A avó dos sonhos!

Em entrevista, Palmirinha fala sobre os desafios, conquistas, e incentiva que todos entrem na cozinha

Lorena Filgueiras

É simplesmente impossível não recorrer às metáforas gastronômicas para definir nossa convidada especial deste domingo. Palmirinha Onofre é um doce de pessoa! Mesmo tendo enfrentado dias muito difíceis, ela não desistiu – desejava (e precisava), com todas as forças, sustentar a casa proporcionar uma vida melhor às filhas, as quais considera grandes amigas até hoje. E foi com uma receita materna adaptada que ela conseguiu mais do que almejava. Aliás, a generosidade é, também, uma marca registrada da senhorinha que trata a todos por “amiguinhos” e “amiguinhas”. Aos 89 anos, recém-completos, tendo comemorado timidamente e em família, Palmirinha conversou conosco – um papo emocionante e delicioso, cheio de gratidão e de muito carinho, sua característica, que mais salta aos olhos. Neste dia dedicado aos avós, ouví-la é um privilégio e uma baita lição de vida – que ela dedica aos milhões de “netinhos espalhados mundo afora”, como afirma.        

Palmirinha (Divulgação)

Troppo + Mulher: Você acaba de fazer aniversário [29 de junho, quando completou 89 anos] – habitualmente aniversariantes têm de fazer um pedido ao soprarem as velinhas. O que você pediu? Pode revelar?
Palmirinha Onofre: Meu pedido de aniversário este ano foi para que em breve a gente possa acordar e receber a notícia de que vencemos essa pandemia e voltar a ver nossos amigos e familiares, se abraçar e comemorar a vida.
 
T+M: Qual o seu segredo para manter tanta jovialidade e alegria?
PO: A fé e a perseverança me fazem assim. Eu acredito que tendo saúde, a gente pode chegar onde a gente quiser. Então me sinto até emocionada quando as pessoas falam que eu transmito alegria. Sou mesmo muito feliz e abençoada e eu tenho muito o que agradecer a todos vocês que me fizeram estar onde estou hoje.
 
T+M: Você teve uma vida bem difícil – o que te motivava a seguir em frente?
PO: Sempre tive vontade de vencer na vida. Mesmo com as dificuldades que já passei nunca pensei em desistir. Meu sonho sempre foi dar uma melhor condição de vida para minhas filhas e fazer minha família feliz. O que me motiva hoje é olhar para trás e ver que eu consegui ir muito mais além do que eu imaginava.

T+M: Hoje se fala muito em mães que criam seus filhos sozinhas, mas na sua época, era incomum, desta forma, pergunto se você sofreu algum tipo de preconceito? E suas meninas? PO: Eu vivi numa época em que mulher que trabalhava fora para ajudar em casa não era bem vista. Imagina ter que criar as meninas sozinha?!? Não foi fácil não, viu amiguinha? Mas tive sorte de minhas filhas serem sempre minhas amigas e sempre entenderem que a mamãe fazia de tudo para dar o melhor para elas, para que elas conseguissem estudar e ter uma boa educação. Contei também com ajuda de muita gente que Deus colocou no meu caminho, amizades que levo para a minha vida toda de pessoas que estenderam a mão para mim no momento que mais precisei. Hoje olho para minhas filhas e vejo que elas foram o motivo de eu nunca desistir e agradeço muito Deus e à Nossa Senhora Aparecida por, mesmo nas dificuldades, a gente ter conseguido superar tudo estando sempre juntas!

