A disputa pela Presidência da República entrou em uma fase de forte equilíbrio entre Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e Flávio Bolsonaro (PL). Os levantamentos mais recentes da Quaest e da AtlasIntel mostram os dois candidatos tecnicamente empatados em um eventual segundo turno, embora apresentem pequenas diferenças numéricas entre si.
Na Quaest de 21 de setembro, Flávio Bolsonaro apareceu com 42% contra 41% de Lula. Na AtlasIntel, divulgada posteriormente, em 23 de setembro, Lula registrou 47,7%, ante 47,4% de Flávio. Em ambos os casos, as diferenças estão dentro da margem de erro. Para os cientistas políticos ouvidos, portanto, o principal dado não é quem aparece numericamente à frente, mas o grau de proximidade entre os dois candidatos.
“A pesquisa registra um determinado instante, não antecipa necessariamente o comportamento do eleitor até a urna”, afirma o cientista político paraense Rodolfo Marques.
Para ele, os números mostram uma disputa “extremamente apertada e em processo de cristalização”, e ainda não permitem falar em uma mudança estrutural da eleição.
O cientista político paraense Carlos Siqueira também chama atenção para o caráter momentâneo das pesquisas. Segundo ele, a diferença entre uma pequena vantagem de Lula no primeiro turno e uma vantagem igualmente estreita de Flávio no segundo turno deve ser analisada considerando margem de erro, metodologia e o momento da campanha.
Para Siqueira, a proximidade entre os dois candidatos revela, ao mesmo tempo, a capacidade de Lula de preservar uma parcela importante de seu eleitorado e a permanência da força política associada ao bolsonarismo.
“O bolsonarismo não perde força”, avalia o cientista político, acrescentando que a disputa também é influenciada por uma mobilização mais ampla da direita e por fatores que ultrapassam o ambiente estritamente eleitoral brasileiro.
Voto antipetista se concentra em Flávio
Um dos fatores apontados pelos analistas para explicar o crescimento de Flávio é a concentração do eleitorado contrário ao PT em torno da candidatura do senador.
Com a aproximação da eleição e a redução do espaço das candidaturas alternativas, o voto que antes estava distribuído entre diferentes nomes tende a se concentrar nos candidatos que apresentam maior capacidade de chegar ao segundo turno.
Na avaliação de Marques, Flávio passou a funcionar como o principal polo de oposição a Lula. "Isso permite que o candidato cresça sem necessariamente ampliar de forma expressiva o seu eleitorado original: basta que votos anteriormente dispersos entre outros candidatos ou eleitores indecisos sejam incorporados à sua candidatura", avalia.
O movimento também está relacionado à transferência do capital eleitoral do bolsonarismo para Flávio. Segundo o Mestre e Doutorando em Ciência Política André Carneiro Buna, a indicação de Flávio pelo pai, Jair Bolsonaro, contribuiu para concentrar rapidamente nesse nome uma parcela importante do eleitorado que já havia votado no ex-presidente.
Buna observa que as últimas eleições foram marcadas por uma polarização mais intensa entre dois grandes campos políticos.
"Nesse cenário, a direita passou a ter um polo eleitoral mais definido, enquanto o eleitorado contrário a Lula encontrou em Flávio uma candidatura capaz de concentrar esse sentimento", analisa.
A leitura de Siqueira vai na mesma direção. Para ele, a candidatura de Flávio não deve ser analisada apenas como uma candidatura individual, mas como parte de uma estrutura política construída pelo bolsonarismo. O cientista político considera relevante o fato de Flávio representar uma continuidade familiar e política de Jair Bolsonaro, o que facilita a transferência de parte desse capital eleitoral.
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A eleição se aproxima de uma disputa entre dois polos
Os dados de primeiro turno ajudam a explicar o fenômeno. Na Quaest de 22 de setembro, Lula apareceu com 37% e Flávio com 33% no primeiro turno, enquanto os demais candidatos registram percentuais menores. O estreitamento da disputa faz com que o eleitor passe a considerar com maior intensidade quais candidatos efetivamente têm possibilidade de chegar à etapa decisiva.
Para Rodolfo Marques, esse processo é típico de uma eleição polarizada.
