IA, violência política e urnas: especialista aponta os principais riscos das eleições de 2026
Ana Cláudia Santano explica como a sociedade civil acompanha o processo eleitoral e alerta para os desafios que podem afetar a disputa deste ano
Diretora executiva da Transparência Eleitoral Brasil, Ana Cláudia Santano atua na coordenação de missões de observação eleitoral no país, uma atividade técnica e imparcial dedicada ao monitoramento detalhado do processo de votação. Com o calendário eleitoral em curso, o trabalho dessas equipes formadas por cidadãos independentes ganha relevância na verificação do cumprimento das normativas vigentes, atuando desde a preparação das urnas eletrônicas e o treinamento de mesários até a formulação de recomendações elaboradas em espírito de colaboração com a Justiça Eleitoral.
Em entrevista ao Grupo Liberal, Santano explica os critérios para a participação da sociedade civil nas missões e analisa os principais desafios do atual ciclo político. A especialista alerta para o avanço da violência política de gênero e raça e para o uso ilícito de inteligência artificial visando à manipulação do eleitorado, reforçando, em contrapartida, a robustez tecnológica do sistema eletrônico de votação e o impacto prático do monitoramento civil no aperfeiçoamento contínuo da democracia brasileira.
O LIBERAL: Os brasileiros sabem que a Justiça Eleitoral organiza as eleições, mas pouca gente conhece as missões de observação eleitoral. Então, o que são essas missões e por que elas existem?
Ana Cláudia Santano: Essa pergunta esclarece o que é observação e fiscalização, pois cada uma tem papel específico. A observação eleitoral monitora e acompanha as eleições de forma imparcial, neutra e silenciosa, focada na coleta técnica de dados. Essa metodologia guia o trabalho das missões para coletar informações, analisá-las e formular recomendações aos órgãos. Nosso foco é a Justiça Eleitoral, que organiza o pleito e, no Brasil, julga eventuais conflitos. Tudo o que a missão faz é num espírito de colaboração. Não cabe à observação dizer se um resultado é válido ou não; isso cabe às entidades fiscalizadoras e à Justiça Eleitoral. A diferença é que os fiscalizadores atuam diretamente e fazem pronunciamentos, enquanto a observação não interfere no processo. Seria como um VAR da Copa do Mundo. A partir dos dados coletados, tiramos conclusões para melhorar a integridade eleitoral. Outra diferença é em relação aos mesários. Eles têm dever direto de conduzir a votação conforme o código eleitoral. Já o observador é independente e responde apenas à missão, que terá um porta-voz oficial para divulgar relatórios à Justiça Eleitoral.
O LIBERAL: Quando esse modelo de observação passou a ganhar espaço no Brasil e o que motivou a criação dessas missões?
Ana Cláudia Santano: A atividade não é nova, mas o Brasil chegou tarde à agenda. Tivemos a primeira missão internacional somente em 2018. Na Colômbia, começaram nos anos 90. A primeira missão nacional ocorreu apenas em 2020. Somos jovens nesse campo. Sobre o surgimento, devemos olhar para a Carta Democrática Interamericana da OEA, que o Brasil integra. Ela traz os lineamentos da observação e como as missões funcionam. Na Transparência Eleitoral Brasil, temos compromisso formal com nosso código de conduta e atuamos alinhados aos melhores padrões internacionais de imparcialidade, não intervenção e independência. A observação é uma forma de participação política, uma maneira de a cidadania contribuir. Além de votar, ser votado e atuar como mesário, o cidadão tem o direito de integrar missões sem precisar se unir a forças políticas. É bacana entender a missão porque passamos a ver as eleições pelos bastidores. Verificamos se o regramento dos mesários foi cumprido, a capacitação e o preparo das seções e urnas. Acompanhamos tudo no pré-eleitoral, durante e no pós-eleitoral.
O LIBERAL: Quem está apto para participar dessas missões e quando o trabalho de vocês começa?
