Todas as mulheres são belas

Cresce movimento em que mulheres que buscam valorizar suas características naturais

Gil Sóter

Que cor, que idade, que forma tem a beleza feminina? “Cada uma com sua beleza singular, individual. É impossível você querer padronizar isso”, defende Sheime Denadai, terapeuta que acredita na doce e revolucionária atitude de se olhar no espelho sem os filtros dos padrões industriais da moda, e reconhecer a poesia de ser exatamente quem se é. 

Diverso e sem rédeas, o ser feminino em sua pluralidade se tornou a narrativa da vez. Nos comerciais de TV, nas novelas, nas revistas, na web: o belo assumiu várias possibilidades. Especialmente no Brasil, que é um dos maiores mercados de beleza do mundo - sendo o segundo em cirurgias plásticas e o terceiro em cosméticos -, a auto aceitação e a busca por assumir aparências “fora da caixinha” são caminhos que subvertem uma lógica secular - paradigma que por gerações alimenta neuroses, cria mercados de consumos bilionários e empurra mulheres a esforços infindáveis em busca de padrões inalcançáveis de aparência.

Sheime (Naiara Jinknss / Troppo)


 
“A sociedade escolhe características que serão consideradas bonitas e as mulheres tentam se encaixar. Mas isso é absurdo. Isso é cruel. A gente é tão bonita, só precisamos aprender a enxergar a nossa beleza e a beleza do outro. Esses padrões estão aí para nos oprimir, para estabelecer o patriarcado e nos manter sobre controle, nos objetificar, nos fazer consumir produtos de beleza, procedimentos estéticos”, critica Sheime. “Falta a gente se reconhecer e se aceitar, sermos mais leves. Eu não critico as mulheres que pintam os cabelos ou fazem plástica. Cada um tem o seu caminho, mas eu escolhi deixar a coisa fluir”, conta a terapeuta vibracional e também estudante de Psicologia.
 
Vegana há cerca de 4 anos, Sheime também adotou produtos naturais para a higiene pessoal e cosméticos. Aos 45 anos e com seus cabelos prateados, ela diz que nunca se sentiu tão bonita. “É a minha melhor fase. Eu sei que isso tem muito mais a ver com meu estado de espírito e auto aceitação, do que com qualquer outra coisa. Não é que agora eu esteja me encaixando nos padrões. Mas é que agora eu consigo me enxergar e me ver como uma mulher bonita”.
 
Ela diz que a decisão de não tingir os cabelos ainda incomoda algumas pessoas, sobretudo a família, que a incentiva a pintá-los. Por outro lado, conta com o apoio de amigos para deixar os fios brancos. “Assumir esse corpo que está se transformando e perceber que isso é natural, e deixar que essas transformações aconteçam não quer dizer ser desleixada. Tenho muito mais cuidado com a minha saúde agora: faço exercícios, danço, uso óleos essenciais, produtos naturais, me mantenho hidratada e saudável”. Tal postura derivou de um processo que combinou espiritualização, terapia e feminismo. “Foi principalmente o feminismo, que é muito libertador. Ele diz que é ‘ok’ você ser quem você é. Minha vida foi transformada por todos esses aspectos”. 

Rebel, rebel


Franja no meio da testa, piercings, muita atitude. Pietra Pojo, aos 21 anos, é um mulherão que chama a atenção por onde passa. Influencer Digital, maquiadora e estudante de Publicidade e Propaganda, ela conta que, apesar de uma infância desafiadora ao ser alvo de piadas, nunca se deixou abalar. Plus size, ela diz que aprendeu a amar cada detalhe do seu corpo. “Sempre fui muito certa de que eu era alguém incrível. Abaixar a cabeça nunca foi uma opção pra mim”.

Pietra (Naiara Jinknss / Troppo)


 
Estar “fora dos padrões” lhe custou, inclusive, vagas no mercado de trabalho, quando foi considerada competente, porém, com uma aparência “inadequada”. “Isso aconteceu com estágios que eu quis, não só por ser gorda, mas por querer ser eu! Usar meu cabelo da forma que eu uso, a roupa que quero, e isso acabar incomodando as pessoas, e essa reprodução preconceituosa surge por parte dos outros, principalmente por eu não ser comum, não ser ‘normal’”, relata.
 
Amar-se foi um processo minucioso. Na frente do espelho, o corpo nu virou uma obra sinuosa a ser admirada. “Me peguei em um processo lento de amar meus detalhes, um por um. Como cada curva minha era só minha e que todo amor acumulado que eu tinha pra dar aos outros, deveria também ser dado a mim, dona de mim. Comecei a me admirar pelada na frente do espelho todos os dias quase como em um ritual matinal, até que um dia eu percebi que eu me amava, finalmente, e o resto era o resto: meu corpinho já tinha tudo o que precisava”. 
 

Enfim, os caracóis dos cabelos


Desde os 13, Dani Walendorff encarava as químicas que lhe tiravam os cachos. Fez de tudo: relaxamento, alisamento japonês, alisamento com formol, definitiva, escova temporária. Foram anos de muito incômodo no puxa-puxa que tanto lhe machucou o coro cabeludo e lhe drenou muito dinheiro, além de horas perdidas no salão. “Alguns processos demoravam, fediam, faziam meus olhos arderem. Eu tinha que alisar ou relaxar de três em três meses”, relembra a jornalista, de 34 anos.

