O número de filhos por família diminui no Brasil, enquanto os animais de estimação conquistam cada vez mais espaço nos lares. A mudança no perfil das famílias brasileiras acompanha a redução da taxa de fecundidade e o crescimento da população pet, que já soma cerca de 167 milhões de animais no país. Cães e gatos deixaram de ocupar apenas o papel de companhia e passaram a integrar a dinâmica familiar de muitos brasileiros.
Esse cenário também se reflete no comportamento dos tutores, no crescimento do mercado pet e na ampliação das discussões sobre o bem-estar animal. Para especialistas, a relação entre pessoas e animais envolve vínculos afetivos que ajudam a explicar o aumento das chamadas famílias multiespécie.
Menos filhos e mais animais nos lares brasileiros
A transformação das estruturas familiares ocorre em um contexto de queda na taxa de fecundidade. Em 1960, a média era de 6,16 filhos por mulher no Brasil. Em 2020, o índice chegou a 1,74, segundo informação divulgada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).
Na direção oposta, a população de animais de estimação cresceu 65% entre 2009 e 2019, de acordo com o Instituto Pet Brasil. A pesquisa Radar Pet 2023, realizada pelo Sindicato Nacional da Indústria de Produtos para a Saúde Animal (Sindan), também identificou a presença significativa de animais em famílias sem filhos.
Entre os domicílios com cachorros, 21% pertencem a casais sem filhos, enquanto 65% são de famílias com crianças. No caso dos gatos, 25% dos lares com felinos são de casais sem filhos.
A mudança não significa necessariamente que os animais estejam substituindo os filhos em todas as famílias. Em muitos casos, ter um pet representa uma escolha consciente de estilo de vida, na qual o cuidado e o vínculo afetivo com os animais passam a fazer parte da organização familiar.
Famílias multiespécie: pets passam a integrar o núcleo familiar
O crescimento das chamadas famílias multiespécie acompanha essa transformação. O conceito representa grupos familiares nos quais os animais são reconhecidos como integrantes do núcleo doméstico, participando da rotina e recebendo cuidados semelhantes aos destinados aos demais membros da família.
A psicóloga cognitivo-comportamental Rejane Sbrissa explica que o conceito de família atualmente não está restrito aos laços biológicos. Escolha, cuidado, responsabilidade e afeto também fazem parte dessa construção.
Segundo a especialista, a convivência com cães e gatos pode atender a necessidades emocionais, como apego seguro e pertencimento. Estudos associam a relação com animais à redução do estresse, à diminuição de sintomas ansiosos e à sensação de propósito.
A rotina de alimentar, proteger, levar ao veterinário e garantir o bem-estar do animal também estimula o chamado sistema de cuidado parental. Esse processo pode proporcionar ao tutor sentimentos de responsabilidade e importância na vida de outro ser.
Rejane ressalta, entretanto, que considerar o animal como filho exige atenção ao equilíbrio dessa relação. O vínculo pode ser positivo quando proporciona companhia e afeto, mas se torna um motivo de preocupação quando gera dependência emocional, ansiedade excessiva ou restrições à vida social.
Pará tem 26,4% dos domicílios com pelo menos um gato
A presença dos animais nos lares brasileiros também pode ser observada nos dados sobre a população de felinos. Segundo a Pesquisa Nacional de Saúde 2019, a última realizada pelo IBGE, 19,3% dos domicílios brasileiros têm pelo menos um gato. Isso significa que aproximadamente um em cada cinco lares possui um felino.
O Pará aparece entre os estados com maior proporção de residências com gatos. No levantamento, 26,4% dos domicílios paraenses têm pelo menos um animal dessa espécie, colocando o estado na sétima posição do ranking nacional.
Os três primeiros colocados são do Nordeste: Piauí, com 32,6%; Maranhão, com 31,5%; e Ceará, com 29,3%. Já os menores percentuais foram registrados no Distrito Federal (10,3%), Espírito Santo (13,2%) e Minas Gerais (14,5%).
