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CONSUMO

Digitalização bancária muda dinâmica econômica do Pará em 10 anos

Estado perdeu mais de 800 postos físicos de atendimento em uma década; sindicato e especialista apontam impactos na saúde mental, exclusão digital e esvaziamento comercial

Gabriel da Mota

26 de maio de 2025 às 06:15

A presença física dos bancos está encolhendo em Belém e em todo o Pará. Segundo dados do Banco Central, o número de postos de atendimento bancário na capital paraense caiu de 509, em 2014, para apenas 93 em 2024 — uma redução de 81,7%. Em todo o Estado, no mesmo período, a queda foi de 1.248 para 421 postos (66,2%). Já o número de agências bancárias se manteve mais estável: o Pará contava com 486 agências em 2014 e chegou a 507 em 2024, enquanto Belém passou de 125 para 96 unidades. A transformação acompanha uma tendência nacional de digitalização dos serviços financeiros, mas especialistas alertam para as consequências dessa mudança no cotidiano das cidades.

Apesar da impressão de retração, os números das agências bancárias permanecem relativamente estáveis: eram 486 no Pará em 2014 e passaram a 507 em 2024. Em Belém, no entanto, o número caiu de 124 para 95. A presidenta do Sindicato dos Bancários do Pará, Tatiana Oliveira, explica que parte da confusão se deve à mudança na forma de contagem do Banco Central, que deixou de incluir postos de atendimento eletrônico (PAEs) a partir de 2016. Mesmo assim, ela reconhece uma perda relevante na capital.

“Em 2014, a gente tinha 9.410 bancários. E em 2024, 9.839. O número de agências também cresceu no estado. Mas em Belém, sim, nós tivemos uma grande redução: saímos de 124 agências para 95. Essa redução foi compensada por contratações no interior. No saldo geral, o estado ampliou o número de unidades bancárias e bancários, mas Belém teve perda de unidades e postos de trabalho”, afirma.

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A queda do atendimento presencial preocupa o sindicato, que tem registrado aumento de doenças relacionadas à saúde mental entre os trabalhadores. “Mesmo com o aumento do número de bancários no estado, a pressão por resultados aumentou muito. As agências têm menos funcionários, há demanda presencial e digital ao mesmo tempo. Isso gera estresse, ansiedade, burnout, síndrome do pânico, depressão. Doenças relacionadas à pressão no ambiente de trabalho”, destaca.

Tatiana Oliveira, presidenta do Sindicato dos Bancários do Pará
Tatiana Oliveira, presidenta do Sindicato dos Bancários do Pará (CONTRAF CUT)

Tatiana também questiona a conversão de agências completas em “agências de negócio”, sem caixas humanos, vigilantes ou portas giratórias. “Estamos oferecendo resistência a essa eliminação dos equipamentos de segurança. O cliente tem o direito de escolher o canal de atendimento. Não pode ser obrigado a se autoatender ou buscar um correspondente bancário”, declara.

A dirigente sindical aponta que essa transformação prejudica especialmente populações vulneráveis, com baixa escolaridade ou acesso limitado à internet. “A região amazônica tem muitas comunidades sem conectividade. Ser bancarizado é um direito, é parte da cidadania. As pessoas precisam de alternativas para resolver seus problemas bancários com segurança e dignidade”, defende.

Em nota, a Federação Brasileira de Bancos (Febraban) explicou que a decisão sobre fechamento de agências é da política de negócios de cada banco. Dados da Federação também apontam que 7 em cada 10 transições bancárias feitas por brasileiros são feitas pelo celular. De 2019 a 2023, transações por smartphone tiveram aumento de 251% no país. Somente em 2023,  foram feitas 130,7 bilhões de operações bancárias nos smartphones dos clientes, que representa um aumento de 22% em comparação a 2022. Ainda de acordo com a Sebraban, são feitas em média 52 transações mensais por conta no canal mobile banking. Do total de clientes ativos no mobile, 72% dos clientes fizeram mais de 80% das suas transações por esse tipo de canal.

De acordo com a Pesquisa Febraban de Tecnologia Bancária 2024, que tem como ano-base 2023, em 2023, 79% da composição das transações realizadas foram feitas por meio de canais digitais, enquanto 14% foram realizados em pontos de venda no comércio e 7% em canais físicos.

Ainda de acordo com a Ferbraban, “Os bancos estão adequando suas estruturas à nova realidade do mercado, em que a utilização dos canais digitais de atendimento vem ganhando espaço em detrimentos dos canais físicos e presenciais, refletindo, em especial, o novo perfil do consumidor que busca e encontra conveniência, comodidade, segurança e rapidez nos meios eletrônicos dos bancos”.

