Saúde do coração: prevenção, diagnóstico precoce e tratamento adequado podem reverter limitações
Especialistas alertam, no entanto, que os problemas cardiovasculares continuam entre os principais desafios da saúde pública e estão cada vez mais presentes também entre pessoas jovens
Poder correr, praticar esportes, brincar com os filhos, trabalhar sem limitações e realizar atividades simples do dia a dia. Para quem convive com uma doença cardíaca, recuperar a qualidade de vida é uma das maiores conquistas proporcionadas pelo diagnóstico precoce e pelo tratamento adequado. Especialistas alertam, no entanto, que os problemas cardiovasculares continuam entre os principais desafios da saúde pública e estão cada vez mais presentes também entre pessoas jovens.
O publicitário Ramon Kenny Rios, de 44 anos, de Ananindeua, sabe bem o que significa conviver com uma doença cardíaca. Aos 4 anos de idade, após passar mal e ir parar na emergência, ele descobriu que tinha prolapso na válvula mitral, condição que fazia seu coração registrar até 270 batimentos por minuto e não voltava ao normal sem intervenção de medicamento. A condição acompanhou toda a infância e adolescência de Ramon e impôs uma série de limitações. "Eu sabia que tinha limites e que era diferente dos outros. Eu não conseguia fazer coisas normais. Então tive que adaptar muita coisa", relembra.
Enquanto outras crianças brincavam e praticavam esportes livremente, ele precisava evitar atividades físicas mais intensas. Quando insistia em jogar futebol, andar de bicicleta ou participar de outras modalidades esportivas, frequentemente acabava no hospital. "Todas as modalidades que tentei fazer tiveram pelo menos uma parada no hospital", conta.
A mudança veio a partir de 1999, após a realização da ablação cardíaca, procedimento utilizado para corrigir alterações elétricas responsáveis por determinadas arritmias. Desde então, a rotina mudou completamente. Hoje, Ramon pratica crossfit regularmente, participa de corridas, joga futebol aos finais de semana e já passou por modalidades como boxe e muay thai. "Hoje eu consigo fazer crossfit para manter o condicionamento e também a questão da saúde", afirma.
Além da liberdade para praticar exercícios, ele destaca que nunca mais precisou de internações frequentes como ocorria antes do procedimento. Para quem costuma adiar consultas ou exames preventivos, Ramon deixa um alerta. "O coração é responsável por fazer o sangue chegar a todos os lugares do corpo. Se você não cuidar do coração, não vai cuidar do seu corpo. Fazer uma atividade física é cuidar do corpo."
Doenças cardiovasculares exigem atenção cada vez mais cedo
Entre as doenças cardiovasculares mais comuns estão a hipertensão arterial, o infarto agudo do miocárdio, a insuficiência cardíaca, o acidente vascular cerebral (AVC) e as arritmias cardíacas. Segundo o cardiologista Edson Sacramento, de Belém, fatores como obesidade, sedentarismo, diabetes, tabagismo, estresse e envelhecimento da população têm contribuído para o aumento desses problemas. "O mais preocupante é que muitas pessoas convivem durante anos com pressão alta, colesterol elevado ou diabetes sem sequer saber que possuem essas condições", alerta.
O especialista explica que existe um equívoco comum de acreditar que doenças cardíacas atingem apenas idosos. Segundo ele, os consultórios e hospitais têm recebido cada vez mais pacientes jovens com fatores de risco importantes. O especialista atribui esse cenário ao aumento da obesidade, do diabetes, do sedentarismo, do estresse intenso, do uso de cigarros eletrônicos e também ao consumo de anabolizantes. "Hoje vemos cada vez mais jovens desenvolvendo doenças cardiovasculares", afirma. Ele destaca ainda que algumas condições genéticas também podem aumentar o risco de problemas cardíacos precoces.
Alguns sintomas merecem atenção imediata por poderem indicar doenças cardiovasculares importantes, conforme orientou o cardiologista. Entre eles estão: dor no peito, especialmente durante esforços; dor irradiando para mandíbula ou braços; falta de ar ou cansaço excessivo; palpitações; tonturas; desmaios; histórico familiar de infarto ou morte súbita cardíaca. "Muitas vezes o jovem acredita estar protegido pela idade e acaba negligenciando sintomas e prevenção", observa.
Estresse, ansiedade e rotina acelerada também afetam o coração
Além dos fatores físicos, a saúde emocional também exerce influência direta sobre o sistema cardiovascular. Segundo Edson Sacramento, situações prolongadas de estresse e ansiedade aumentam a liberação de hormônios como adrenalina e cortisol, provocando elevação da pressão arterial, aceleração dos batimentos cardíacos e aumento dos processos inflamatórios.
"A longo prazo isso favorece hipertensão, arritmias, infarto e insuficiência cardíaca", explica. O especialista ressalta ainda que pessoas sob estresse constante tendem a dormir menos, alimentar-se pior e praticar menos atividade física, criando um ciclo prejudicial à saúde.
Prevenção
Entre os principais fatores de risco para doenças cardiovasculares está a hipertensão arterial. Segundo o cardiologista, quando não controlada, ela pode provocar infarto, AVC, insuficiência cardíaca, insuficiência renal, aneurismas, arritmias e até demência vascular. Por outro lado, hábitos simples podem fazer grande diferença na proteção do coração. "A prevenção diária continua sendo a ferramenta mais poderosa para reduzir doenças cardiovasculares e melhorar qualidade e expectativa de vida", destaca.
