Especialistas apontam que IA autônoma vai transformar empresas, mas não substituir profissionais
Gemini Enterprise, plataforma do Google, introduz agentes de IA capazes de executar tarefas completas de forma autônoma, como analisar dados, elaborar relatórios, responder clientes e conduzir processos inteiros a partir de um único objetivo definido pelo usuário
A chegada de uma nova geração de inteligência artificial às empresas deve transformar a forma como o trabalho é organizado, mas não significa o fim dos profissionais humanos. O lançamento do Gemini Enterprise, plataforma do Google, introduz agentes de IA capazes de executar tarefas completas de forma autônoma, como analisar dados, elaborar relatórios, responder clientes e conduzir processos inteiros a partir de um único objetivo definido pelo usuário. Para pesquisadores da área de administração e tecnologia, o impacto mais imediato será a mudança nas funções exercidas pelos trabalhadores e no modelo de gestão das organizações.
Para o professor doutor em Administração e especialista em inteligência artificial da Universidade do Estado do Pará (Uepa), Igor Gammarano, a principal inovação está na capacidade da IA de agir de forma independente.
“A grande novidade não é simplesmente uma IA mais inteligente, mas uma IA que ganhou capacidade de agir. Antes, era preciso orientar cada etapa. Agora, basta informar o objetivo, e o agente interpreta o problema, consulta diferentes fontes, utiliza ferramentas, executa as etapas necessárias e verifica os resultados”, explica o professor doutor em Administração e especialista em inteligência artificial da Uepa, Igor Gammarano.
Segundo o pesquisador, isso representa uma mudança na forma como as pessoas interagem com os computadores.
“Estamos saindo da lógica do comando para a lógica da intenção. Em vez de ensinar ao computador todas as etapas de uma tarefa, dizemos qual resultado queremos alcançar”, afirma Igor Gammarano.
Na avaliação dele, a tecnologia vai além da automação tradicional.
“Estamos avançando da automação de tarefas para a automação de trajetórias de trabalho. Um sistema convencional executava o passo A, depois o B e depois o C. O agente pode perceber que uma etapa não funcionou, procurar uma alternativa e reorganizar sua estratégia”, destaca Igor Gammarano.
Empresas terão de administrar pessoas e agentes inteligentes
Para o professor doutor em Administração Ronny Luis Sousa Oliveira, pesquisador em inteligência artificial aplicada aos negócios, a maior mudança ocorrerá na forma como as organizações são administradas.
“A grande transformação não é tecnológica, é gerencial. Pela primeira vez, as empresas passam a ter colaboradores digitais capazes de interpretar objetivos, tomar decisões intermediárias, coordenar atividades e aprender continuamente”, avalia Ronny Luis Sousa Oliveira. Segundo ele, isso altera o papel da liderança.
“Os gestores deixam de administrar apenas pessoas e processos para coordenar ecossistemas híbridos, compostos por humanos e agentes de IA. O foco deixa de ser controlar cada etapa da execução e passa a ser definir objetivos, limites éticos, critérios de qualidade e mecanismos de supervisão”, afirma.
Na avaliação do pesquisador, trata-se de uma transformação comparável à Revolução Industrial.
“Na Revolução Industrial, as máquinas ampliaram a força física humana. Agora, ampliam a capacidade cognitiva. As empresas vão competir menos por produtividade operacional e mais pela qualidade das estratégias e pela capacidade de integrar criatividade humana com execução automatizada”, explica Oliveira.
O especialista em Análise e Desenvolvimento de Sistemas do Centro Universitário Martha Falcão Wyden, Wollace Picanço, ressalta que a inteligência artificial fortalece o trabalho humano, em vez de substituí-lo.
“A inteligência artificial não muda, por si só, o modelo de gestão. O que ela proporciona é um ganho significativo de tempo e eficiência. Ao automatizar atividades repetitivas, permite que gestores e equipes se concentrem em planejamento, inovação, tomada de decisões e relacionamento com clientes”, afirma Wollace.
Segundo o especialista, a adoção dessa tecnologia tende a começar justamente nas áreas que concentram atividades repetitivas e baseadas em dados.
“A inteligência artificial pode ser utilizada praticamente em qualquer setor que possua atividades repetitivas, padronizadas e baseadas em dados. Na administração, isso inclui recursos humanos, financeiro, atendimento ao cliente, marketing, logística, compras e controle de estoque”, explica Picanço.
Para ele, a tecnologia não elimina a necessidade de profissionais qualificados, mas muda o papel desempenhado por eles dentro das organizações.
“A tendência é que a inteligência artificial automatize tarefas, e não substitua completamente os profissionais. Com isso, o colaborador passa a supervisionar, revisar e validar os resultados produzidos pela tecnologia. Sempre que utilizada em processos relevantes para a empresa, ela deve contar com a supervisão de profissionais qualificados, que garantam a qualidade, a segurança e a confiabilidade das decisões”, destaca.
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