“A arte me nutre e me alimenta”

Lorena Filgueiras

Se o segredo de um bom roteiro de suspense é o mistério, o destino de Estela, personagem vivida pela atriz Letícia Lima, será cercado de muita expectativa – até porque não há uma data certa para ele ocorrer. Em função da pandemia, que suspendeu temporariamente as gravações (e exibição) da novela “Amor de Mãe”, todos nós teremos de aguardar para ver o desfecho desta charmosa vilã. Enquanto isso não ocorre, conversamos com Letícia – convidada especial desta edição – sobre esse papel dramático e intenso e, de quebra, sobre Arte, carreira, saúde e isolamento social.

Troppo + Mulher: Diz-se que o suspense é um ingrediente indispensável a uma boa trama... e a pandemia deixou em suspenso o fim da Estela. Meio que isso já foi adiantado, mas te pergunto: tem alguma reviravolta que a despedida pode causar?
Letícia Lima: Acho que Estela ainda vai causar bastante, especialmente para Álvaro [Irandhir Santos]. Ela ainda vai aprontar com ele. Do ponto em que deixamos a novela, ela já estava mostrando que seu retorno não era tão pacífico, que havia um plano maior por trás daquilo. Quando "Amor de Mãe" voltar ao ar, esse vai ser um dos desfechos que [o público] vai acompanhar.

Letícia Lima (Vinícius Mochizuki)

T+M: Depois de viver uma vilã com uma autoestima baixa, pergunto o que é mais difícil: a comédia ou o drama? Neste ensejo, a gente sabe que um bom vilão é aquele que mexe com as pessoas na vida real. Antes do isolamento, você teve esse feedback nas ruas?
LL: Drama e comédia são difíceis, cada um com sua particularidade. Independentemente do gênero, é preciso estar [com] a personagem, estar atenta às nuances dela e pensar na melhor maneira de trazer isso para o público. Eu gosto dos dois desafios. "Amor de Mãe" me permitiu mostrar mais o lado dramático para o grande público, que estava acostumado a me ver em personagens cômicas, como a Alisson, de "A Regra do Jogo", e no "Porta dos Fundos". Isso para mim foi um grande presente. Estela é uma personagem que mexe com as pessoas. Tem gente que quer acolher, tem outras pessoas que falam que ela não tem jeito. É muito bom ter esse feedback do público, que mostra que ele também se divide em relação a ela. Acho interessante porque isso também é uma forma de atestar a humanidade da personagem.

T+M: Você iniciou no Teatro, mas preciso voltar um pouco: seu pai e sua mãe são funcionários públicos, do interior do Rio de Janeiro. Certa feita declarou que são pessoas muito simples... Houve algum tipo de resistência por você querer ser fazer Teatro e ser artista? Pergunto isso porque seria o caminho “esperado” querer que a filha tivesse uma carreira mais estável...
LL:Quando eu decidi que seguiria a carreira de atriz, não foi uma decisão fácil de sustentar. Nem todo mundo na minha família apoiou. Mas eu sempre acreditei no meu sonho. Tive muita força e coragem para lutar por ele. E deu muito certo. Sou muito feliz e realizada na minha profissão!

T+M: Como foi esse começo de carreira, Letícia? Você se surpreendeu, em algum momento, com o fato de ter aptidão para a comédia?
LL: O começo da minha carreira foi no teatro interpretando Nelson Rodrigues (risos). Muita gente não sabe que eu comecei, na verdade, no drama. A comédia já fazia parte da minha vida desde muito nova. O que fiz foi levar esse meu lado tão presente na vida pessoal também para o trabalho. 

T+M: A sua projeção se deu com o Porta dos fundos - em que momento você decidiu sair? Cogitaria voltar?
LL: Foi um período muito bom e de muito crescimento profissional. Acho que foi um ciclo que se encerrou. Eu saí porque tinha outros projetos acontecendo e não conseguiria me dedicar a todos simultaneamente. Mas eu adoro o canal e tenho um carinho muito especial. Tanto que já voltei para fazer coisas lá. Participei de uma esquete, em 2019, com Fábio [Porchat] e Danni Suzuki. Foi legal voltar!