Mudança de comportamento

A migração para o atendimento digital é resultado direto das transformações tecnológicas e da mudança de perfil do consumidor, segundo o professor da Universidade do Estado do Pará (UEPA) Igor Gammarano, especialista em comportamento do consumidor e marketing digital.

“A migração dos consumidores tem sido ancorada em três pilares: conveniência, controle e confiança. Eles querem resolver suas necessidades financeiras a qualquer hora, de qualquer lugar, sem burocracia. A pandemia acelerou esse processo, e os aplicativos se tornaram mais intuitivos, seguros e até desejáveis. O comportamento agora é moldado pela lógica da experiência conectada: o banco vai até o cliente”, explica.

Igor Gammarano, especialista em tecnologia e comportamento do consumidor
Igor Gammarano, especialista em tecnologia e comportamento do consumidor (Wagner Santana / O Liberal)

O especialista alerta, no entanto, que o avanço digital pode acentuar desigualdades em um estado como o Pará. “Estamos trocando a distância geográfica pela distância tecnológica. O capital digital — a capacidade de acessar, compreender e usar a internet — se torna critério de exclusão. Sem políticas públicas de conectividade e alfabetização digital, a digitalização reproduz as mesmas vulnerabilidades históricas”, analisa.

Além das barreiras individuais, Gammarano destaca o impacto coletivo da retirada dos bancos dos bairros.

“Os bancos funcionam como âncoras de fluxo. Onde há banco, há movimento e consumo. Pequenos comércios giram em torno disso. Quando uma agência fecha, há um esvaziamento simbólico e econômico. O fechamento pode ser lido como abandono. Isso reduz o sentimento de pertencimento e incentiva a migração de consumidores e negócios para centros maiores”, observa.

Para o pesquisador, o caminho para o futuro passa por soluções híbridas, que combinem presença física com tecnologia. “O futuro do atendimento bancário não está na substituição, mas na orquestração entre físico e digital. Totens assistidos, microagências móveis, parcerias com comércios locais — tudo isso pode criar uma presença simbólica e funcional. A inovação não é só técnica. É também ouvir as necessidades reais das comunidades”, defende.

Com menos ‘dinheiro vivo’, comércio popular sente falta do papel-moeda

A redução dos postos físicos de atendimento bancário não impacta apenas o acesso a serviços, mas também a circulação do dinheiro em espécie — elemento ainda fundamental para o funcionamento da economia popular. Segundo Tatiana Oliveira, presidenta do Sindicato dos Bancários do Pará, a diminuição das chamadas “agências pagadoras” tem gerado dificuldade de acesso ao papel-moeda em comunidades periféricas, especialmente nas que concentram o pagamento de benefícios sociais.

“Recebemos relatos de comerciantes que têm dificuldade de oferecer troco porque não conseguem acessar dinheiro trocado. Às vezes o cliente quer pagar em espécie, mas o estabelecimento não consegue completar o troco. Já receber via Pix é mais fácil, mas dar o troco via Pix nem sempre é possível, pois depende de quem movimenta a conta da empresa”, explica Tatiana.

O pesquisador Igor Gammarano aprofunda o diagnóstico ao lembrar que o dinheiro em espécie ainda cumpre uma função essencial em bairros populares e no comércio informal. “O papel-moeda não é apenas um meio de pagamento. Ele é uma ferramenta de liquidez, de crédito informal, de sobrevivência. A sua escassez enfraquece os circuitos econômicos vitais, reduz a autonomia dos moradores e aprofunda desigualdades territoriais”, argumenta.

Para ele, a digitalização sem políticas de inclusão financeira e conectividade pode se tornar um vetor de exclusão. “Muitos trabalhadores informais não possuem estrutura para receber pagamentos digitais. Menos cédulas em circulação significa menos transações locais e mais esvaziamento econômico. A modernização, nesses casos, marginaliza quem dela mais precisa”, completa.

📊 Atendimento bancário no Pará e em Belém (2014–2024)

🧾 Agências bancárias (Banco Central)

Pará em 2014: 486 agências

Pará em 2024: 507 agências

Belém em 2014: 124 agências

Belém em 2024: 95 agências

Variação em Belém: -29 agências

🏢 Postos de atendimento (exceto PAEs)

Pará em 2014: 1.248 postos

Pará em 2024: 421 postos

Belém em 2014: 509 postos

Belém em 2024: 93 postos

Queda em Belém: -416 postos (redução de 81,7%)

👥 Número de bancários no Pará

2014: 9.410

2024: 9.839

Variação: +429 bancários