Dani Walendorff (Daniela Almeida)

Dani já nem lembrava como eram seus cachos. Até que, por volta dos 25 anos, ela passou a observar a beleza dos crespos em outras mulheres. “Achava o cabelo delas lindo e como elas pareciam ter mais atitude”, diz. “Comecei a me questionar: o meu cabelo também é enrolado, mas será que ficarei bem de cabelo enrolado? Chega a ser irônico você se questionar se o seu cabelo natural vai combinar com você”.

A decisão de deixar de alisar os fios foi um longo processo. “Eu, simplesmente, não conseguia voltar a ter os cabelos naturais. E foi aí que comecei a conhecer meninas que tinham voltado a ter cabelos naturais e praticamente todas elas estavam mais bonitas com o seu cabelo natural do que com o cabelo liso”, lembra. O apoio do marido foi importante para que a transição capilar acontecesse. “Ele sempre me incentivou desde quando nós conhecemos a voltar a ter os cabelos naturais. Ele sempre disse que com certeza, eu iria ficar mais bonita”.

Em meados de 2016, Dani deixou o liso de lado. Adeus chapinha, alisamentos. Entraram em cena os cremes para dar forma e volume aos cacheados. Para isso, compartilhar a experiência e buscar informação na internet ajudou bastante. “O mais importante é o círculo de força e solidariedade que criamos. Graças à internet, muitas mulheres me inspiraram, me motivaram e me deram forças no período de transição e eu também consegui me conectar e ajudar outras mulheres”.

Mas nem tudo são flores. No período de transição capilar, Dani foi alvo de muitos palpites incômodos. “É incrível como muita gente se mete no seu cabelo. Muita gente comenta que seria bom se seu cabelo fosse enrolado, mas não tanto, que seria melhor cortar, que seria melhor isso, aquilo. E percebi que as pessoas se incomodam muito com quem tem cabelo crespo e enrolado”. Foi aí que ela começou a entender os motivos de, por tantos anos, ter se esforçado para alterar os fios. “Nesse momento, lembrei que quando era criança, me chamavam de ‘loirinha do cabelo Bombril’. Eu odiava. As pessoas criticavam, faziam brincadeiras sem graça. Por isso, eu não gostava do meu cabelo, mas como era criança, não entendia”.

Para a jornalista, usar os cabelos naturais representa aceitação e autoconhecimento da própria identidade. “Não é uma simples mudança, mas é você entender que você foi vítima de preconceito quando era criança, vítima dos padrões da sociedade e que você pode ser linda e se sentir bem como quiser seja com cabelo crespo, liso, careca, colorido”.

Black is beautiful

Lanna Marques cresceu na solidão identitária de ser a única mulher negra da família. Numa época em que questões raciais não eram tema de debate, lhe restava lidar com o desconforto de não se ver representada nas bonecas e nos programas de tevê. Na escola, tentava se adequar usando sempre os cabelos penteados e amarrados. 

“As piadas e comentários racistas que eu ouvia sobre minha aparência reforçavam um sentimento de vergonha e tristeza. Lembro de me esquivar de afagos na cabeça, porque não queria que as pessoas tocassem nos meus cabelos e a falta de beleza se tornasse evidente para elas”, conta a professora, de 38 anos.

Na juventude, buscou reduzir o volume dos fios com o relaxamento químico. Manteve por dez anos a rotina de usar o produto, que a incomodava pelo forte odor. “Relaxar os cabelos durante muitos anos não me causava conflitos internos porque simplesmente parecia ser o correto a se fazer”.

Os questionamentos a respeito dos padrões de beleza chegaram por meio de leituras feministas, quando começou a pós-graduação em Antropologia, na Universidade Federal do Rio Grande do Norte. A partir de textos da norte-americana Bell Hooks, uma das mais importantes pensadoras do feminismo negro, Lanna se conectou a questões da negritude e estruturas de opressão de gênero e raça.

Lanna (Naiara Jinknss / Troppo)

“Busquei mais leituras, encontrei blogs e fóruns de discussão sobre questões raciais e desenvolvi minha pesquisa no grupo de expressões da cultura popular -o que me pôs em contato com aspectos culturais da identidade negra que até então me eram distantes. Foi nesse momento que decidi que assumiria meus cabelos”.

Ela conta que foi desencorajada a parar de usar as químicas de redução de volume, e teve de aprender a cuidar dos seus cachos. “A transição foi um processo doloroso e solitário”, diz. “Tive que desconstruir na minha cabeça a ideia de ‘cabelo bom’ e aprender a enxergar beleza na textura e no volume dos meus fios, por isso, acredito que assumí-los na sua forma e nas suas peculiaridades é um exercício de liberdade, de resistência e de amor”. 

O simbolismo de usar os cabelos afro se tornou, na mesma medida, uma profunda conquista subjetiva e política. “Assumir meu cabelo foi assumir minha negritude. Foi afirmar esteticamente para as pessoas que não me viam ou não me queriam como negra que, sim, eu era negra e estava orgulhosa disso”.

Professora de Artes na rede pública de ensino, Lanna sabe da importância que sua figura como mulher negra e consciente representa para meninos e meninas da periferia. Na perspectiva da liberdade e cidadania construída por meio da educação, promoveu na mais recente celebração do Dia da Consciência Negra debates em sala de aula. 

“Minha disciplina me dá a possibilidade de falar sobre as questões ligadas à negritude e nesses anos de trabalho consigo perceber alunas soltando seus cabelos crespos, se sentindo bonitas e orgulhosas de seu volume. Sentir que colaboro para essa aceitação e orgulho do próprio cabelo também é empoderador”.

O Liberal
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