Ele reforça que a prática regular de exercícios físicos e uma alimentação equilibrada ajudam são essenciais. "Exercício físico e alimentação saudável têm enorme impacto na prevenção cardiovascular. A atividade física melhora a pressão arterial, colesterol, glicemia, circulação e condicionamento cardíaco. Já uma alimentação equilibrada reduz a inflamação e acúmulo de gordura nas artérias."
O cardiologista também detalha a ablação cardíaca, procedimento minimamente invasivo, usado para tratar arritmias. "É indicada quando há alterações elétricas que causam palpitações, taquicardias, fibrilação atrial, flutter atrial, algumas extrassístoles e outras arritmias que prejudicam a qualidade de vida ou aumentam risco cardiovascular. O procedimento identifica e cauteriza áreas responsáveis pela arritmia. Em muitos pacientes isso reduz sintomas, diminui necessidade de medicamentos e trata definitivamente (cura) grande parte das arritmias", esclarece.
Atendimentos no Pará
No Pará, no ano de 2025, foram registrados 185.862 atendimentos ambulatoriais com consultas e exames na especialidade cardiológica, além de procedimentos de hemodinâmica e cirúrgicos, segundo dados da Secretaria de Estado de Saúde Pública do Pará (Sespa). No ano anterior, foram 190.403 pacientes atendidos. Ainda segundo a Sespa, de acordo com o Painel de Cardiologia do DATASUS, em relação a internações na especialidade cardiologia, em 2024 e 2025 foram computadas 8.543 e 10.682, respectivamente. A pasta ainda destacou que a maioria das internações são em decorrência de infarto de miocárdio.
“Entre os principais procedimentos cirúrgicos e hemodinâmica estão: implante de marcapasso, a revascularização miocárdica, cateterismo cardíaco, seguido de angioplastia de coronária. A Sespa informa também que o Estado garantiu a reestruturação da Emergência Cardiológica do Hospital de Clínicas Gaspar Viana, que passou de 13 para 31 leitos, consolidando-se como referência em cardiologia de alta complexidade no Pará”, destacou a Sespa.
O órgão afirmou que os serviços voltados a esses atendimentos estão sendo ampliados. “O Governo descentralizou os serviços de cardiologia, expandindo essa especialidade para os Hospitais Regionais de Marabá e Santarém, beneficiando outras regiões do estado. Também foram firmados contratos para oferta de serviços na Unimed Oeste do Pará, em Santarém. Para fortalecer ainda mais a rede, o Estado está realizando obras de ampliação no Hospital Regional da Transamazônica, em Altamira, onde está prevista a implantação do serviço de hemodinâmica até o primeiro semestre de 2027”, detalhou.
A Sespa orientou que, em casos de emergência cardiológica, o paciente pode procurar diretamente um hospital, 24 horas por dia, em situações como: dor no peito intensa (em forma de aperto, com irradiação para braço, costas, mandíbula ou pescoço), falta de ar súbita, palpitações, desmaios sem causa aparente ou agravamento de quadros como infarto, insuficiência cardíaca ou arritmias. “As unidades de referência dispõe de equipe especializada e estrutura para diagnóstico e intervenção imediata”, ponderou a Sespa.
Com relação aos atendimentos ambulatoriais, exames e procedimentos eletivos na especialidade, a Sespa comunicou que são realizados por meio encaminhamento de outras unidades por meio da Central Estadual de Regulação. O acesso se dá por meio de Unidades Básicas de Saúde (UBS), UPAs e hospitais habilitados, que avaliam o caso e realizam a solicitação conforme a necessidade.
Entre os exames disponibilizados na rede pública estadual estão o Eletrocardiograma (ECG); ecocardiograma adulto e infantil; Teste ergométrico; MAPA (Monitorização Ambulatorial da Pressão Arterial) e Holter (monitoramento contínuo da atividade cardíaca).
>> COMO CUIDAR MELHOR DO CORAÇÃO
• Verifique a pressão arterial regularmente
• Faça exames periódicos
• Controle colesterol e diabetes
• Caminhe pelo menos 30 minutos por dia
• Evite cigarro e excesso de álcool
• Reduza o consumo de sal e ultraprocessados
• Coma mais frutas, verduras e fibras
• Durma bem
• Controle estresse e ansiedade
• Mantenha peso saudável
• Não ignore sintomas
• Procure avaliação cardiológica preventiva, especialmente se houver histórico familiar
>> SINAIS DE ALERTA:
• Dor no peito
• Falta de ar
• Palpitações
• Tonturas
• Desmaios
• Cansaço excessivo
• Dor irradiando para braços ou mandíbula
>> O QUE FAZER EM CASOS DE INFARTO (ocorre quando há o entupimento de uma artéria coronária, impedindo que o sangue rico em oxigênio chegue a uma parte do músculo cardíaco):
• Acione imediatamente o SAMU (192);
• Mantenha a pessoa em repouso;
• Afrouxe roupas apertadas;
• Não deixe a pessoa dirigir;
• Se houver orientação médica prévia, o uso de AAS pode ajudar.
>> O QUE FAZER EM CASOS DE PARADA CARDÍACA (ocorre quando o coração para de bater de forma súbita e deixa de bombear sangue para o corpo e para o cérebro. Geralmente é causada por uma falha no sistema elétrico do coração):
• Chame socorro imediatamente;
• Inicie compressões torácicas fortes e rápidas no centro do peito;
• Se houver desfibrilador disponível, utilize o aparelho o mais rápido possível.
FONTE: CARDIOLOGISTA EDSON SACRAMENTO
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