete Pinho, moravam meus vizinhos mais queridos, portugueses. E nós éramos muito bem quistos pelas senhorinhas – eu, principalmente, porque eu era super prestativo com elas. Lá tinha um pomar e eu que subia nas árvores, que recolhia os frutos e levava para elas. Fora que elas adoravam o meu pai...

T+M: Como se chamavam seus pais, Rubão?
Rubão: Seu Faustino, que era sapateiro, e a mamãe se chamada Maria de Nazaré, mas era chamada de Nazira. Ela era lavadeira e lavava muito para essas famílias.

T+M: Foi ela quem o ensinou a gostar de tecidos?
Rubão: Não, mana! Isso tudo [ele aponta para as roupas e o adereço na cabeça] é minha vaidade! Tinha primas e tias costureiras, que amavam fazer roupas diferentes para mim. Por isso que sou diferenciado até hoje!

T+M: E quanto irmãos você tem?
Rubão: Somos cinco agora, mas nós éramos seis. O meu mais velho já é falecido: Romildo, Reinaldo, Roberto, José, Ronaldo e Rubens. 

T+M: Quando foi que deu o ‘estalo’ de cozinhar profissionalmente?
Rubão: Eu comecei fazendo pequenos eventos com comida e fazia na casa dessas famílias, como na casa dos donos da Padaria Leal, os Ferrito, que eram meus vizinhos. Os Toda, japoneses, também eram meus clientes.

"Tinha primas e tias costureiras, que amavam fazer roupas diferentes para mim. Por isso que sou diferenciado até hoje!"

T+M: Lembras a tua idade nessa época?
Rubão: Entre 12 e 13 anos.

T+M: Nossa, Rubão, é, realmente, uma vida inteira dedicada à cozinha..
Rubão: Pois é, mas nunca pensei em abrir um restaurante, em ser gourmet. Acho que tudo vem naturalmente. Quando meu pai foi transferido para Brasília [o pai era funcionário da Rodofranc, de propriedade do engenheiro Efraim Bentes e era o homem de confiança do engenheiro, que o mandou para Brasília, para chefiar as operações da fábrica de cimento recém-aberta no planalto central], eu ainda era de menor e fui entregue para minha tia Mocinha. O nome dela era Cremildes Assis e todos a chamavam de Mocinha. Essa minha tia tinha uma fábrica de doces, salgados e comidas. Era uma loucura a produção dela! Pois bem, meu irmão mais velho foi com meu pai e depois, minha mãe. Doutor Efraim deu uma casa para o meu pai em Sobradinho [cidade satélite da capital federal]. Como eu estudava, fazia o técnico, fiquei.

T+M: Técnico em que?
Rubão: Contabilidade! Naquele tempo, esse diploma era um luxo! [e gargalha] Me formei, mas não quis saber de universidade. Comecei a trabalhar e me saí muito bem! A gente era pobre e eu via os sacrifícios do papai e da mamãe, então decidi ajudá-los. Eu trabalhava e entregava nas mãos deles. Fui pegar no meu dinheiro, no meu salário, em 1969, quando fui para o Exército. Faz as contas aí: cinquenta anos atrás, né?

T+M: E como foste parar no Exército?
Rubão: Meu irmão mais velho chegou a ser cabo na Polícia Especial do Exército. O Ronaldo também chegou a ser cabo... acabou se tornando a trajetória da família e era isso o que o papai queria. Lá eu entrei e fui soldado mesmo! Mas não quis ficar, queria minha liberdade. Naquele tempo, o Exército era uma dureza mesmo! Respeitei muito meus superiores, mas disse que não podia ficar.

Rubão (Dudu Maroja)

T+M: Onde serviste?
Rubão: Na 5ª Companhia de Guarda, que ficava na praça Frei Caetano Brandão, onde é hoje, a Casa das Onze Janelas. Tive um comandante maravilhoso, o Capitão-de-infantaria Luis de Paiva. Ele dizia “Lobato, você tem tudo para vencer na carreira [militar]!”, mas não era o que eu queria. Dediquei ao Exército todo meu respeito, com afinco, mas não era pra mim.