Ana Cláudia Santano: Nosso calendário já está correndo. Apresentamos o credenciamento formal ao TSE em junho e aguardamos o deferimento para cadastrar os observadores. No Brasil, exige-se ser brasileiro, ter mais de 18 anos e estar no pleno exercício dos direitos políticos (sem condenações penais). Além disso, não é permitido ser filiado a partido político, pois a observação deve ser neutra e independente. Estamos com equipes praticamente montadas aguardando o aval do TSE. Este ano teremos uma equipe grande, superando nosso recorde de 2022, quando tivemos cerca de 100 observadores. Estaremos por todo o Brasil e em 10 países observando o voto no exterior, nos dois turnos.
O LIBERAL: Não é preciso ter uma formação específica em política?
Ana Cláudia Santano: Em absoluto. Todos são bem-vindos, basta vontade de participar. A experiência prática e os nossos treinamentos ensinam demais. Não é necessário ensino superior ou médio concluído. Exigimos apenas vontade e rigor nas regras internas, como a neutralidade política. Analisamos redes sociais e os voluntários não podem demonstrar preferência eleitoral. Todos têm posições pessoais, mas na observação somos técnicos. Nossa equipe é bastante plural, com jovens de 18 anos, idosos e pessoas em áreas de fronteira e diversos estados. Promovemos ampla participação. Se não conseguiu se credenciar este ano, prepare-se para 2028, pois toda eleição tem missão.
O LIBERAL: Considerando o histórico, quais são os temas que mais rendem observação?
Ana Cláudia Santano: Optamos institucionalmente por uma observação ampla. Acompanhamos desde o treinamento de mesários e registro de candidaturas até a propaganda. Não olhamos a propaganda geral, focamos na violenta ou que manipula a opinião pública. Analisamos a violência política, que infelizmente aumenta, com recorte para gênero e raça. No financiamento, observamos as cotas de campanhas para mulheres, pessoas negras e, agora, indígenas, pois exigem cumprimento de legislação específica. Após os turnos, analisamos o financiamento geral, o custo por voto e as prestações de contas. Outro ponto central é a inteligência artificial. Em 2024, testamos se as novas regras do TSE se encaixavam na realidade. A resolução caminha bem, mas só se aplica à propaganda estritamente eleitoral. Conteúdos políticos gerados por IA fora desse escopo ficam sem intervenção da Justiça. Nessas brechas, notamos muita violência de gênero gerada por IA e repetiremos o acompanhamento com ONGs de direitos digitais. O TSE firmou acordo recente com as plataformas para equilibrar liberdade de expressão e combate à desinformação. Por fim, focamos no sistema eletrônico de votação. Desde 2022, acompanhamos cerimônias de geração de mídias, lacre de urnas e testes de segurança. Compreender o sistema nos dá elementos para desmentir notícias falsas e explicar essa política pública em vigor desde 1996.
O LIBERAL: Além da violência política de gênero, qual outro aspecto prático a senhora destacaria que pode impactar o processo eleitoral e confundir o eleitor?
Ana Cláudia Santano: As ferramentas de inteligência artificial têm o poder literal de enganar. Eu mesma, especialista na área, já vi conteúdos que me fizeram duvidar dos próprios olhos. É difícil desenvolvermos na sociedade, a curto prazo, a capacidade crítica para questionar o que se consome, pois os materiais são muito bem feitos. É preciso esclarecer que o uso da IA não é proibido nas campanhas; vedado é criar conteúdo sintético para induzir ao erro, desinformar ou cometer crimes. Nossa preocupação é evitar que o eleitor seja levado pela aparência de conteúdos falsos, especialmente sobre a confiabilidade do sistema eletrônico de votação. O questionamento sobre a verdade virá forte. Recomendo: sempre que virem um conteúdo duvidoso, absurdo ou até muito alinhado às suas crenças, pesquisem na internet. Confiram nas agências de checagem para validar a informação.
