Mulheres 40+ ganham espaço na tecnologia e impulsionam negócios inovadores na Amazônia
No Pará, empreendedora transformou pesquisa científica em negócio premiado internacionalmente
Quando começou a percorrer comunidades do interior do Pará para estudar a cadeia produtiva das abelhas sem ferrão, em 2019, a engenheira de produção e pesquisadora Ana Lídia Zoni ainda não imaginava que aquela pesquisa científica daria origem a um negócio reconhecido internacionalmente. Aos 43 anos, ela se tornou uma das referências em bioeconomia e inovação na Amazônia ao criar a Hidromel Uruçun, empresa que produz uma versão amazônica do hidromel — bebida alcoólica considerada uma das mais antigas do mundo.
A ideia surgiu durante um levantamento realizado em parceria com a Embrapa Amazônia Oriental sobre a meliponicultura, atividade ligada à criação de abelhas nativas sem ferrão. Ao visitar 27 municípios paraenses, Ana Lídia conheceu produtores rurais, analisou a realidade econômica das famílias e identificou uma dificuldade recorrente: o mel produzido por essas abelhas tinha baixa aceitação comercial por possuir características diferentes do mel tradicional.
“Um fator muito importante é que até aquele momento não existia regularização para o mel de abelhas sem ferrão. Então, se esse mel fosse levado para análise, ele acabava sendo enquadrado como um mel falso, não porque fosse adulterado, mas porque tinha uma composição diferente do mel da abelha africanizada e italiana”, explica. Foi então que ela enxergou uma oportunidade de transformar o problema em produto. “Eu pensei: por que não pegar esse mel e transformar no hidromel?”, relembra.
A partir dali, Ana Lídia mergulhou em um processo de capacitação para transformar a pesquisa em empreendimento. Com apoio de programas do Sebrae, ela estruturou a empresa e participou, em 2021, do edital Inova Amazônia. Entre cerca de 200 negócios selecionados nacionalmente, a empresa ficou entre as 21 primeiras colocadas, garantindo uma imersão na Alemanha em 2022.
A experiência abriu caminho para a internacionalização do negócio. A pesquisadora também participou de programas da ApexBrasil voltados ao empreendedorismo feminino e exportação, como Mulheres Globais e Mulheres em Negócios Internacionais. Nos anos seguintes, integrou missões empresariais para a África do Sul, Panamá e Singapura.
“Hoje a gente vende história, mas a recorrência vem pela qualidade do produto”, afirma.
O reconhecimento veio em sequência. Em 2024, o hidromel produzido pela empresa conquistou o segundo lugar na Mead Cup Brasil, considerada uma das principais premiações do setor na América Latina. No mesmo ano, Ana Lídia foi eleita uma das Mulheres Inovadoras da região Norte pelo Finep e passou a atuar como embaixadora do programa BNDES Garagem.
Atualmente, a empresa utiliza cerca de cinco toneladas de mel por ano, matéria-prima suficiente para produzir aproximadamente 25 mil litros da bebida. A cadeia produtiva envolve cerca de 300 famílias fornecedoras de mel no Baixo Amazonas, Baixo Tocantins e Nordeste Bragantino.
Lideranças femininas
Segundo Ana Lídia, a maioria das lideranças envolvidas na produção é feminina. Dentro da própria empresa, as mulheres representam cerca de 80% da equipe.
“As mulheres 40+ são muito resistentes e resilientes. Quando recebem uma oportunidade, valorizam e fazem acontecer”, diz. “A gente consegue executar muitas tarefas ao mesmo tempo e transformar conhecimento em resultado”, conclui.
Para a pesquisadora, o cenário atual é mais favorável para mulheres que desejam empreender ou migrar para áreas ligadas à ciência e tecnologia (Foto: Carmem Helena/O Liberal)
Além do aspecto econômico, ela afirma que o projeto nasceu com a intenção de fortalecer a indústria de transformação na Amazônia e gerar renda local: “Seria muito mais fácil vender esse mel para outros estados, mas minha intenção sempre foi transformar esse insumo aqui dentro, gerar emprego, desenvolver comunidades e manter essa riqueza na região”.
Para a pesquisadora, o cenário atual é mais favorável para mulheres que desejam empreender ou migrar para áreas ligadas à ciência e tecnologia: “Hoje existem mais editais, capacitações e apoio financeiro para quem quer desenvolver um produto ou serviço. Está muito mais fácil do que era há oito anos”.
Projeto no Senado
A discussão sobre a presença feminina madura em áreas tecnológicas também chegou ao Senado Federal. O PL 990/2026, de autoria do senador Jader Barbalho, prevê incentivos fiscais para empresas que criarem programas de mentoria, capacitação e contratação de mulheres com 40 anos ou mais em áreas ligadas à ciência, tecnologia, engenharia e matemática.
Pela proposta, empresas poderão receber deduções parciais no Imposto de Renda caso comprovem ações voltadas à qualificação ou contratação dessas profissionais. O texto também prevê bolsas de estudo e iniciativas voltadas à transição de carreira para mulheres interessadas em ingressar no setor tecnológico.
Em entrevista ao jornal O LIBERAL, o senador Jader Barbalho disse que a proposta busca enfrentar um cenário em que profissionais experientes acabam excluídas por critérios etários. “Muitas mulheres nessa faixa etária ficam fora das oportunidades mesmo tendo experiência e capacidade para atuar em áreas estratégicas da economia digital”, afirmou.
O projeto também prioriza mulheres em situação de vulnerabilidade social, desemprego prolongado ou em processo de recolocação profissional. Para Jader Barbalho, o incentivo à qualificação feminina pode ajudar a reduzir desigualdades e ampliar a participação de mulheres em setores estratégicos da economia.
“A proposta alia inclusão social, inovação tecnológica e desenvolvimento econômico, ao mesmo tempo em que valoriza o potencial de mulheres com ampla experiência profissional”, declarou.
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