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SAÚDE

No Pará, jovens já sentem impactos do uso excessivo de telas nos olhos e coluna

Passar longos períodos no celular, por exemplo, pode impactar a coluna cervical

Ayla Ferreira

25 de outubro de 2026 às 10:00

O uso prolongado de celulares, computadores e outros dispositivos digitais pode estar associado a desconfortos que atingem diferentes partes do corpo, como a coluna e os olhos. Segundo o médico ortopedista Marcelo Brito, de Belém, passar longos períodos no celular, por exemplo, pode impactar a cervical, já que o indivíduo costuma utilizar o dispositivo em diferentes posições e às vezes acaba inclinando a cabeça para a frente, o que pode gerar sobrecarga.

Com apenas 25 anos de idade, a jovem publicitária Isabella Guimarães convive com problemas na coluna desde 2018. Atualmente, ela trabalha com a criação de conteúdos audiovisuais e materiais para redes sociais, uma profissão que exige longas horas fazendo uso de celulares, computadores, câmeras e outros dispositivos.

“Só em celular, são quase 18 horas em média. Estou sempre em contato com os clientes, fazendo atendimento, edição de material e de arte. Quando estou na rua, gravando pelo celular, preciso estar editando constantemente. Já para materiais de arte mais complexos, uso o computador”, conta.

A publicitária diz que já consegue perceber quando uma crise na coluna está próxima, por meio de sintomas como dor no quadril, na coxa e a fisgada na lombar ao pisar no chão. “Quando está nesse ponto, preciso tomar alguma atitude para não correr o risco de travar totalmente e ficar sem andar. Já começo a fazer agachamento e alongamento para ajudar nisso”, destaca.

Isabelle Guimarães, publicitária, 25, sofre com dores crônicas.
Foto: Ivan Duarte | O Liberal
Foto: Ivan Duarte | O Liberal

As dores e a coluna travada impactam diretamente o trabalho e as atividades comuns do dia a dia. Quando está em crise, Isabella não consegue andar e se movimentar, o que afeta na rotina do trabalho. Quando não está sob efeitos de medicações fortes para o alívio da dor, ela ainda consegue fazer atividades diárias do trabalho, como editar materiais deitada.

Diferenças posturais

O médico ortopedista Marcelo Brito, especialista em coluna, explica que tanto uma postura boa quanto uma ruim podem causar problemas caso a pessoa não se movimente. “Você pode ter uma ótima postura, mas se você passar 3, 4 horas na mesma postura, vai acontecer sobrecarga, vai acontecer dor. É claro que, com posturas ruins, especialmente as posturas em flexão, o tempo de permanência é menor até que a dor apareça”, diz.

O celular, por exemplo, dificilmente impacta a coluna lombar, segundo Marcelo Brito. Isso ocorre porque para utilizar os dispositivos móveis, a pessoa não precisa ficar necessariamente parada. Porém, um dos principais impactos da tecnologia é para a cervical. “O grande problema da postura é a flexão exagerada ou a flexão muito prolongada, tanto lombar quanto cervical. Então, para o celular, é preciso se preocupar para o celular não ficar “grudado na barriga” com a pessoa de pescoço curvado, cabeça baixa, olhando para lá de forma fixa durante muito tempo ", avalia Marcelo Brito. O ideal é que o celular fique de frente para o rosto e não abaixo.

Em relação aos computadores, as dores na lombar são mais frequentes em decorrência do uso, principalmente por conta da forma com que as pessoas digitam, com ombros contraídos e mãos e braços sem apoio. Marcelo explica que o ideal seria deixar o teclado na frente, dentro da mesa. Os braços devem ficar completamente apoiados e somente a mão deve mexer. Além disso, a tela também deve estar elevada, para que o indivíduo olhe para a frente e não para baixo.

