O CEO da Quaest Pesquisa e Consultoria, Felipe Nunes, avalia que a disputa pelo governo do Pará segue altamente competitiva, mesmo com o empate técnico entre Daniel Santos (Podemos) e Hana Ghassan (MDB), apontado na mais recente pesquisa do instituto. Em entrevista exclusiva ao Grupo Liberal, ele avaliou que o avanço da então governadora está diretamente ligado à associação com o ex-governador Helder Barbalho (MDB), enquanto a campanha deve exigir dos dois principais concorrentes mais do que o peso de suas gestões. "Campanha não é só governo. Campanha também é performance", afirmou, acrescentando que os próximos levantamentos serão decisivos para medir a evolução dos candidatos e a percepção do eleitor sobre continuidade ou mudança na administração estadual.
Sobre a corrida ao Senado, Felipe Nunes afirmou que o cenário permanece indefinido e pode reservar surpresas, sobretudo porque, nesta eleição, o eleitor terá direito a dois votos para o cargo. Para o cientista político, a distribuição desse segundo voto será determinante para definir os eleitos, especialmente diante do elevado número de indecisos. Ele também destacou que o Pará apresenta um nível de polarização menor do que outros estados e ressaltou que pesquisas eleitorais devem ser interpretadas como um retrato do momento, embora também influenciem a decisão do eleitor ao ampliar o acesso à informação. Além disso, defendeu a transparência metodológica como principal critério para aferir a credibilidade dos levantamentos de opinião.
O Daniel Santos e a Hana Ghassan estão tecnicamente empatados pela última pesquisa Quaest para governo do Pará. Como você avalia esse empate técnico?
Felipe Nunes: Quando a gente olha o crescimento da associação da Hana com o ex-governador Helder Barbalho, a gente percebe que o crescimento dela se deu, sobretudo, por conta dessa associação agora no governo tentando mostrar também os seus atributos e tal. Então, eu acho que essa é a grande força dela.
Mas, como eu mostrei na pesquisa, é um cenário que parece muito competitivo. Ela vai ter que melhorar o seu desempenho como governante e o Daniel vai ter que trabalhar todos os seus atributos, porque campanha não é só governo. Campanha também é performance. Vai ser muito interessante ver o debate entre eles, perceber como é que o eleitor enxerga essa continuidade do governo Helder Barbalho versus uma possibilidade de mudança. Eu tô muito curioso pra ver como as próximas pesquisas vão mostrar a evolução dos dois candidatos.
No cenário do Senado, a gente tem os dois primeiros nomes, Helder Barbalho, o ex-governador, e o Éder Mauro, que é um deputado federal bem conhecido. Em terceiro e quarto lugar, a gente tem outros nomes, como o Zequinha Marinho, que está tentando a reeleição, e o Celso Sabino, ex-ministro de Turismo do governo Lula. Como você avalia esse cenário do Senado? Pode ainda nos surpreender ou está definido?
Eleição é sempre uma possibilidade surpresa. Eu prefiro sempre entender isso pela minha experiência. O que me chama atenção no caso do Senado é que esse ano a gente tem duas vagas. O eleitor pode votar duas vezes. Isso geralmente guarda muita surpresa, porque mais importante do que o primeiro voto é como o eleitor distribui esse primeiro voto em outros nomes. Por exemplo, você falou muito bem da posição do Helder, um candidato que está em primeiro lugar hoje nessa última pesquisa da Quaest. Aquele voto do Helder distribuído para um outro nome pode fazer a diferença.
O Éder Mauro, que foi muito bem na eleição anterior, agora tenta também capitalizar de alguma forma esse recall grande que ele tem, já um nome conhecido, pra ver se ele junta com outro nome e com isso consegue formar ali uma aliança de sucesso.
Então, o grande ponto do Senado esse ano é a gente observar a distribuição dos dois votos. A gente tem que ter muita calma, porque o número de indecisos ainda é grande no Senado, no Brasil inteiro.
Geralmente esse é o último voto dado. O eleitor primeiro escolhe o presidente, depois escolhe o governador, depois escolhe o deputado e só no fim escolhe o senador. Então a gente tem que olhar com muita calma.
Apesar do Helder Barbalho estar na frente e do Éder Mauro estar em segundo lugar, o Éder Mauro está próximo de outros nomes, como o Zequinha Marinho, o Celso Sabino e em quarto lugar o Chicão, que é o ex-presidente da Alepa (Assembleia Legislativa do Pará). Ou seja: eles estão meio que próximos ali, quase tecnicamente empatados. Você acha que isso pode desembaralhar ainda? Como você enxerga?
Então, isso vai depender muito de dois elementos. Primeiro, o eleitor geralmente vota no senador ligado ao governador. Então, eu tô muito interessado pra ver no Pará como é que a chapa que o Helder lidera, como é que ele vai atrair votos para esse possível segundo nome. Pelo que eu leio nos jornais, o Chicão seria esse nome. Então vai ter ali uma aliança interessante.
Mas também tô curioso pra ver como é que a chapa do Daniel vai desempenhar.A gente vê o Éder Mauro tendo ali um desempenho já um pouquinho à frente dos outros. Vamos ver quem cola nele pra ver como é que esse desempenho se desenrola. A grande diferença dessa eleição vai ser se o eleitor do Pará vai querer entregar todos os seus votos para uma chapa - ou seja, tentando votar para presidente, governador e senador quase do mesmo lado -, ou se ele vai preferir fazer como em outros estados: dividir o voto pra colocar as forças em diferentes lugares.