“À medida que a eleição se aproxima, o eleitor começa a fazer escolhas mais estratégicas”, afirma.
André Buna também destaca que, desde 2018, as eleições presidenciais brasileiras passaram a apresentar uma polarização diferente daquela observada no período em que PT e PSDB dominavam a disputa.
"Com o enfraquecimento do PSDB como força presidencial competitiva, o confronto passou a se reorganizar em torno de outros polos políticos", analisa Buna.
Essa concentração ajuda a explicar por que pequenas oscilações nas intenções de voto produzem uma percepção de mudança significativa na corrida. Se os votos dos demais candidatos diminuem, mesmo uma pequena parcela migrando para Lula ou Flávio pode alterar a fotografia apresentada pelas pesquisas.
Para Siqueira, a proximidade entre os dois candidatos também mostra que a vantagem associada ao governo de turno não é suficiente, por si só, para produzir uma distância ampla nas pesquisas.
O cientista político observa que Lula reúne as condições de quem ocupa a Presidência, podendo apresentar políticas públicas e ações de governo como parte de sua campanha, mas enfrenta uma oposição capaz de disputar a narrativa sobre os resultados da administração.
Segundo essa interpretação, a máquina pública pode favorecer um candidato incumbente pela visibilidade e pelo conhecimento das políticas governamentais, mas sua influência eleitoral depende da forma como essas ações são percebidas pelo eleitor e disputadas no debate público.
A força do governo e a reação da oposição
A presença de Lula como presidente e candidato cria uma situação particular na disputa. O governo ocupa diariamente espaço no noticiário, anuncia medidas, executa políticas públicas e mantém contato institucional com diferentes segmentos da população.
Siqueira afirma que, historicamente, candidatos ligados a governos em exercício podem contar com a exposição e com a capacidade de apresentar políticas públicas como parte de sua campanha.
Ao mesmo tempo, ressalta que a oposição atua para questionar os resultados do governo e deslocar a percepção do eleitor para temas desfavoráveis ao candidato incumbente.
"Nesse ambiente, a eleição não se resume à avaliação objetiva das políticas públicas. Há também uma disputa permanente pela interpretação dos resultados do governo e pela definição dos assuntos que devem dominar a campanha", afirmou.
Para Siqueira, o fato de Flávio aparecer competitivo diante de Lula indica que a estrutura política associada ao bolsonarismo continua mobilizada. Ele também relaciona esse fenômeno a uma onda internacional de fortalecimento de forças políticas de direita e conservadoras, embora ressalte que a dinâmica eleitoral brasileira possui fatores próprios.
A avaliação ajuda a ampliar a interpretação sobre o desempenho de Flávio: além da transferência do eleitorado de Jair Bolsonaro, existe uma identidade política consolidada que pode ser mobilizada durante a campanha.
Diferenças metodológicas também ajudam a explicar os números
As pesquisas Quaest e AtlasIntel não utilizam exatamente a mesma metodologia, o que também deve ser considerado na comparação dos resultados.
Segundo Buna, uma das diferenças está no tratamento do chamado “eleitor provável”, conceito conhecido internacionalmente como likely voter.
"A Quaest utiliza informações sobre a probabilidade de o entrevistado efetivamente comparecer às urnas para compor seus resultados, enquanto a AtlasIntel não utiliza exatamente esse mesmo procedimento", revela
Há ainda diferenças nos métodos de coleta e tratamento dos dados. Embora as pesquisas tenham características demográficas semelhantes na composição das amostras, aspectos como forma de entrevista e critérios estatísticos podem produzir resultados diferentes.
Por isso, uma diferença de poucos décimos ou de um ponto percentual entre os candidatos não deve ser interpretada isoladamente como evidência de uma mudança na preferência do eleitorado.
Siqueira reforça esse ponto ao destacar a necessidade de observar margem de erro e metodologia antes de interpretar uma pequena vantagem como uma mudança efetiva na liderança. Em uma disputa tecnicamente empatada, uma diferença numérica pode não representar uma diferença estatisticamente significativa.
“A pesquisa eleitoral é uma fotografia do tempo e do espaço com as informações que o eleitor tem naquele momento”, resume Buna.
