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PARCERIA

Governo britânico vai investir R$40,5 milhões em bioeconomia no Pará, Amazonas e Rondônia

Ministra do Meio Ambiente do Reino Unido visita projetos de agricultura sustentável em Moju

Eduardo Laviano

8 de janeiro de 2023 às 06:45

Coffey e Al-Qaq conheceram etapas do cultivo do açaí em Moju

Coffey e Al-Qaq conheceram etapas do cultivo do açaí em Moju ( Foto: Carmen Helena/O Liberal )

A Ministra do Meio Ambiente, Alimentação e Assuntos Rurais do Reino Unido, Thérèse Coffey, esteve no Pará na última semana para conhecer projetos de agricultura sustentável e bioeconomia na comunidade quilombola de São Manoel, no município de Moju, que será um dos beneficiados pelo Programa Rural Sustentável na Amazônia, financiado pelo governo britânico.

A iniciativa chega na segunda fase e busca valorizar culturas extrativistas baseadas na floresta em pé e disponibilizará 7,2 milhões de libras (R$45,50 milhões, na conversão atual) para os estados do Pará, Amazonas e Rondônia. O valor faz parte de um investimento total de 62,3 milhões de libras (aproximadamente R$ 409,78, na conversão atual) que o Reino Unido disponibilizou para apoiar financeriamente projetos sustentáveis no Brasil desde 2017.

Coffey estava acompanhada da Embaixadora Britânica no Brasil, Stephanie Al-Qaq, e viu de perto a produção de alimentos típicos da região, como castanha-do-pará, açaí, pimenta-do-reino, cupuaçu e cacau, todos resultantes do sistema conhecido como "roça sem fogo", sem queimadas e sem agredir o meio ambiente.

Coffey visitou a comunidade quilombola de São Manoel, no município de Moju
Coffey visitou a comunidade quilombola de São Manoel, no município de Moju (Carmen Helena/O Liberal)

Na opinião de Coffey, a experiência dos produtores de Moju deve ser potencializada e servir de exemplo para o mundo. Ela acredita que os conhecimentos acumulados pelos quilombolas da região precisam se converter em prosperidade e melhores condições de vida para quem atua nesta cadeia econômica.

"Foi uma experiência incrível pois estamos acostumados a ver só o produto final, após todo o beneficiamento. Mas agora vi tudo desde o início com o produto in natura, com baixas emissões de carbono, com fertilizantes naturais que resultam de técnicas milenares dos povos da Amazônia, com participação de toda a comunidade. São verdadeiros guardiões da floresta. Além disso, os planos de bioeconomia do Pará são interessantes e casam com os objetivos que buscamos no Reino Unido", afirma.

A titular da pasta ambiental do Reino Unido veio ao Brasil para representar os britânicos na posse do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e se disse animada para parcerias com o novo governo, em especial por conta das escolhas de Marina Silva e Sônia Guajajara para os ministérios do Meio Ambiente e dos Povos Indígenas, respectivamente.

"Fiquei muito grata por me reunir com elas já no primeiro dia de governo. Já tínhamos relações estabelecidas com o governo brasileiro, mas agora está mais evidente o tamanho da vontade e ambição da administração Lula quando o assunto é ambiente, mudanças climáticas e agricultura sustentável. Com o papel que Lula dá para as ministras, é notável que isso agora faz parte do coração do governo", avalia.

Embaixadora acredita que relações entre Reino Unido e Brasil podem se fortalecer ainda mais
Embaixadora acredita que relações entre Reino Unido e Brasil podem se fortalecer ainda mais (Carmen Helena/O Liberal)

Para a embaixadora Stephanie Al-Qaq, a parceria entre os dois países já é robusta, mas há oportunidades para que ela seja ainda mais fortalecida.

"Ouvir dos paraenses os desafios de proteger e produzir com a floresta viva foi inspirador. Estar aqui nos ajuda a entender também os planos do governo do estado e como podemos apoiar. As pessoas estão cada vez mais conscientes sobre a origem dos produtos. Hoje comi tantos produtos direto da natureza, sem conservantes, sem açúcar. E isso será cada vez mais valorizado. Então o Pará está em muita vantagem para aproveitar este momento de destaque da bioeconomia, pois é um mercado que está crescendo".

O Programa Rural Sustentável conta ainda com as parcerias do Instituto Brasileiro de Desenvolvimento e Sustentabilidade e a Secretaria de Estado de Meio Ambiente e Sustentabilidade, bem como o Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento.

Atualmente, o Reino Unido é o terceiro maior parceiro do Brasil em clima e natureza, com mais de 250 milhões destinados ao Brasil.

Em entrevista para a Reuters, Coffey afirmou que o Reino Unido está analisando "seriamente" a entrada do país no Fundo Amazônia, que já apoia iniciativas sustentáveis no Brasil com suporte financeiro oriundo da Alemanha e da Noruega.

Quilombolas acreditam que portas irão se abrir após visita

Por enquanto, o financiamento de projetos do Programa Rural Sustentável na Amazônia em Moju ainda depende de editais a serem lançados para que os produtores se inscrevam.

Mas para Maria das Dores Freire, presidente da Associação Quilombola de Agricultores de São Manoel, a esperança de melhores condições de trabalho e de redução da pobreza na região já aparece no horizonte.

Atualmente, 20 famílias da comunidade estão envolvidas no plantio, colheita e venda de produtos regionais. Freire trabalha na roça desde criança e aprendeu tudo quando a queima ainda era parte da rotina da família.

Tudo mudou nove anos atrás, quando Michinori Konagano, da Cooperativa Agrícola Mista de Tomé-Açu, mudou a visão dos quilombolas sobre o processo extrativista com novas técnicas que incluem fertilizantes orgânicos e planejamento sazonal. A queima, então, foi abolida.

"O trabalho da roça sem fogo é construído de maneira muito lenta porque muitas pessoas não acreditam que ele pode prevalecer. Além disso, faltam recursos financeiros, é um trabalho árduo, com as mãos, com machados, de maneira bruta e sem máquinas. Essa visita pode fazer outras pessoas acreditarem que nosso trabalho é bom e que vale a pena investir nele", diz.

Maria afirma que interesse do Reino Unido na bioeconomia paraense pode alavancar investimentos
Maria afirma que interesse do Reino Unido na bioeconomia paraense pode alavancar investimentos (Carmen Helena/O Liberal)

Outro desafio é a agregação de valor, já que os produtos são vendidos in natura por falta de condições de beneficiamento.

Francisco Martins é produtor e sonha em ver os frutos da terra saírem do território quilombola prontos para o consumo, embalados com o selo da comunidade e reconhecidos mundo afora.

Ele produz açaí, cacau, banana, pimenta-do-reino e pitaia e estima que o maquinário necessário para a potencializar a produção na região custaria em torno de R$500 mil.

"Estou feliz pois esta visita traz visibilidade. Ainda temos muitos percalços com a questão da infraestrutura, escoamento de produção. Nosso diferencial é produzir em larga escala sem agredir o meio ambiente, sem derrubar, sem agrotóxico, sem tocar fogo. E temos orgulho disso. Espero que no futuro possamos vencer essas barreiras", diz.