T+M: Por quanto tempo você serviu?
Rubão: Fiquei 1 ano e 8 meses.

T+M: Negro, gay, pobre, cozinheiro. Sentiste racismo, preconceito?
Rubão: Deixa eu te falar uma coisa. Pra mim, preconceito está na cabeça do ser humano. Eu sempre disse isso! Nunca sofri qualquer tipo de preconceito ou racismo. Sempre fui muito bem recebido em todas as famílias pelas quais eu passei e passo até hoje. Sou muito bem-relacionado até hoje! Eu sempre fui muito respeitador. Foram os ensinamentos dos meus pais. Sei entrar e sair de qualquer lugar. Tenho isso até hoje.

"Dediquei ao Exército todo meu respeito, com afinco, mas não era pra mim".

T+M: E como foi lidar com a revelação da tua orientação sexual aos teus pais?
Rubão: Olha, eu sempre tive um respeito muito grande à hierarquia. É muito bonito, hoje em dia, que os jovens se sintam à vontade para contar aos pais. Os meus irmãos, até acho que sabiam. Mas graças ao meu bom Deus, nunca precisei falar para eles, porque sempre fui trabalhador, honesto e respeitador. Não tive problemas. Meu pai nunca chegou para mim, pra falar sobre isso e impor. Eu era muito estudioso e fui um filho que não deu trabalho nenhum para eles. Meu pai morreu sem jamais ter me questionado. Minha mãe, muito menos. Ela era minha melhor amiga, me amava... [ele se emociona e chora. Pede desculpas e pergunto se ele quer que eu desligue o gravador, ao que ele responde que não]. Ela era tudo pra mim! Sinto muita falta dela e tem só quinze anos que ela partiu.

T+M: É uma lacuna que a gente não preenche...
Rubão: Nossa, nem me fale. Hoje eu me dedico integralmente ao meu trabalho, porque é uma forma de preenchimento. [ele chora um pouco mais]

T+M: Deduzo que tenhas muito dela, não?
Rubão: Tenho! Herdei dela a alegria que ela tinha. 

T+M: Mas ela tinha essa risada?
Rubão: Não, apesar de ser alegre, ela era muito reservada, contida. Eu, não! Sou mais expansivo e isso é meu!

T+M: Foi essa alegria que te levou pro Carnaval?
Rubão: Preciso contar essa história! Em 1972 ou 73, durante a inauguração da Doca, um amigo me levou e no momento em que chegamos, o “Quem São Eles” estava passando. Mana, eu não sei.... Foi um chamado! Invadi o desfile e parecia que eu sempre tinha pertencido à escola. O que eu dancei naquela noite... Conheci a Margarida, primeira porta-bandeira da escola. Maravilhosa que só ela, negra, linda. Depois que o desfile acabou, ela me fez o convite de fazer parte da escola. E eu fui. Ia às sextas e aos sábados. Entrava às 22 horas e dançava até 3 da manhã e, quando voltava pra casa, entrava de fininho e ia dormir. Muitas vezes eu não tinha dinheiro para tomar um ônibus, então voltava andando do Umarizal até a Cidade Velha e estava tudo bem! Só fui beber [álcool] aos meus 25 anos. A minha alegria nunca dependeu disso. Hoje eu danço, mas a idade já não permite umas extravagâncias. [ele ri muito]

T+M: [percebo uma foto em que Rubão está de salto na avenida] Rubão, alto desse jeito e com salto?
Rubão: Ai, maior tristeza: emprestei essa bota e nunca me devolveram. Eu tenho um metro e oitenta e desfilava só com salto a partir de 10 centímetros. Dançava a noite inteira! 

Para conhecer mais:
Bar do Rubão, na Travessa Gurupá, 312, Cidade Velha.

Troppo
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