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Projetos usam o esporte para transformar vidas

Por meio da capoeira e do boxe, iniciativas promovem a prática esportiva com foco no resgate social e na formação de cidadãos

Elisa Vaz

Mais que um instrumento de promoção de saúde física e mental, o esporte pode ser usado como ferramenta de transformação e inclusão social. Embora os benefícios para o corpo e a mente sejam inegáveis, a prática esportiva vai além disso: promove interação social, possibilita formação da cidadania e, em muitos casos, pode ser a única alternativa para as pessoas mais afetadas socioeconomicamente. Daí a importância de se criar incentivos e projetos nesta área, tão importante para o desenvolvimento social de crianças e adolescentes que vivem em bairros periféricos ou em estado de vulnerabilidade social.

A capital paraense tem várias iniciativas nesse sentido, que, por meio do esporte, trabalham a formação social e educacional dos alunos. No bairro da Cabanagem, por exemplo, o projeto Caiçara oferece, de forma gratuita, aulas de capoeira para pessoas de cinco a 17 anos, que têm acesso ao ensino de disciplina, coordenação motora e, mais importante, educação dentro da cultura e do esporte.

Responsável pelo Caiçara, Cristiano da Silva Ferreira, o Mestre Sorriso, conta que a ideia surgiu há mais de duas décadas, em 1998, pensada pelo seu mestre da época. O grupo conseguiu um espaço, mas lá foi fundada uma igreja e foi preciso transferir as aulas para o terreno ao lado, da própria comunidade. Eles chamam de “Barracão da Cabanagem”, onde são realizados todos os eventos dos moradores, de jogos de futebol a festas de aniversário. A estrutura não é adequada para realizar as aulas, mas o projeto já atua dessa forma há 23 anos e, ao longo do tempo, os próprios membros do Caiçara trabalharam em melhorias do espaço, dando mais estrutura e uma cara nova para o lugar.

 (Márcio Nagano / O Liberal)

“Hoje temos mais ou menos 80 alunos, e o local já está ficando pequeno para essa atividade. Acho que temos até mais, porque de dois anos para cá o projeto cresceu, mesmo com a pandemia. Isso aqui é um bairro da periferia. A expectativa de vida é bem mínima, então a gente tenta mostrar, por meio do esporte, que estudando, trabalhando, seguindo o caminho certo, com todo o esforço que um ser humano precisa para ter uma dignidade, é possível viver melhor. E como trabalhamos a capoeira na ferramenta de resgate social e formação do cidadão, a preocupação é manter a criança dentro do projeto. A gente não quer a evasão, é um trabalho social. A gente precisa que elas estejam aqui depois da escola ou do trabalho”, declara o Mestre Sorriso.

Além do próprio esporte, os instrutores do Caiçara fazem um acompanhamento para garantir que as crianças continuem estudando fora do projeto. Os alunos mais antigos, que já se formaram em alguma graduação, ajudam com sua expertise: tem educador físico, professor de inglês, assistente social e outros profissionais. Cristiano explica que esses antigos alunos são “usados” para auxiliar os mais novos; por exemplo, se uma criança ou um adolescente não vai bem em alguma disciplina escolar, o projeto oferece aulas particulares para ajudar.

Bolsas de estudo incentivam alunos

Alguns anos atrás o Caiçara encontrou um parceiro importante: o Sistema de Ensino Educ, uma escola da redondeza. A diretora da instituição, Ângela Nívea Sulleiman, conheceu a capoeira de perto em uma apresentação de festa junina, quando o Mestre Voador, um dos responsáveis pelas aulas do Barracão, fez uma apresentação na escola. Desde então, ela se encantou pelo esporte e levou o projeto para a instituição, com aulas de capoeiras. Depois, passou a oferecer bolsas de estudo para os alunos do Caiçara.

“Eu só conhecia o esporte de livros, da história, não tinha visto ainda uma roda. Fiquei muito encantada e comecei a conversar com o professor Voador sobre a possibilidade dessa parceria. Aos poucos fui integrando o projeto, conhecendo o Mestre Sorriso e percebi que havia a necessidade de levar um pouquinho da escola e da educação para essas crianças, então decidimos abrir a escola para os alunos frequentarem. De 2019 para 2020, começamos a oferecer bolsas de estudo na educação infantil, até o nono ano, e agora abrimos para o ensino médio. Já temos dois alunos do projeto que estão com bolsas lá no primeiro e no segundo ano do ensino médio”, conta.

Segundo a diretora, é perceptível o benefício que o esporte traz para quem faz parte do projeto, porque os alunos ficam mais focados também em outras atividades, além de serem mais responsáveis e integrados na comunidade e com a família. É o caso de Wellington Jony, de 18 anos. Embora nunca tenha tido o sonho de praticar algum esporte quando pequeno, foi incentivado pelos tios e ficou curioso para conhecer a capoeira de perto. “Nesse negócio de ver, estou na capoeira há cinco anos. Eu não imaginava praticar esse esporte, mas acabei me apaixonando. Eu era obeso, já cheguei a ter problema de saúde, pressão alta, e graças à capoeira consegui emagrecer e melhorar a minha cabeça. Aprendi sobre disciplina e inclusão social, além do respeito, porque na capoeira tem pessoas de várias idades”, comenta o aluno.

Wellington hoje tem o sonho de continuar praticando o esporte e chegar ao nível profissional e se tornar um mestre – Cristiano já acredita que ele seja um destaque da turma. Enquanto isso não acontece, o jovem estuda e conseguiu o primeiro emprego, como jovem aprendiz, dentro do Sistema Educ. “Antigamente eu não tinha nada além da capoeira, mas ela me ajudou a ter um emprego”, destaca.