O LIBERAL: Ouvimos muito que o Brasil é referência em tecnologia eleitoral e a urna eletrônica é um grande exemplo. O país ainda mantém esse status internacionalmente? E o que ainda precisa melhorar?
Ana Cláudia Santano: Afirmo categoricamente que somos referência tecnológica e seremos por bastante tempo. O sistema vigente desde 1996 eliminou as fraudes escancaradas do voto impresso. Temos a proeza de apurar o voto de 156 milhões de eleitores em poucas horas. Muitas missões internacionais vêm ao Brasil para aprender e comparar nosso modelo com o de países como Índia e Estados Unidos. Mas sempre é possível melhorar. O que funcionava há 10 anos pode precisar de ajustes. A grande virtude da urna é não ser conectada à internet. Para evitar manipulações prévias, emitimos a "zerésima" antes da votação, comprovando zero votos. Ao fim, imprime-se o boletim de urna com QR Code, para qualquer um conferir no site do TSE. A transmissão ocorre por canal exclusivo do Tribunal, protegido por blockchain e firewalls. Ataques hackers acontecem em todas as eleições e todos foram barrados até hoje, sem comprometer o processo. O que precisa melhorar é a informação. A população tem o direito de saber como o sistema funciona. Todas as etapas de segurança da urna — geração de mídias, lacre e testes de integridade — são eventos públicos. O sorteio das urnas testadas é transmitido pelo YouTube. Precisamos traduzir essa transparência para uma linguagem acessível, especialmente aos idosos, que têm mais dificuldade com a tecnologia. É nosso dever transmitir melhor essas informações.
O LIBERAL: Após a elaboração dos relatórios da missão, a senhora teria exemplos práticos de recomendações feitas por vocês que foram implementadas pelo TSE?
Ana Cláudia Santano: Tivemos várias recomendações acatadas, principalmente entre 2020 e 2022. Notamos, por exemplo, que as mulheres são imensa maioria entre os mesários voluntários. Questionamos o TSE sobre uma campanha para equilibrar os gêneros, já que a mulher acumula diversos afazeres. O Tribunal fez uma campanha para atrair homens e funcionou. As mulheres seguem maioria porque se voluntariam, mas conseguimos melhor equilíbrio. Outra mudança envolveu os partidos políticos, que são fiscalizadores legais. Em 2022, eles não compareciam às cerimônias de segurança das urnas, mas depois questionavam o processo. Propusemos ao TSE uma comunicação institucional sobre essas datas. O Tribunal e os TREs adotaram uma política de notificação formal para garantir a presença partidária. Um terceiro exemplo foi sobre a Lei 14.192, contra violência política de gênero. O TSE acatou nossa sugestão e produziu ampla campanha educativa explicando o crime e os canais de denúncia no Ministério Público. Tivemos três edições de sucesso dessa campanha. O que acontece no dia da votação no Brasil, em territórios indígenas, asilos e prisões, é fascinante, e ser observador é uma grande experiência.
O LIBERAL: Onde as pessoas podem encontrar mais informações sobre essas missões e qual a sua mensagem final sobre a importância desse trabalho para a democracia brasileira?
Ana Cláudia Santano: O site do TSE tem uma página específica sobre as missões, com editais e relatórios nacionais e internacionais. Nossos materiais e relatórios estão no nosso site e no Instagram, @transparenciaeleitoralbr. Durante a eleição, produzimos três comunicados à imprensa por dia, acompanhando início, andamento e fechamento da votação. Como mensagem final: a democracia brasileira passou por instabilidades nos últimos anos. Precisamos ter consciência de que não cabe mais ficarmos omissos em relação às nossas instituições. É essencial buscar informações confiáveis, analisar candidaturas e comparecer às urnas. Voluntarizem-se como mesários ou observadores. Quanto mais pessoas trouxermos para essa conversa, mais fortes serão as instituições para cobrarmos o cumprimento das leis. Não fiquem em casa no dia da eleição. Cada voto conta.
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