Confira o percentual de domicílios com pelo menos um gato em cada unidade da Federação:
- Piauí: 32,6%;
- Maranhão: 31,5%;
- Ceará: 29,3%;
- Tocantins: 27,2%;
- Rondônia: 26,9%;
- Acre: 26,4%;
- Pará: 26,4%;
- Rio Grande do Sul: 25,2%;
- Alagoas: 24,8%;
- Sergipe: 24,4%;
- Roraima: 23,5%;
- Amapá: 22,8%;
- Mato Grosso: 22,6%;
- Amazonas: 21,8%;
- Paraíba: 21,7%;
- Mato Grosso do Sul: 21,1%;
- Rio Grande do Norte: 20,6%;
- Bahia: 20,2%;
- Pernambuco: 20,1%;
- Santa Catarina: 19,5%;
- Paraná: 18,2%;
- São Paulo: 16%;
- Goiás: 14,7%;
- Rio de Janeiro: 14,6%;
- Minas Gerais: 14,5%;
- Espírito Santo: 13,2%;
- Distrito Federal: 10,3%.
Geração Z impulsiona adoção de animais
A mudança no relacionamento com os pets também aparece entre os jovens. A Geração Z demonstra maior envolvimento com a adoção e com iniciativas de proteção animal, além de incluir os animais em diferentes momentos da vida familiar.
Um levantamento encomendado pela marca de alimentos para animais GoldeN, divulgado pelo Meio & Mensagem, aponta que 32% dos jovens entre 18 e 24 anos adotaram seus animais após resgatá-los das ruas. Outros 25% recorreram a organizações não governamentais (ONGs) e abrigos. Os percentuais são superiores aos registrados entre gerações mais velhas.
As diferenças também aparecem nos hábitos de convivência. De acordo com um relatório da seguradora de pets Figo, enquanto os millennials dizem que levariam seus cães ao cinema, caso isso fosse possível, entre os integrantes da Geração Z é comum incluir os animais em fotos de aniversário e retratos de família.
Mercado pet movimentou R$ 75,4 bilhões em 2024
O fortalecimento do vínculo entre tutores e animais acompanha a expansão do mercado pet brasileiro. Dados da Associação Brasileira da Indústria de Produtos para Animais de Estimação (Abinpet) e do Instituto Pet Brasil (IPB) apontam que o setor movimentou R$ 75,4 bilhões em 2024, crescimento de 9,6% em relação ao ano anterior.
Apesar da expansão, foi a primeira vez desde 2019 que o segmento registrou crescimento inferior a dois dígitos.
Os gastos com os animais também demonstram a importância que os pets conquistaram no orçamento doméstico. Uma pesquisa da Opinion Box identificou que 77% dos entrevistados desembolsam mais de R$ 100 por mês com seus animais. Mesmo diante de dificuldades financeiras, muitos tutores preferem reduzir despesas pessoais a modificar os hábitos de cuidado com os pets.
O Brasil aparece entre os países com as maiores populações de animais de estimação do mundo, atrás apenas dos Estados Unidos e da China, segundo estimativas do setor. Os cães representam a maior parcela desse universo, com mais de 62 milhões de animais.
Crescimento da população pet exige mais políticas públicas
Apesar dos avanços na relação entre pessoas e animais, o aumento da população pet também traz desafios relacionados à saúde pública e à proteção animal. Entre as principais preocupações estão o abandono, a disseminação de zoonoses e a falta de cuidados básicos para animais em situação de rua.
Durante a coluna CBN Pet News, o médico veterinário Gelson Genaro chamou atenção para a necessidade de acompanhar o crescimento da população animal com políticas públicas e ações de conscientização.
Entre as medidas apontadas como necessárias estão campanhas de vacinação e programas mais amplos de castração, considerados ainda insuficientes. O especialista também alertou que a população de gatos pode ser superior às estimativas disponíveis, já que muitos animais não são contabilizados.
Para Genaro, as iniciativas de proteção precisam contemplar tanto os animais domésticos quanto aqueles que vivem nas ruas, garantindo condições adequadas de saúde e bem-estar.
Projeto propõe criar Dia Nacional dos Pais e Mães de Pets
A valorização dos animais como integrantes das famílias também chegou ao Congresso Nacional. O Projeto de Lei 3915/2025, em tramitação no Senado Federal, propõe instituir o Dia Nacional dos Pais e Mães de Pets em 4 de outubro.
A data escolhida coincide com o Dia Mundial dos Animais e faz referência a São Francisco de Assis, tradicionalmente associado à proteção animal. A proposta ainda está em tramitação.
