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ENTREVISTÃO

'Temos que construir a unidade deste país', diz Chicão após vitória ao Senado

Chicão avalia resultado das eleições, defende diálogo com o novo governo do Pará e aponta custo amazônico, energia e infraestrutura como prioridades no Senado

Gabi Gutierrez

10 de outubro de 2026 às 17:30

Chicão é o atual presidente da Assembleia Legislativa do Pará

Chicão é o atual presidente da Assembleia Legislativa do Pará ( Foto: Foto: Ascom | Alepa )

Eleito para o Senado Federal pelo Pará nas eleições de 2026, Chicão falou com exclusividade ao Grupo Liberal sobre o resultado da disputa, os fatores que levaram à sua vitória e os principais desafios que pretende enfrentar no novo mandato. Na entrevista, o senador eleito também analisou a derrota de Hana Ghassan na disputa pelo governo do Estado, a influência da polarização ideológica no resultado das urnas e a nova configuração política do Pará.

Chicão atribuiu a virada na disputa pelo Senado à chegada dos votos do interior do Estado na reta final da apuração. Segundo ele, a vantagem inicialmente registrada pelos adversários na Região Metropolitana foi revertida com a totalização dos votos de regiões como o Nordeste do Pará, o Baixo Tocantins e o Marajó, onde afirmou ter maior força eleitoral.

Para o próximo mandato, o senador eleito apontou como prioridades temas relacionados ao chamado “custo amazônico”, à tarifa de energia elétrica, à infraestrutura de portos e rodovias e às dificuldades de acesso a serviços públicos enfrentadas por municípios do interior. Ele defendeu que as particularidades geográficas da Amazônia sejam consideradas na formulação de políticas públicas e na distribuição de recursos federais.

Chicão também falou sobre a relação que pretende manter com o novo governo do Estado e com a Assembleia Legislativa do Pará. Embora tenha reconhecido diferenças entre os projetos políticos, afirmou que pretende apoiar medidas que considerar de interesse da população e fazer oposição quando entender que as propostas não atendem aos interesses do Estado. Sobre a nova composição da Alepa, destacou a necessidade de diálogo entre governo e parlamentares, sem “radicalismo” ou “intransigência”.

Na avaliação do senador eleito, a polarização política que marcou as eleições também se refletiu no Pará, inclusive na disputa pelo governo. Ele defendeu a construção de uma relação política baseada no diálogo entre diferentes grupos e afirmou que o enfrentamento ideológico não pode se sobrepor às pautas de interesse da população.

“Temos que construir a unidade deste país. Enquanto vivermos neste clima de extremismo, só perde a população do nosso Estado e de todo o Brasil”, declarou o senador eleito.

Leia a entrevista na íntegra:


Chicão, como o senhor define essa campanha e essa vitória agora para o Senado?

Chicão: A campanha foi uma campanha difícil, até porque, do outro lado, o grupo político que ganhou o governo tinha dois candidatos ao Senado. Então, geralmente, os votos seriam votos casados. Do nosso grupo político, nós tínhamos três candidatos ao Senado. Houve uma divisão maior de votos e isso, com certeza, teve reflexo também na minha votação.

Mas o grande sentimento é que a gente perde uma eleição para o governo do Estado, de um governo bem avaliado, de uma governadora bem avaliada. Acho que o sentimento de mudança, esse discurso de mudança, funcionou em nível de Estado junto com o voto da direita.

E nós não tivemos o voto da esquerda como um voto único. A esquerda tinha candidatura própria, com o PSOL e o PT. Algumas correntes do PT acompanharam a candidatura da oposição e da Araceli, do PSOL. Então, o resumo que eu faço é esse: enquanto o outro grupo trabalhou unido, nós tivemos algumas divisões nesse campo, o que atrapalhou tanto a eleição da Hana, para ser nossa governadora, quanto dividiu a minha votação com as três candidaturas do mesmo grupo.

O que o senhor acha que fez a diferença? Houve uma virada no final da apuração e o senhor conseguiu a eleição. Qual foi o detalhe que fez a diferença para o senhor sair vitorioso nessa campanha?

A diferença é que as urnas começaram a ser apuradas, no início da apuração, com votos da Região Metropolitana. Nós perdemos em Ananindeua, perdemos em Belém, perdemos em Marituba e perdemos em Castanhal. Então, essa avalanche inicial de votos estava mais concentrada nessa região.

Quando os votos do interior, de algumas regiões nas quais nós tínhamos consciência de que éramos mais fortes, como o Nordeste do Pará, o Baixo Tocantins e o Marajó, chegaram, esses votos chegaram por último. Em decorrência disso, ocorreu a virada.

E agora, o que o senhor lista como pautas de maior urgência e prioridade para ser discutido no Senado de interesse da população da Amazônia e, claro, do Pará?

Nós temos algumas prioridades que assumimos como compromisso durante a campanha. Uma delas é discutir o custo amazônico. Quando a gente compara com outras regiões, como o Nordeste, o custo amazônico é muito alto.

Nós temos aqui municípios em que as pessoas, para chegar à nossa capital, levam 48 horas. É uma infinidade de tempo. Quando precisamos fazer um atendimento de saúde em uma área mais complexa, em alguma especialidade que o município não tenha, isso às vezes só pode ser feito de avião.