Na idade de cinco a 17 anos ninguém paga nada no Caiçara; e depois, na formação adulta, quem não tiver condições de ajudar o projeto financeiramente também pode continuar participando das aulas. Os próprios instrutores fazem muito pelo espaço do Caiçara e contam com a ajuda de um tatuador parceiro, que oferece uma pequena porcentagem do que ganha para os alunos comprarem uniformes. Mais recentemente, ao vencer a categoria Responsa do Troféu Rômulo Maiorana, o projeto conseguiu uma nova parceria: uma loja de roupas e acessórios ajuda da mesma forma, doando parte do valor arrecadado com as vendas.

“O Troféu deu uma expectativa maior para essas crianças, adolescentes e adultos. Gerou uma motivação maior. O projeto se ampliou e estamos conseguindo atender outras comunidades, até outros municípios, como Primavera, Quatipuru, Boa Vista e Irituia. Como o foco é trabalhar esse lado social e a capoeira enquanto ferramenta de resgate, é muito bom levar a iniciativa para outros locais”, comemora o Mestre Sorriso, que busca novos padrinhos e patrocinadores para o Caiçara. O grupo aceita doações em dinheiro, que serão revestidas na compra de material de construção para melhorar o espaço e nos uniformes para os alunos; e os próprios itens podem ser doados por malharias e lojas de material de construção que quiserem ajudar. A informação completa está no infográfico na página.

Boxe reúne jovens da Cremação

As crianças e os adolescentes que participam do projeto Lutando pelos Sonhos também veem na iniciativa uma oportunidade de mudar de vida. O grupo, coordenado por Juraci dos Santos Oliveira, mais conhecido como “Jura”, se reúne todos os dias para treinar boxe no bairro da Cremação, em frente ao canal da rua Três de Maio. Com 22 anos de atividade, o projeto social oferece treinamento gratuito para pessoas de 9 a 16 anos. Além de boxe, há também um treino funcional para aumentar a força dos atletas, mas, para participar, o aluno precisa estar na escola e tirar notas boas, além de ter disciplina e obedecer às regras da academia e em casa. Há várias opções de aulas: às 8h, 17h, 18h, 19h, 20h e 21h.

O desejo de fundar o projeto social de luta partiu do coordenador, que já foi atleta de boxe. Juraci conta que, desde cedo, tinha muita vontade de ter a própria academia assim que parasse de lutar profissionalmente, para ajudar pessoas em bairros que estão em situação de vulnerabilidade social. “O meu treinador fazia a mesma coisa e eu tinha esse sonho. É um projeto que já tirou muita gente da área de risco, aqui na Cremação, pessoas que não estudavam e voltaram a estudar, que não trabalhavam e voltaram a trabalhar. Vários garotos já foram campeões, já competiram e continuam aqui com a gente”, comenta.

Embora o treinamento dos alunos seja gratuito, Juraci e os outros técnicos não têm ajuda financeira. O coordenador é um dos técnicos de um lutador profissional e tira dinheiro do próprio bolso para investir na escola. “Eles não pagam nada, é tudo gratuito. Eu trabalho e o dinheiro que pego invisto na academia. Mudei ela, tá com uma nova estrutura, tô sempre caprichando para mostrar para essa galera que a gente pode; mesmo sem apoio, a gente consegue. Tem que colocar Deus na frente. Não existe nada difícil, se colocar um objetivo na vida, treinar, se dedicar e levar a sério, logo logo vai ser um campeão. Nosso projeto é para formar campeões”, enfatiza.

Um dos destaques da iniciativa é o aluno Joerbesson Trindade, de 29 anos. Ainda criança, quando tinha por volta de 10 anos de idade, foi acolhido pelo projeto Lutando pelos Sonhos, onde já reúne quase duas décadas de luta e tantas competições que o atleta já perdeu as contas. “Eles me acolheram para me tirar da rua e ficar longe das pessoas de fora que fazem mal para muita gente. Eu vim só para treinar, mas depois me interessei por competir, dia 25 luto de novo”, conta. Joerbesson tem o sonho de ser lutador profissional e campeão da categoria, proporcionando, no futuro, uma vida melhor para sua família, com quem ainda mora hoje em dia.

O resultado desse trabalho veio esse ano, quando o projeto foi indicado para o Troféu Rômulo Maiorana, na categoria Responsa. Só que agora a academia conta com apenas 30 a 40 alunos – antes da pandemia o número chegava a 160. Para participar das aulas basta estar estudando e comparecer ao projeto na companhia de um responsável para fazer a inscrição. Quem quiser ajudar pode fazer doações de materiais de luta ou em dinheiro, por meio da conta destacada na página.

Saiba como ajudar os projetos sociais

  • Capoeira Caiçara

PIX: (91) 98373-7788
Nome: Cristiano da Silva Ferreira (Mestre Sorriso)
O que doar: material de construção para piso, pintura e parte elétrica; malhas para fazer uniformes (tecidos brancos em poliviscose e helanca grossa); e cestas básicas.

  • Lutando pelos Sonhos

PIX: (91) 98148-6942
Nome: Juraci dos Santos Oliveira
O que doar: material esportivo, como luva, bandagem, saco e manopla; tecido para fazer uniforme; cesta básica; e qualquer outra doação para os alunos.

Palavras-chave

Responsabilidade Social
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