Por enquanto, é cedo pra fazer qualquer prognóstico, porque os indecisos são altos e porque a gente não tem um padrão ainda muito claro do que o eleitor vai decidir lá na frente.
A rejeição do presidente Lula está um pouquinho alta aqui no Pará, de acordo com a pesquisa Quaest. A aprovação e desaprovação estão próximas uma da outra, mas mesmo assim o Lula está liderando no Pará. Como você avalia esse cenário?
O Pará é um estado muito estratégico. A gente fala muito de Minas Gerais, fala muito de São Paulo, mas o Pará é muito importante porque ele é a entrada ou a transição entre o Norte e o Nordeste. Isso tem feito muita diferença. É um estado que o presidente Lula, pelas análises que eu acompanho, também conta como um estado que precisa ganhar pra tentar ter uma vantagem na região Norte, que é uma região importante. Mas a rejeição do presidente Lula é alta, como você mesmo chamou a atenção.
Então, eu acho que vai haver uma nova batalha de rejeições aqui. Não dá pra saber se o Flávio, que hoje é o nome mais competitivo, consegue ultrapassar o presidente Lula. Ele teria que trabalhar essa rejeição de uma forma melhor.
Talvez no segundo turno ele possa fazer isso, se passar pro segundo turno de uma forma melhor. Mas o presidente Lula sai na frente e, geralmente, quem sai na frente leva vantagem.
Existem muitos institutos de pesquisa e levantamento realizados nesse período eleitoral. Quais critérios um cidadão deve observar pra saber se uma pesquisa é séria? E quais metodologias contribuem para aumentar a credibilidade de um levantamento?
Essa pergunta é muito importante. Sou um dos maiores defensores do que eu chamo de transparência. A melhor maneira da gente entender se o instituto está fazendo um trabalho correto é quão transparente ele é em relação ao seu método. Se o relatório dele vem completo com todos os cruzamentos, se os indicadores do questionário estão todos presentes ali, se o eleitor tem acesso à metodologia de maneira fácil, rápida. A gente tenta fazer isso até pra servir de exemplo pra tanta gente que faz pesquisa e faz bem aqui no Pará e em outros lugares.
Mas para ajudar o eleitor a ter mais tranquilidade de ler aquele resultado, a gente sabe que pesquisa é um importante determinante do voto, porque as pessoas gostam de se informar, elas gostam de pesquisa e a gente tem que ter muito rigor, muito cuidado, muita isenção e independência para fazer o trabalho. Acho que a palavra-chave é transparência.
Qual o tempo necessário entre uma pesquisa e outra para analisar o cenário político e as principais mudanças? Pesquisas divulgadas com um mês de diferença ajudam a demonstrar esse comportamento?
Depende muito do que acontece entre as duas pesquisas. Há momentos em que tem tanta coisa acontecendo que você precisa de mais pesquisas num período curto de tempo. Há outros momentos que não. A eleição fica mais parada, mais difícil e aí você pode ter diferenças de mais longo prazo.
Para dar um exemplo: a Quaest fez em março deste ano uma primeira rodada aqui no Pará e agora só foi fazer de novo em julho. Por quê? Porque esse é o tempo para maturação do processo. Agora, na eleição, vamos fazer mais vezes. Porque a gente sabe que a opinião pública muda mais rápido.
O Pará tem características que o diferenciam do restante do país do ponto de vista eleitoral?
Quando eu olho pra um indicador que é importante, que é o de definição ideológica e de afeto político, dá pra ver que o Pará é um estado que tem um nível de polarização um pouco menor do que outros lugares do Brasil. A gente aqui tem menos divisão de dois grupos, embora o lulismo e o bolsonarismo continuem pautando a eleição também aqui no Pará.
Existe hoje um eleitor mais volátil do que nas eleições anteriores?
Há dois elementos. Se tem mais volatilidade eleitoral, sim, principalmente na reta final da eleição. Na reta final, a gente tem visto grandes mudanças acontecendo e isso acho que caracteriza. O eleitor espera mais, observa mais e lá na reta final decide o que ele vai fazer.
O que mudou no comportamento do eleitor brasileiro de 2018 pra cá?
Tem diferentes variáveis que ajudam a explicar, mas sem dúvida nenhuma, aquilo que eu explico no meu livro, no “Biografia do Abismo”, que é o nível de polarização política, das identidades. O eleitor agora vota mais com a sua identidade, vota mais como se fosse um time.
Isso acaba determinando o comportamento. Comportamento esse que é novo. O Brasil não tinha antes de 2018 esse nível de definição e identidade como tem agora.
Você acha que as pesquisas influenciam o voto ou elas apenas refletem um cenário do momento, uma foto?
Na verdade, as duas coisas. As pesquisas são fotos do seu momento em que ela é capturada. A pesquisa não é prognóstico, não é bola de cristal. Ela, na verdade, explica o que aconteceu no passado, quando a entrevista foi feita.
Mas é óbvio que ela ajuda o eleitor a tomar a decisão. O eleitor olha pras pesquisas, acompanha as pesquisas sérias, e isso ajuda ele a decidir o que ele vai fazer - se ele vai optar por um candidato, às vezes, mais competitivo, menos. É do processo. A pesquisa serve para democratizar o acesso à informação numa eleição.