“A flexão prolongada na cervical, com uso de celulares e laptops, gera uma compressão no disco. O disco, tanto da lombar quanto da cervical, fica mais comprimido quando a gente está em flexão”, afirma o médico. Ele detalha que se movimentar traz benefícios, pois essa ação faz com que o disco ósseo fique mais nutrido, permitindo a chegada de sangue e nutrientes.

Porém, quando a postura é sempre fixa e não há o movimento de bombeamento de nutrientes para dentro do disco, ele desgasta mais rápido e sofre mais pressão. “Com isso, surge a hérnia de disco, artroses e outros problemas. O mecanismo é esse, flexão por muito tempo, além claro de outros fatores como predisposição genética, acidentes, cigarro, entre outros fatores que podem contribuir”, diz.

Cuidados com a coluna

Uma das principais mudanças na rotina da publicitária Isabella Guimarães, que sofre com dores crônicas na coluna, foi inserir exercícios físicos, além de fazer uso de cinta lombar para ajudar no apoio. “Passei a fazer musculação também e quando estou próxima a entrar em crise, faço também fisioterapia, pilates. No meu dia a dia mesmo, busco sempre fazer um alongamento. Se vou passar muitas horas em pé, procuro tentar, entre as gravações, conseguir me alongar, fazer algum exercício para ajudar nessa mobilidade e tentar impedir que a coluna entre em crise novamente”, conta.

Segundo o médico ortopedista Marcelo Brito, escolher uma cadeira com apoio total da lombar pode ajudar a manter a saúde da coluna. Ao sentar, é preciso manter a coluna bem apoiada no encosto da cadeira e os glúteos encostados no fundo do assento, o que ajuda a prevenir dores e a manter uma postura adequada.

As telas devem sempre estar na altura dos olhos. “Precisamos de braços completamente apoiados, dentro da mesa, mexendo apenas as mãos. É importante observar a ergonomia da mesa, tem que ser uma mesa que você possa colocar o teclado para dentro. A mesa no meu consultório é de quina, apoio os braços em cada canto e o computador fica no meio”, destaca Brito.

Saúde ocular

O uso excessivo de telas também pode impactar a saúde ocular. De acordo com o médico oftalmologista Carlos Lima, um dos principais problemas está na lubrificação dos olhos. “É comum o paciente ter ressecamento ocular quando fica muito tempo usando telas, ele recebe muita iluminação nos olhos, gerando desconforto no decorrer do dia”, explica.

Segundo Carlos Lima, ao utilizar a visão para perto, especialmente em telas, é utilizada a contratura máxima dos olhos para focar para perto. Manter a contratura máxima durante muito tempo gera desconforto a curto, médio e longo prazo. No caso do uso excessivo, também podem surgir outros sintomas, como ressecamento dos olhos, embaçamento visual, dores oculares, cansaço excessivo, dificuldades para dormir.

“Em alguns casos, é um dos principais fatores para o aumento de grau. Para quem já tem grau, em especial de miopia, sabe-se hoje que o uso excessivo de telas faz com que esse grau suba de uma forma mais precoce e mais intensa. A relação de telas com miopia é extremamente forte”, argumenta o médico.

Veja como manter a saúde dos olhos e coluna

Olhos

Se manter distante das telas

Piscar com mais frequência

Deixar o brilho próximo a 40% e ativar o filtro azul

A cada 20 minutos de tela, para e olhe para uma distância de de mais ou menos 6m

Estabeleça horário noturno máximo para parar de usar telas

Fonte: médico oftalmologista Carlos Lima

Coluna

Mantenha a coluna lombar encostada no fundo da cadeira e totalmente apoiada

Telas na altura dos olhos

Braços apoiados na mesa, mexendo só as mãos (ao usar computadores)

Escolher mesas ergonômicas

Se movimentar

Fonte: médico ortopedista Marcelo Brito

*Ayla Ferreira, estagiária de Jornalismo, sob supervisão de Fabiana Batista, coordenadora do Núcleo de Atualidades