T+M: Em qual momento você decidiu fazer comida? Aliás, se pudermos voltar um pouco no tempo, gostaria muito de saber quem a inspirou.
PO: Minha mãe sempre cozinhou muito bem. Meu primeiro contato com a cozinha [ocorreu quando] eu era muito menina. Devia ter uns 5 anos, quando comecei a mexer nas panelas da minha mãe, lá no sítio onde morávamos, em Bauru, no interior de São Paulo. Depois, já um pouco maior, vim para São Paulo morar com uma senhora francesa que cozinhava muito bem. Ela me ensinou a fazer pratos mais sofisticados, como molho béchamel e comidas para grandes banquetes. A culinária me conquistou desde pequena mesmo. Mas quando já adulta, quando eu tinha uns 34 anos – e tendo que cuidar das minhas filhas –, me vi na necessidade de fazer algo mais para ganhar um dinheirinho. Foi quando eu resgatei uma receita de pão doce que minha mãe fazia no sítio e adaptei para fazer um sonho. Eu nem sabia muito bem fazer o creme de confeiteiro naquela época. Aí, fiz uns 30 sonhos e sai de porta em porta vendendo. Me emociono muito ao lembrar desse dia, porque em 10 minutos eu já tinha vendido tudo. Voltei pra casa, fiz mais e voltei pra rua para vender. Daí em diante, não consegui parar mais de cozinhar. Comecei a fazer salgadinhos para vender na vizinhança. Minha amiga cabeleireira, a Hilda, que eu vou até hoje, me ajudava a vender, anotava os pedidos para mim e assim fui sustentando minha casa.

T+M: E como você foi parar na TV, Palmirinha?
PO: Foi graças aos meus salgadinhos que fui parar num programa de TV! Como comecei a fazer bastante encomenda de comida pra fora, uma das minhas clientes trabalhava no programa da apresentadora Silvia Poppovic. Na época, ela me convidou para participar de um programa sobre mulheres que criavam as filhas sozinhas. Eu fui participar e levei de presente para ela uma cesta com empadinhas. Ela gostou, contou no programa que eu aceitava encomendas e divulgou até o telefone. Foi um sucesso. No mesmo dia recebi muitos pedidos. Depois disso, outras portas foram se abrindo para mim. A equipe da apresentadora Ana Maria Braga me procurou para eu participar, na época, do programa Note e Anote, na TV Record. Minha participação deu certo e fiquei cozinhando no programa por quase 6 anos. Vocês sabiam que foi a Ana Maria Braga que criou meu nome de “Palmirinha”? Pois é! Eu a chamava de Aninha, aí ela falava: “se você vai me chamar de Aninha, vou te chamar de Palmirinha!”. E ficou até hoje! Com muito carinho! Depois da Ana Maria, recebi um convite da TV Gazeta. Fui contratada em 1999 e fiquei lá por 11 anos. Foi ali que consegui ir conquistando cada vez mais minha independência, comprar minha casa. Sempre fui muito feliz e grata por todos os lugares que passei e por todas as portas que foram abertas ao longo da minha trajetória. Depois da Gazeta fiquei por 3 anos na Fox Life, onde também fui muito feliz e conheci pessoas maravilhosas. Ano passado fui contratada para participar do programa “Chef ao Pé do Ouvido”, da GNT e sempre que consigo, tento atender aos convites para participações nos programas de TV.

T+M: Gostaria de saber como você tem passado esse período de pandemia - como tem sido seus dias? Com quem você está passando o momento?
PO: Eu moro com a minha filha e meu genro, então é bom porque nunca estou sozinha. Mas tenho saudade de ver meus bisnetos e bisnetas, de estar com meus netos, fazer as comidinhas que eles gostam. Sinto falta também de poder ir à feira e ao supermercado, mas nesse momento não tem como né, amiguinhos? Tem que se cuidar! Em casa, tenho visto muito os programas de TV que adoro. Amo todos os realities de culinária e também os programas de gastronomia. E tenho aproveitado para cozinhar ainda mais.

T+M: Do que tem sentido mais falta, Palmirinha? O que você quer muito fazer assim que for possível sair de casa com segurança?
PO: Quero poder sair para almoçar com a minha família. Quero poder estar perto das pessoas que eu mais amo. Sinto falta de ver gente, de receber o carinho dos meus amiguinhos e amiguinhas na rua, de abraçar, tirar foto. Mas tenho fé que logo, logo tudo vai passar.

