O direito de as mulheres brasileiras escolherem seus representantes nas urnas é uma conquista que completa 96 anos de sua aprovação nacional em 2026. Celebrado em 3 de novembro, o Dia da Instituição do Direito de Voto da Mulher no Brasil relembra a trajetória de mobilização feminina que garantiu a participação das mulheres no processo eleitoral. Quase um século depois, apesar dos avanços, a igualdade na ocupação dos espaços de poder ainda é um desafio. No Pará, as mulheres representam a maioria do eleitorado, com 3.195.331 eleitoras em 2026, mas continuam sendo minoria entre os representantes eleitos.
Nas eleições deste ano, 11 mulheres conquistaram vagas na Assembleia Legislativa do Pará (Alepa), o equivalente a 29,26% das 41 cadeiras da Casa. Na Câmara dos Deputados, cinco mulheres foram eleitas para representar o estado, correspondendo a 29,41% das 17 vagas destinadas ao Pará. Os números mostram um crescimento na representação feminina na Alepa em comparação com 2022, quando sete mulheres foram eleitas. Já na bancada federal, o resultado é igual ao do pleito anterior, com cinco deputadas eleitas.
A presença feminina também segue limitada nas disputas pelos principais cargos do Executivo e do Senado. Em 2026, nenhuma mulher foi eleita senadora pelo Pará, repetindo o cenário de 2022. Quatro candidatas disputaram as vagas: Edlaine Rodrigues (Democrata), Fernanda Lopes (Unidade Popular), Gizelle Freitas (PSOL) e Lívia Noronha (Solidariedade). Na eleição para o governo estadual, Hana Ghassan (MDB) concorreu ao cargo, mas foi derrotada no primeiro turno.
Desafios na política
A deputada federal Dilvanda Faro (PT), reeleita em 2026, aponta que a conquista de espaço na política ainda exige das mulheres o enfrentamento de obstáculos relacionados tanto à vida pessoal quanto ao ambiente político. Entre as dificuldades, ela destaca a necessidade de conciliar as responsabilidades familiares com o trabalho e a atuação parlamentar.
“Um dos obstáculos foi me adaptar à tripla jornada de trabalho. Não é fácil cuidar de filhos, casa, marido, estar no mercado de trabalho e continuar na política”, relatou ao Grupo Liberal.
A parlamentar também chama atenção para a violência de gênero e para as situações em que mulheres precisam reafirmar constantemente sua capacidade de ocupar cargos e exercer funções de liderança. Segundo ela, o desrespeito às opiniões femininas e as interrupções durante manifestações são situações recorrentes.
“Diversas vezes temos que provar que damos conta, que também somos capazes, passar por violência de gênero na política e não ficar calada. Muitas vezes temos que gritar para não atrapalharem a nossa fala, não respeitando nossas opiniões, achando que somos fracas”, afirmou.
Dilvanda também observa que as dificuldades enfrentadas ao longo da trajetória política levam algumas mulheres a desistirem de disputar e exercer mandatos. “Muitas vezes vemos nossa colega desistir, por passar todos esses obstáculos e a gente não poder convencê-la do contrário”, lamentou.
A deputada estadual eleita Tati Barra (PL) no Pará, que recebeu quase 80 mil votos nas eleições de 2026, também avalia que a ampliação da presença feminina nos espaços de poder precisa ter continuidade. Médica e mãe, ela afirma que a experiência pessoal e a confiança recebida nas urnas reforçam a responsabilidade de representar a população paraense.
“Venho da medicina, sou mãe e fui eleita deputada estadual com quase 80 mil votos. Essa confiança me traz uma responsabilidade muito grande e reforça minha vontade de representar os paraenses e defender aquilo em que acredito”, declarou.
Tati destaca o aumento do número de mulheres eleitas para a Alepa, que passou de sete, em 2022, para 11, em 2026. Ela também ressalta a composição da bancada feminina do PL, que terá quatro deputadas entre as sete parlamentares eleitas pela legenda.
“O PL terá a maior bancada feminina da Casa, com quatro deputadas eleitas. Isso significa que, das sete cadeiras conquistadas pelo nosso partido, quatro serão ocupadas por mulheres. É um resultado que mostra o espaço que o PL tem priorizado para novas lideranças femininas”, afirmou.
Conquista histórica
A luta pelo direito ao voto feminino no Brasil começou muito antes de sua regulamentação nacional. Ainda no século XIX, jornais feministas, como O Sexo Feminino, fundado em 1873, já reivindicavam maior participação das mulheres na sociedade e na vida política, em um contexto no qual elas enfrentavam restrições sociais e jurídicas à autonomia.
