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Projeto usa urbanismo participativo para transformar espaços de convivência

Laboratório da Cidade, que reúne profissionais arquitetos, revitaliza locais abandonados, dando mais conforto à comunidade do entorno

Elisa Vaz

Quem anda pelas ruas de Belém percebe que muito trabalho ainda precisa ser feito para garantir o fortalecimento dos territórios vulneráveis. Vista como uma ferramenta de inclusão social, o urbanismo deve ser usado também como estratégia de transformação territorial para alcançar populações mais distantes dos centros. Por isso, o Laboratório da Cidade, que reúne profissionais arquitetos e urbanistas, decidiu se afastar um pouco do núcleo central de Belém e busca revitalizar espaços abandonados para que comunidades mais distantes tenham dignidade e acesso ao desenvolvimento territorial.

(Márcio Nagano / O Liberal)

Esse objetivo pode ser alcançado por meio de políticas públicas integradas, pensadas pelas administrações estadual e municipais e representantes do Poder Legislativo. Mas outro mecanismo que também pode ser usado é a participação social. O “Mão na Massa”, projeto criado pelo Laboratório da Cidade, cumpre exatamente essa função: utiliza o engajamento comunitário para melhorar espaços públicos, sempre aliando a prática com a teoria.

Ações transformam espaços

Gerente de projetos da organização sem fins lucrativos, a arquiteta e urbanista Luna Bibas explica que o grupo sempre desenvolve ações que tenham a ver com a cidade e com o urbanismo social, seja nas áreas de saneamento, mobilidade, meio ambiente ou outra temática parecida. Desde 2018, o Laboratório tem transformado locais abandonados com a ajuda da sociedade. Na época, foram abertas inscrições para aceitar voluntários – a primeira ação contou com apenas quatro pessoas, mas, com a repercussão, os arquitetos viram a necessidade de levar o trabalho adiante.

O “Mão na Massa” só se formalizou depois, quando foi inscrito em um edital do Conselho de Arquitetura e Urbanismo (CAU) e ganhou o primeiro lugar na competição. Ao projeto cabia, então, fazer três intervenções urbanas em locais diferentes de Belém. “Para que conseguíssemos chegar nos espaços públicos, precisávamos fazer parceria com órgãos da administração que trabalhassem com regularização fundiária. O agente queria entrar com uma metodologia participativa para que fizéssemos intervenção em três espaços públicos com a participação da comunidade. Foi esse o escopo do projeto”, lembra.

A parceria firmada foi com a Defensoria Pública do Estado (DPE), que mapeou 22 lugares onde atuava e que precisavam de intervenção. O Laboratório da Cidade analisou cada um deles e optou por três – a primeira área escolhida foi o Centro Comunitário Parque Verde, no bairro do Tapanã, em Belém, cuja ação foi realizada no mês de julho. Mais dois lugares serão alcançados nos próximos meses dentro desse projeto.

A gerente de projetos do Laboratório da Cidade, Luna Bibas, relembra o processo da revitalização do Centro Comunitário. (Márcio Nagano / O Liberal)

“Nós observamos, na vistoria, se o espaço tinha estrutura próxima para fazer oficina, que é um dos braços da iniciativa, e no Tapanã tinha um Centro Comunitário, já com cadeira de escola, um espaço pronto. O líder comunitário foi engajando a comunidade e chamou todo mundo para participar, então começamos com uma grande conversa e aplicamos a nossa metodologia, para saber o que eles esperavam que fizéssemos no local, e também explicamos o que é urbanismo e quais estratégias iremos usar para transformar o espaço. O ‘Mão na Massa’ consiste, além da intervenção em si, em toda essa etapa de realização de conversas e oficinas participativas. Isso é feito em um final de semana e a ação no próximo”, explica Luna.

As 15 vagas abertas para profissionais da área ajudarem de forma voluntária e outras 15 para membros da comunidade foram preenchidas durante a revitalização no bairro do Tapanã. Lá, foi usado um terreno abandonado ao lado do Centro Comunitário, que ao final virou uma pracinha com pavimentação, acesso lateral, escadas, muros e paredes pintadas por um artista, brinquedos para crianças, bancos para quem quiser ficar sentado, iluminação e árvores plantadas. Essa última etapa foi feita em parceria com a Secretaria Municipal de Meio Ambiente (Sema), que doou as mudas e fez um momento de educação ambiental.