Então, existe um custo amazônico para fazer saúde e, às vezes, até para fazer educação. Temos muitas escolas ribeirinhas, em ilhas. Essa é uma pauta que nós vamos ter que discutir. A consulta de um médico que se paga em São Paulo não pode ser a mesma coisa que se paga a um médico do Marajó, a um médico lá na fronteira com a Zona Oeste. A distância é muito grande.

Outro ponto sobre o qual nós temos falado muito é a questão da energia. Nós somos os maiores produtores de energia do Brasil e a nossa conta de luz aqui é muito alta.

Claro que essa é uma luta que nós vamos ter que travar, mas nós sabemos da dificuldade disso, porque os outros estados têm uma representatividade parlamentar muito maior. São Paulo tem 70 deputados federais, enquanto nós temos 17. Então, é uma luta desproporcional.

Mas, no Senado, todos os estados têm a mesma representatividade. Então, eu e o senador Helder temos um compromisso de fazer esse debate e cobrar um reconhecimento do Governo Federal, por meio das agências reguladoras, para que a gente possa ter sucesso na diminuição dessa tarifa ou, então, uma tarifa mais justa para a população do Estado.

Uma outra questão é a infraestrutura. Os portos e as rodovias federais. Nós temos que melhorar nossas rodovias e melhorar a infraestrutura dos portos. Acho que são pautas que nós temos que defender.

O senhor comentou sobre a não reeleição da governadora Hana. O senhor acha que isso pode resultar em um novo cenário para o governo e que isso pode interferir no trabalho de vocês? Como vocês planejam trabalhar em conjunto pelo Estado do Pará?

São projetos diferentes.

Enquanto este governo privatizou algumas estradas para melhorar, estão anunciando que vão acabar com a privatização. Enquanto este governo privatizou uma área da água para melhorar o saneamento do Estado, eles estão anunciando que vão romper esses contratos.

São propostas completamente diferentes. Ananindeua é um exemplo. É um dos municípios que tem um dos piores índices de saneamento do Brasil. Então, uma pessoa não resolveu lá e agora está dizendo que os contratos que poderiam ajudar serão rompidos.

Nós temos uma Cosanpa deficitária, que o Estado colocava dinheiro. Então, são propostas diferentes daquilo que nós defendemos.

Uma coisa é certa: o que for de interesse da população do Estado, nós vamos estar juntos. Agora, os projetos que não forem de interesse da população, nós não podemos concordar.

E como o senhor avalia a divisão dos votos do eleitorado paraense? Tanto em nível local quanto nacional, como o senhor avalia a eleição de uma bancada mais à direita no Congresso e qual pode ser o impacto disso?

Isso é um fato. O Brasil é um país polarizado e os estados são reflexo disso. O Pará sofreu esse reflexo.

Eu reputo a eleição do Daniel a essa divisão ideológica, que se aproveitou muito bem do voto da direita, embora ele não seja uma pessoa propriamente da direita, mas conseguiu ter esse voto.

O Brasil vive esse momento, que é muito ruim. As pessoas hoje olham para os outros como se fossem inimigos e acham que nós temos que construir, em nível de Brasil, uma unidade em que a gente possa ter um senso para defender o que é melhor para a população.

Se eu for defender, no Senado, eu não tenho problema com voto ideológico. A direita me relacionando bem. Hoje mesmo eu conversei com o Rogério, que é filho do principal adversário meu, o Edemval. Não tenho absolutamente nada contra o Edemval. Acho que é uma página virada, já são eleições passadas.

Mas nós temos que construir a unidade deste país. Enquanto este país viver esse clima de extremismo, só perde a população do nosso Estado e também todo o Brasil.

Pergunta: O senhor não é do MDB, mas o MDB é um aliado, inclusive por meio do senador Helder Barbalho, que é o principal líder desse partido no Estado. O partido conseguiu formar a maior bancada na Assembleia. Qual é a importância dessa composição para o trabalho de vocês?

O MDB fez a maior bancada, com 13 deputados estaduais. União Brasil, junto com o PP, que é a frente da União Progressista, fez cinco. Quer dizer, a oposição a esse grupo fez dez deputados estaduais. Nós fizemos 31.

Agora é construir o diálogo para ver o que é melhor para o Estado, sem radicalismo, sem intransigência. Porque o governo ganhou a eleição e agora nós temos que ser inimigos, brigar? Não. Nós temos que ver qual é a pauta.

Se for uma pauta construtiva para o Estado, nós temos que votar junto com o governo. Se não for, aí sim temos que nos posicionar.

Acho que muita coisa, o governo depende da Assembleia Legislativa e é importante que os deputados possam ter equilíbrio para conviver, pelo menos nesse primeiro momento, com um governo que é de oposição.

O Daniel também foi deputado, conhece a maioria dos deputados. Portanto, acredito que isso é questão de tempo. Tem que haver um equilíbrio aqui com a Casa.
Senador, agora eu queria que o senhor deixasse uma mensagem para o povo do Pará que o elegeu e que espera um trabalho seu agora no Senado.

A minha primeira mensagem é de agradecimento à população do Estado do Pará. Eu vim para o Pará para estudar, vim para cá muito novo. Sou de um estado extremamente pobre, que é o Estado do Amapá. E, graças a Deus, o povo do Pará me abraçou.

Tenho uma carreira política de mais de 30 anos, com mandatos consecutivos, e eu sempre peço que Deus me dê sabedoria, me dê equilíbrio, me dê inteligência para que a gente possa tomar sempre as melhores decisões em prol do povo.

É isso que eu espero e é para isso que eu estou preparado.