Nas décadas de 1910 e 1920, a mobilização ganhou força com a atuação da bióloga Bertha Lutz, uma das principais lideranças do movimento sufragista brasileiro. Ela fundou a Federação Brasileira pelo Progresso Feminino, organização que articulou campanhas em defesa dos direitos políticos das mulheres.
Um dos primeiros avanços ocorreu em 1927, quando o Rio Grande do Norte se tornou o primeiro estado brasileiro a permitir o voto feminino em sua legislação. Naquele ano, a professora Celina Guimarães Viana tornou-se a primeira eleitora registrada da América Latina. Em 1928, Alzira Soriano foi eleita prefeita de Lajes, também no Rio Grande do Norte, entrando para a história como a primeira mulher a ocupar uma prefeitura no Brasil.
Outro marco foi registrado em 3 de novembro de 1930, quando o Senado aprovou um projeto de lei que autorizava as mulheres brasileiras a votar. A tramitação, porém, foi interrompida pela suspensão das atividades parlamentares durante a Revolução de 1930. Posteriormente, em 24 de fevereiro de 1932, o então presidente Getúlio Vargas assinou o Decreto nº 21.076, que instituiu o Código Eleitoral e estendeu nacionalmente o direito ao voto feminino, inicialmente de forma facultativa.
Em 1934, o direito foi incorporado à Constituição Federal. A obrigatoriedade do voto feminino, em condições equivalentes às dos homens, foi estabelecida pelo Código Eleitoral de 1965.
Primeira deputada federal
A conquista do voto também abriu caminho para a presença feminina nos parlamentos. Em 1933, Carlota Pereira de Queiroz tornou-se a primeira mulher eleita deputada federal no Brasil, representando o estado de São Paulo. Médica formada pela Universidade de São Paulo (USP), ela ganhou destaque durante a Revolução Constitucionalista de 1932, quando coordenou a assistência médica aos feridos e liderou um grupo de aproximadamente 700 mulheres voluntárias.
Eleita em 3 de maio de 1933, Carlota foi a única mulher entre os 254 integrantes da Assembleia Nacional Constituinte. Durante sua atuação parlamentar, defendeu pautas relacionadas aos direitos das mulheres, à infância, à saúde e à educação. Permaneceu na Câmara dos Deputados até novembro de 1937, quando o Congresso Nacional foi fechado durante o Estado Novo.
Mulheres na política paraense: uma trajetória de avanços
A participação feminina na política do Pará também foi marcada por conquistas graduais e longos períodos de baixa representação. A antropóloga e professora de Sociologia da Universidade Federal do Pará (UFPA), Mari Ximenes, explica que a presença das mulheres nos espaços legislativos estaduais e federais foi ampliada ao longo das décadas, mas ainda permanece proporcionalmente pequena em relação ao total de parlamentares.
“Na Assembleia Legislativa do Pará, uma das primeiras mulheres a conquistar uma cadeira foi Rosa Carvalho Rebelo Pereira, eleita deputada estadual e reeleita em 1950”, destacou.
Após a interrupção democrática no país, a presença feminina na Casa foi retomada com Ester Rossy, que ingressou em 1972 como suplente da Arena. Em 1974, Maria de Nazaré Barbosa foi eleita pelo mesmo partido e se tornou a primeira mulher a integrar a Mesa Diretora da Alepa, no cargo de primeira-secretária.
Segundo Mari Ximenes, Maria de Nazaré permaneceu por muitos anos como a única mulher com expressão política na Assembleia.
“O cenário começou a mudar após a redemocratização. Em 1990, Eunice Gouveia e Aida Maria Farias da Silva passaram a ocupar vagas no Legislativo estadual”, explicou.
A partir da década de 1990, o número de deputadas apresentou crescimento. Em 1994, quatro mulheres foram eleitas para a Alepa. Em 1998, o número chegou a sete, patamar que se manteve durante alguns mandatos entre o fim do século XX e o início dos anos 2000. Em 2014, houve uma redução, com apenas três mulheres eleitas. Já em 2018, a Assembleia registrou dez deputadas, o maior número até então, correspondente a 25% das cadeiras.
Na Câmara dos Deputados, a trajetória também foi marcada por intervalos entre as eleições de mulheres para representar o Pará. De acordo com o levantamento apresentado pela pesquisadora, considerando os registros a partir de 1950, Lúcia Viveiros foi a primeira paraense a integrar a bancada federal, no mandato de 1983 a 1987. Depois dela, Socorro Gomes ocupou uma vaga entre 1991 e 1995.
No mandato seguinte, de 1995 a 1999, Socorro foi reeleita e outras duas mulheres passaram a integrar a representação paraense em Brasília: Elcione Barbalho e Ana Júlia Carepa. Esta última entrou para a história política do estado como a primeira e única mulher eleita governadora do Pará.