Uma das partes mais importantes do projeto para Luna é o engajamento com os moradores do bairro. “Nós fizemos um cercado ao redor do parque, mas só deixamos as esferas, e depois da ação a comunidade voltou e finalizou com a pintura. Também fizeram um arco na entrada e pintaram os banquinhos. Eu não sei se a partir de agora vai ser modificado, mas eles estão bem empenhados em melhorar tudo, até trouxeram paisagismo para deixar mais bonito. O importante para nós é o processo de trazer a comunidade, para que as pessoas entendam nosso trabalho de assistência técnica. É um pontapé inicial, a comunidade continua da forma que ela achar melhor”, afirma.

Crianças têm um balanço, um escorregador e uma gangorra disponíveis na nova praça. (Márcio Nagano / O Liberal)

Outra importância, segundo a gerente de projetos, é que as pessoas do entorno tenham um espaço de comunhão onde as crianças possam brincar e os adultos se encontrem e conversem. “Eles podem estar nesse local de forma segura, porque está todo mundo aqui o tempo todo, então tem olhos nas ruas, é uma vigilância natural. É legal você pegar esse espaço e estar sempre melhorando ele, não esperar necessariamente pela administração pública. Estamos criando aqui afetividade dentro de espaços públicos e mais cuidado com o local”.

Moradoras comemoram mudança

Era um espaço vazio. É isso que diz a dona de casa Franciane Sales, de 39 anos, que mora perto do novo Centro Comunitário e ajudou a criar o espaço de convivência. De acordo com ela, era raro ter algum evento no local, e apenas algumas crianças ficavam lá empinando pipa, mas a maioria brincava na rua, com risco de ser atropelada por carros ou motos. “Nossas crianças não tinham espaço adequado para brincar, e na rua não tem segurança. Hoje deixamos eles aqui, brincando, não entra carro nem moto e eles têm um novo espaço. Foi um bem muito grande para a comunidade”, opina.

Moradora do entorno, Franciane Sales sempre sonhou em ter uma praça perto de casa. (Mário Nagano / O Liberal)

Na época em que a ideia de fazer a praça surgiu, Franciane logo apoiou. Ela diz que os moradores das proximidades sempre sonharam em ver aquele terreno transformado em uma praça ou em uma escola – tinha o espaço, mas faltava iniciativa. A dona de casa lembra de como ficou feliz ao saber do projeto, e que toda a comunidade sentiu o mesmo, por isso não pensou duas vezes e foi ajudar na construção.

O sonho realizado também conquistou as crianças. Mesmo as que não sabiam como manusear as ferramentas ou desenvolver as atividades aprenderam, e agora elas vão por conta própria na praça molhar as plantas e ajudar no que for preciso. Com apenas oito anos de idade, Beatriz Santos foi uma das voluntárias no processo – o que ela mais fez foi pintar, desde os pneus que enfeitam a lateral da praça até os bancos e os muros.

Beatriz, de oito anos, ajudou a construir a praça e levou a cachorra de cinco anos para conhecer o espaço. (Márcio Nagano / O Liberal)

Antes de ter esse espaço, ela só brincava em casa, mas agora espera ir ao espaço de convivência sempre que puder, para usar o escorregador, que, para ela, é a parte mais legal. “A primeira vez que eu vi o parquinho foi quando ainda estava construindo, a minha avó me trouxe aqui para ver, junto com a minha prima, que estava lá em casa. Achei ela muito legal e muito bonita”, comenta a pequena. Beatriz ressalta que gostou muito de ter participado e ajudado, e, primeira vez, levou sua cachorra de cinco anos, Luna, para conhecer a praça. “Ela gostou”, conta.

A própria Franciane também ajuda. Na época da revitalização, plantou, cavou, organizou e enfeitou o ambiente junto com outros moradores. Para o futuro, ela espera que o espaço fique ainda mais bonito, e garante que vai ficar “de olho” para que o local não seja destruído.

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