A mesma ressalva é importante para a leitura da distância entre primeiro e segundo turnos. Uma candidatura pode aparecer numericamente à frente em determinado cenário e atrás em outro sem que isso, isoladamente, represente uma alteração consolidada no comportamento do eleitorado.
Disputa também é pela agenda eleitoral
Outro elemento destacado pelos especialistas é o tipo de assunto que domina o debate público.
Quando a campanha se concentra em conflitos institucionais, identidade política, oposição ao governo e questões relacionadas ao universo bolsonarista, Flávio tende a encontrar um ambiente favorável para mobilizar o eleitor antipetista.
Marques chama atenção para uma “despolitização relativa” do debate, quando questões concretas de governo dão lugar a uma disputa mais emocional e identitária. Nesse contexto, temas ligados à rejeição aos dois principais polos podem ganhar maior peso na decisão do eleitor.
Siqueira acrescenta que a reta final da campanha é marcada justamente pela tentativa de cada candidatura de apresentar seus projetos, ações e argumentos de maneira a consolidar sua imagem perante o eleitorado.
Para ele, as últimas semanas podem ser decisivas para a percepção que o eleitor constrói sobre os candidatos, especialmente entre aqueles que ainda não cristalizaram completamente sua escolha.
Isso ajuda a entender por que questões potencialmente negativas para Flávio, segundo críticas de seus adversários e reportagens recentes, não necessariamente se traduzem em queda imediata nas pesquisas. Para produzir efeito eleitoral, esses assuntos precisam alcançar uma parcela significativa do eleitorado e competir pela atenção com outros temas da campanha.
A dinâmica pode ser diferente quando o debate se desloca para economia, renda, programas sociais e custo de vida.
Economia e programas sociais são áreas de disputa para Lula
É nesse campo que Lula mantém vantagens importantes entre determinados segmentos do eleitorado.
Marques cita como exemplo os beneficiários do Bolsa Família. Na pesquisa Quaest de 21 de setembro, Lula apareceu com 56% nesse grupo em um eventual segundo turno, contra 30% de Flávio.
Para o analista, a questão central para Lula é fazer com que a eleição seja discutida também a partir de temas nos quais o governo tem maior capacidade de apresentar resultados e políticas públicas, especialmente economia, renda e programas sociais.
A análise de Siqueira acrescenta que essa é uma das principais dimensões da disputa entre um candidato incumbente e uma oposição organizada.
"Lula pode apresentar a experiência de governo e políticas públicas implementadas ao longo do mandato, enquanto a oposição procura contestar os resultados e enfatizar outros aspectos da realidade nacional", disse Siqueira.
A reta final pode redefinir a fotografia das pesquisas
A combinação desses fatores ajuda a explicar por que a disputa aparece tão equilibrada nas pesquisas. Há, de um lado, um presidente com forte reconhecimento nacional, uma estrutura governamental e segmentos do eleitorado associados a políticas sociais e renda. De outro, há uma candidatura que concentra parte relevante do eleitorado bolsonarista e antipetista.
Para Siqueira, o cenário também evidencia os limites de uma leitura baseada exclusivamente na vantagem numérica de uma pesquisa. O resultado apresentado pelos institutos representa o eleitorado no momento em que as entrevistas foram realizadas e está sujeito a alterações ao longo da campanha.
A eleição, portanto, permanece aberta a movimentos de última hora, especialmente em uma disputa na qual as diferenças estão dentro das margens de erro. A reta final, com propaganda eleitoral, debates, exposição de propostas e novos acontecimentos políticos, pode alterar a percepção dos eleitores.
Para os analistas, Lula precisa manter os segmentos nos quais apresenta maior desempenho e fazer com que a avaliação de seu governo permaneça relevante para a decisão do eleitor. Flávio, por sua vez, precisa consolidar o eleitorado associado ao bolsonarismo e ao antipetismo e ampliar sua capacidade de atração para além desse núcleo.
Como sintetiza Siqueira, a pesquisa é uma “fotografia de momento”. O retrato atual mostra uma disputa apertada, mas a imagem captada pelos institutos não equivale ao resultado da urna. A definição ocorrerá apenas quando os eleitores efetivamente fizerem sua escolha.