T+M: Uma coisa me tem me chamado muita atenção neste período: ouço muitos relatos de gente que decidiu aprender a cozinhar ou que tem cozinhado mais, como se fosse uma maneira de estreitar a relação com o que há de mais afetivo em nossas histórias, que é o alimento. Qual o conselho que você dá para essas pessoas aprimorarem seus talentos? Qual o conselho para quem ainda não teve coragem de cozinhar?
PO: Estar em casa é um prato cheio para aprender a cozinhar, viu, amiguinhos?!? Pega aquela receita de família gostosa, que te lembra a infância, chama os filhos para ajudar. É muito gostoso resgatar os sabores que fizeram parte da nossa história. Eu apoio! Hoje em dia tem muito vídeo na internet que ensina tudo. Não tem desculpa! É só deixar a preguiça de lado e começar fazendo algo mais simples, que, aos poucos, a pessoa vai se familiarizando com a cozinha. Cozinhar é uma terapia para muitos! Para aqueles que não têm coragem de cozinhar eu dou uma dica: você não imagina o que você está perdendo, viu?

T+M: Qual sua especialidade na cozinha, Palmirinha? Lembra qual foi a primeira receita que você executou em sua vida?
PO: Eu gosto de comida caseira, de fazer aquela comidinha para o dia a dia mesmo: um belo arroz com feijão, um frango com polenta, um bolo de tarde para tomar com chá. Sou mais do trivial mesmo. A primeira receita que eu fiz foi um pudim de leite. Adoro fazer pudim até hoje!

T+M: Você é capa da edição especial pelo dia dos avós – me fala um pouco dos seus netos? Você é avó que cozinha tudo que eles querem? Você os ensinou a cozinhar?
PO: Tenho netos e bisnetos. São 6 netos e 5 bisnetos, mas costumo falar que tenho milhões de netinhos espalhados por todo esse mundo afora. Sou aquela vó e bisa que faz, sim, o que eles pedem. Adoro fazer o bolo melecado que meus netos e bisnetinhos adoram. Todos cresceram me vendo cozinhar. Meu bisnetinho adora me ajudar na cozinha.

T+M: Quais seus planos profissionais, que foram paralisados momentaneamente, mas que pretende retomar assim que possível?
PO: Meu plano é continuar com o projeto do café “Casa Vovó Palmirinha”, que já está em funcionamento há mais de 2 anos na Avenida Paulista, aqui em São Paulo. Nosso próximo passo é transformá-lo em um modelo de franquia. Quero ver muitas Casas da Vovó Palmirinha espalhadas por todo o país!

T+M: Qual um sabor do seu passado (pode ser uma receita de família) que você nunca mais pode provar?
PO: Eu me lembro muito do nhoque de batata doce que minha mãe fazia para mim e para minhas irmãs quando éramos crianças. Era um sabor incomparável e essa é uma receita que eu nunca mais tive a oportunidade de provar.
 
T+M: Você é considerada uma das figuras públicas mais amadas do Brasil - já parou para pensar a respeito? A que você atribui tanto carinho?
PO: Eu fico muito emocionada quando ouço isso de vocês. É graças ao carinho de vocês que sou o que sou hoje. Eu acho que manter sempre a humildade, não esquecer de onde a gente veio, olhar para trás e ver que trilhamos um caminho íntegro e honesto. Sou muito grata a Deus e à Nossa Senhora Aparecida por receber tanto amor de todos.

T+M: Por fim, em nome de tudo que você já viveu, quando olha para trás, o que você vê? Ficaram no retrovisor boas recordações ou más?
PO: Eu olho para trás e consigo ver uma história linda de superação e força de vontade. Deus colocou no meu caminho pessoas maravilhosas, que me acolheram, me ajudaram e tudo isso me faz enxergar o meu passado, mesmo cheio de dificuldades, como um aprendizado muito grande na minha vida. Só consigo sentir muita alegria por estar aqui hoje contando um pouco da minha história para vocês. Muito obrigada mesmo. Obrigada de coração!

Para conhecer mais:
@vovopalmirinha

Troppo
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