“Todo tipo de piada que ofende alguém eu não faço. Porque se fere o outro, já não é piada, não é engraçado”.

T+M: Falando no Porta, não teria como não perguntar sobre o atentado que o grupo sofreu (sede) por conta do especial de Natal - um assunto que rendeu muita polêmica. A polarização que se colocou no país, além de uma criminalização que se direcionou aos artistas te assustaram? Qual o papel da comédia no Brasil, atualmente? E do artista?
LL: O que me assusta é a intolerância, a falta de respeito. Nunca podemos normalizar a violência nunca. O papel da Arte é fazer você refletir. Acho que ninguém sai do cinema ou do teatro da mesma maneira que entrou. Nunca. A Arte transforma, mesmo quando você não percebe. Daí a importância da representatividade nas novelas, nos filmes, nas peças... Quanto mais plural, mais transformação ela gera. Não tenho dúvida disso. A comédia é uma das ferramentas da arte para fazer pensar.

T+M: Pegando carona com tantos assuntos, pergunto: há limites quando falamos de comédia? Com o que não fazes piada de jeito algum?

LL: Primeiro, eu acho que a liberdade de expressão é fundamental, mas acho que há limites. É muito tênue, porque para cada um esse limite varia. Por isso, é importante mais pessoas estarem envolvidas no processo. Às vezes, o que para você seria inofensivo, pode agredir outra pessoa. Todo tipo de piada que ofende alguém eu não faço. Porque se fere o outro, já não é piada, não é engraçado. É algo que talvez reforce alguma opressão, alguma violência.

T+M: A carreira te possibilitou realizar algum sonho de consumo material?
LL: Sim, me possibilitou comprar meu apartamento.

T+M: Qual sonho ou realização a pandemia adiou?
LL: Adiou minha viagem para os Estados Unidos. Eu ia fazer imersão da Broadway e, depois, iria para Los Angeles fazer alguns cursos lá. Adiei por causa da pandemia. Quando passar, retomarei esses projetos. Agora, o mais importante é ficar em casa, para quem puder. E quem tem que sair, que continue se cuidando e se protegendo!

Letícia Lima (Vinícius Mochizuki)

“Feminismo é importante porque ainda não vivemos em uma sociedade igualitária”.

T+M: Há algum tempo, você declarou, de maneira muito humana e sincera, ter depressão - que é uma doença cujo tempo verbal dificilmente se conjuga no passado e demanda uma observação sempre de perto: como foi descobrir isso, Letícia? Digo, o diagnóstico dificilmente é percebido por quem sofre. Como foi descobrir a doença. E, embora haja muito tabu, como tem sido falar sobre isso?
LL: Justamente por ainda ser um tabu, acho importante falar. Descobrir a doença é importante porque aí você começa a entender que aquilo que você sente tem maneiras de tratar. Não é frescura, não é bobeira, não é “só sair de casa que passa”. É uma doença, é um desequilíbrio químico. E é preciso cuidar disso. Eu faço tratamento com terapia e medicamentos até hoje. E sempre faço questão de falar que a gente convive com isso. Não há nada de errado com você. É preciso buscar tratamento.

T+M: Neste período de isolamento, de que formas tem cuidado da tua saúde mental?
LL:Eu leio, cozinho, converso por meio de chamada de vídeo com amigos e familiares, dou e recebo muito carinho dos meus pets (Bruno, Juju e Bianca). Mas uma dica para todo mundo é: não ache que você tem que ver todas as lives, fazer todos os cursos, ver todos os filmes, fazer exercícios, rotina de skincare, passear virtualmente por todos os museus. Entenda seu tempo de fazer as coisas, como tudo que está acontecendo te afeta. Veja de que maneira você pode responder a tudo isso. Isso é o mais importante: se escutar, se acolher e entender o seu tempo.

