Mulheres ganham espaço no setor de tecnologia, mas ainda enfrentam desafios de liderança
No Pará, iniciativas impulsionam a participação das cientistas no ramo da tecnologia
O setor de tecnologia, historicamente dominado por homens, tem registrado aumento da presença feminina nos últimos anos. No Brasil, a participação de mulheres em cargos de tecnologia cresceu cerca de 60% nos últimos cinco anos, segundo dados do Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged). Apesar do avanço, elas ainda ocupam apenas 20% das novas vagas abertas em Tecnologia da Informação (TI) e representam 19,2% dos especialistas na área.
A desigualdade se torna ainda mais evidente nos cargos de liderança: apenas 12% das posições de gerência e cerca de 10% das diretorias em grandes empresas de tecnologia são ocupadas por mulheres.
No Pará, o cenário segue a tendência nacional. Em ambientes de pesquisa e inovação, a presença feminina também cresce, embora ainda seja minoritária em posições estratégicas.
Presença feminina na ciência cresce no Pará
No Parque de Ciência e Tecnologia Guamá (PCT Guamá), um dos principais polos de inovação da região Norte, o número de pesquisadoras vem aumentando. Atualmente, o ecossistema reúne 475 pesquisadores residentes e associados, sendo 190 mulheres.
O parque destaca que as profissionais têm ampliado a presença em projetos de ciência aplicada e inovação voltados para desafios regionais, especialmente nas áreas de energia, tecnologia educacional e sustentabilidade.
Entre essas lideranças está a engenheira eletricista Emília Tostes, diretora do Centro de Excelência em Eficiência Energética da Amazônia (Ceamazon), instalado no PCT Guamá. A trajetória dela na engenharia começou ainda na infância.
“Eu sempre tive muita facilidade com matemática. Em casa, essa era uma linguagem comum. Somos quatro irmãs e todas seguimos para a engenharia”, conta.
Segundo ela, incentivar o interesse pela matemática desde cedo é fundamental para ampliar a participação feminina em áreas técnicas.
“É preciso acabar com a ideia de que matemática é para homens. A capacidade intelectual é igual e homens e mulheres têm potencial para atuar em qualquer área”, afirma.
Tecnologia para transformar a Amazônia
À frente do Ceamazon, Tostes lidera pesquisas voltadas à eficiência energética e à inovação no setor elétrico. Um dos projetos desenvolvidos na região inclui a implantação de mobilidade elétrica, com ônibus elétricos na Universidade Federal do Pará e estudos para ampliar a infraestrutura de carregamento de veículos.
A iniciativa também resultou no desenvolvimento do primeiro catamarã elétrico da Amazônia, que utiliza energia solar para navegação.
“Trazer mobilidade elétrica para a região amazônica é também uma forma de preservar a floresta. Estamos falando de reduzir emissões, melhorar a qualidade do ar e desenvolver soluções tecnológicas adaptadas à nossa realidade”, explica.
Para a pesquisadora, iniciativas desse tipo demonstram o potencial da ciência regional e também ajudam a inspirar novas gerações de mulheres a seguir carreira na área tecnológica.
Educação é caminho para ampliar presença feminina
Além do mercado de trabalho, o incentivo à participação feminina na ciência também começa na educação básica. Em Belém, dados da Secretaria Municipal de Educação de Belém mostram avanços na participação das meninas em projetos científicos.
Hoje, 56% das equipes de projetos científicos escolares são formadas por alunas, enquanto 55,6% dos orientadores são mulheres, reflexo de políticas educacionais voltadas ao protagonismo feminino na ciência e na tecnologia.
Programas de formação também contribuem para ampliar as oportunidades. Executado pela Secretaria de Ciência, Tecnologia e Educação Superior, Profissional e Tecnológica do Pará (Sectet), o programa Mulheres Mil já certificou mais de 1,6 mil mulheres entre 2022 e 2025 em cursos profissionalizantes realizados em municípios como Belém, Ananindeua, Castanhal, Bragança, Salinópolis e Soure.
Caminhos profissionais dentro da tecnologia
A presença feminina também cresce em empresas e startups de tecnologia. É o caso da pedagoga e pesquisadora Bárbara Chagas, gerente de projetos educacionais da startup Inteceleri.
Ela começou a trabalhar com tecnologia ainda na graduação, quando passou a usar ferramentas digitais no ensino.
“Sempre gostei de tecnologia e, durante a universidade, comecei a trabalhar com tecnologias educacionais. Comecei como estagiária e fui crescendo dentro da empresa”, conta.
Hoje, além de coordenar projetos em diferentes municípios do Pará, ela também atua na formação de professores para o uso de ferramentas tecnológicas em sala de aula.
Apesar dos avanços, Bárbara destaca que a desigualdade de gênero ainda é perceptível no mercado.
“A média mundial de mulheres em cargos de liderança ainda é inferior a 29%. Isso mostra que, apesar do crescimento, ainda temos um longo caminho pela frente”, afirma.
Desafios ainda persistem
Mesmo com o crescimento da participação feminina no setor, especialistas apontam que barreiras culturais ainda limitam o acesso das mulheres a cargos estratégicos.
Para Bárbara, a mudança precisa começar na formação social e educacional.
“É necessário mudar a forma como meninos e meninas são educados. Precisamos mostrar desde cedo que mulheres têm competência para atuar em qualquer área, inclusive na tecnologia”, diz.
A pesquisadora Emília Tostes reforça que ampliar o acesso à ciência e às áreas técnicas desde a infância é essencial para garantir maior diversidade no setor.
“Não existe nada mais gratificante do que trabalhar sabendo que você está contribuindo para melhorar a qualidade de vida das pessoas e ajudar a preservar o planeta”, afirma.
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