T+M: A sua beleza salta muito aos olhos - como é, pra você, lidar com o rótulo de símbolo sexual?  Você teve de lidar, em algum momento, com preconceito e questionamentos? E assédio em algum momento?
LL: Muito obrigada! Eu não tenho problema nenhum com o rótulo. Mas entendo que esse rótulo vem de um padrão estabelecido socialmente. E isso precisa ser questionado sempre. Cada vez mais vemos um movimento de aceitação da mulher especialmente como ela é. Cada vez mais celebramos a singularidade do corpo feminino e a potência que ele traz. Mas esse é um aprendizado diário.

T+M: Sei que você se define como feminista: em qual momento, você teve consciência dessa luta e da necessidade dela?
LL: Eu sempre fui feminista. Desde pequena, não fazia sentido para mim o argumento de que eu teria que agir diferente por ser menina. Esse argumento nunca fez sentido e não faz até hoje. Feminismo é importante porque ainda não vivemos em uma sociedade igualitária, em que homens e mulheres têm os mesmos direitos. Ainda não temos. E continuamos lutando por esses direitos, pelos espaços, reivindicando. Acredito que estamos no caminho certo, mas o caminho ainda é longo.

T+M: Costumas receber essa interação dos seus seguidores? Se considerarmos o papel que as redes sociais têm assumido neste momento de distanciamento e isolamento, você virou amiga de algum seguidor seu? Já teve contato com histórias emocionantes? Pretende tomar café com um deles quando tudo isso acabar? (risos) Desculpe tantas perguntas.
LL: É uma relação é mais virtual mesmo (risos). Recebo todo tipo de história, desde as emocionantes até aquelas mais engraçadas. Acho que tudo isso faz parte do processo artístico, como falei acima. A situação da Estela em "Amor de Mãe", por exemplo: tem gente que escreve puxando a orelha dela. Outras pessoas dizem que entendem, que já passaram por uma situação assim, tentam dar conselhos. Além das redes sociais, a arte aproxima as pessoas.

T+M: Aliás, preciso perguntar se algo mudou ou ressignificou na sua cabeça. Digo, a respeito deste período? A Letícia sairá diferente desta experiência? Você está vivendo isso tudo sozinha? Se sim, como tem lidado com a solidão, a ansiedade? Se não, como é lidar com companhia 24h por dia?
LL: Sim, estou vivendo sozinha. Eu já estava em um processo de meditação e reflexão grande por conta da reta final da novela, me preparando para me despedir do trabalho. O confinamento aprofundou isso ainda mais. Como já vinha nesse processo de autoconhecimento, acredito que vou ter algumas respostas para os questionamentos que venho me fazendo. Falando enquanto sociedade, pode ser um momento de mudanças, de pensar novas maneiras de fazer as coisas. Estamos adaptando muitos processos, por exemplo, a maneira como a gente vê filmes, shows... Quando as coisas começarem a se normalizar, como vai ficar essa retomada? Temos que pensar nisso também. Há muitas questões que precisamos refletir.

T+M: Você revelou que teve um irmão, que faleceu ainda criança. Isso ocorreu quando você também era só uma menina. O acontecimento reverberou por muito tempo em ti? Digo, espiritual e energeticamente falando? Ainda dialogas com essa metade tua? Ou não mais?
LL: Perder meu irmão foi doloroso. É um processo do qual a gente não se recupera porque nada volta a ser como antes. O que acontece é que a gente aprende a viver com isso, a conviver com essa realidade, essa falta. Ele será uma saudade sempre sentida por mim.

T+M: Por fim, Letícia, tenho uma pergunta meio filosófica, mas é que te sigo no insta e acho um barato a tua bio. Assim, finalizo: o que te nutre, te alimenta?
LL: A arte me nutre e me alimenta. A vida. Meus pets. Minha família. A vida da gente é troca: estamos nutrindo e sendo nutridos. Tudo que cruza nosso caminho tem um impacto na nossa vida. Assim como acredito que nós fazemos com o outro. Por isso, é importante estar sempre atenta a si e entender se você está sendo de fato nutrido e alimentado ou drenado.

Para conhecer mais:
@aleticialima

Troppo
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