O Pará se despediu, nesta semana, de Zélia Amador de Deus, uma das mulheres mais relevantes para a valorização da população negra, o debate sobre racismo e relações étnico-raciais na Amazônia e a transformação do ambiente acadêmico e cultural do Estado. Aos 76 anos, a professora universitária, pesquisadora, escritora, atriz, diretora de teatro e militante dos direitos da população negra morreu na terça-feira (8), em Belém. No entanto, sua trajetória continua presente em políticas de igualdade racial, espaços de conhecimento, movimentos sociais e manifestações culturais.
Nascida em 24 de outubro de 1949, no território quilombola de Mangueiras, em Salvaterra, no Marajó, Zélia chegou a Belém aos 15 anos. Filha de uma empregada doméstica adolescente, construiu uma trajetória marcada pelo acesso à educação, pela atuação política e pela defesa de direitos. Na Universidade Federal do Pará (UFPA), onde desenvolveu parte importante da vida acadêmica e profissional, foi professora, chegou à vice-reitoria entre 1993 e 1997 e recebeu, em 2019, o título de professora emérita.
Além da sala de aula
A atuação de Zélia ultrapassou a sala de aula. Ela foi uma das fundadoras do Centro de Estudos e Defesa do Negro do Pará (Cedenpa), participou da defesa dos direitos das comunidades quilombolas, contribuiu para o debate sobre ações afirmativas e esteve entre as pessoas que ajudaram a construir caminhos para a presença da população negra na universidade. Também integrou a criação do Núcleo de Estudos Afro-Brasileiros (NEAB) e do Grupo de Estudos Afro-Amazônico (GEAM/UFPA).
Na avaliação de Cristina Maria Areda Oshai, professora e diretora na Superintendência de Políticas Afirmativas e Diversidade (Diverse/UFPA), o principal legado de Zélia está na esperança e na demonstração concreta de que pessoas negras podem ocupar espaços de conhecimento e poder.
“Muito mais do que estruturas ou a própria norma, ela nos fez acreditar, ela nos ensinou pela própria trajetória dela que é possível. É possível ter pessoas negras na universidade, é possível ter pessoas negras ocupando os espaços de poder, porque ela não só falou, ela fez isso!”, ressaltou.
Cristina destacou que a história da professora também alcançou pessoas e comunidades para além da população negra. Segundo ela, Zélia construiu relações de respeito com todos. “Ela tem um carinho, um respeito junto aos povos indígenas, quilombolas e ribeirinhos, que extrapolam a população negra”, afirmou.
Trajetória que abriu caminhos
A atuação de Zélia na luta antirracista esteve ligada a conquistas que hoje fazem parte do debate sobre direitos e políticas públicas. Cristina lembra que a professora representou o movimento negro do Pará em 1987, durante uma mobilização nacional voltada à elaboração de propostas para a Assembleia Nacional Constituinte.
“Ela contribuiu para a escrita do artigo 68 do Ato das Disposições Constitucionais Transitórias, porque foi a Zélia que representou o Pará, representou o movimento negro em uma reunião para elaborar propostas para a Assembleia Nacional Constituinte que formulou a nossa Constituição”, relatou.
O dispositivo constitucional reconheceu o direito à propriedade definitiva das terras ocupadas por comunidades quilombolas. Para Cristina, a atuação de Zélia e do Cedenpa foi decisiva para que a pauta do reconhecimento dessas comunidades ganhasse força no Pará. “O movimento que houve para o reconhecimento de comunidades quilombolas no Estado do Pará teve protagonismo da Zélia e do Cedenpa.”
A professora também esteve envolvida na defesa das ações afirmativas na UFPA antes da aprovação da Lei de Cotas, em 2012. Cristina recorda que a universidade aprovou uma política de ação afirmativa em 2005, após mobilizações do movimento negro.
“Temos registros do protagonismo do Cedenpa, de Zélia Amador e de Nilma Pentes, caminhando na passeata que foi feita lá da Praça de São Brás com estudantes do ensino médio. Nós chegamos aqui na UFPA, e a professora Zélia estava reunida com o nosso conselho superior, exatamente argumentando sobre a importância das cotas”, relembrou.
Para Cristina Maria, a imagem que melhor representa essa trajetória é a da teia de Anansi, personagem associado à sabedoria e à transmissão de conhecimentos em tradições africanas. “A Zélia é uma herdeira de Anansi que lançou as teias dela para vários lugares, e essas teias acabaram unindo todos nós e fortalecendo todos nós na caminhada. Esse é um legado que não vai ser apagado porque nós temos essa convicção”, garantiu.
Os obstáculos que ainda permanecem
Embora reconheça os avanços conquistados ao longo das últimas décadas, Cristina Maria afirma que o racismo estrutural e institucional será uma batalha que todas as mulheres negras devem continuar lutando para erradicar do meio acadêmico. “O principal obstáculo, e que desses obstáculos nós temos desdobramentos, é o racismo estrutural e institucional, que foi a motivação do ativismo dela e que nós continuamos enfrentando”, disse.
Para a professora, o acesso à universidade é fundamental, mas não garante, sozinho, a permanência e a inclusão. Ela explica que desigualdades sociais anteriores ao ingresso no ensino superior continuam interferindo na trajetória acadêmica de mulheres negras. “Não basta estar na universidade. Nós temos o acesso, mas as dimensões do racismo estrutural da nossa vida acabam interferindo na nossa trajetória”, apontou.
Cristina Maria cita como exemplo a própria experiência. Por ter ingressado na universidade mais tarde, não teve as mesmas oportunidades de iniciar uma carreira acadêmica desde a graduação, com bolsas de iniciação científica e pesquisa.
“Eu entrei na universidade já com uma certa idade. Então, eu não pude ser uma estudante universitária que pudesse trilhar uma carreira, ser bolsista e fazer pesquisa. Isso já é um entrave para quem vai seguir a carreira acadêmica”, citou.
As dificuldades, segundo Cristina, também atingem estudantes negras que precisam conciliar a formação com trabalho, maternidade e falta de apoio. “Se a estudante negra tem filhos, ela não tem creche para deixar os filhos. Ela tem um trabalho que é precarizado. Então, você percebe o quanto as relações da sociedade externa interferem dentro da instituição”, detalhou Cristina Maria.
Por isso, ela reforça que as políticas de cotas precisam estar acompanhadas de medidas que garantam a permanência dos estudantes. “Nós entendemos que o acesso, que se dá pelas cotas, é extremamente importante. Mas, em si, o acesso não garante a permanência e não garante a inclusão. Nós estamos dentro de uma instituição, mas não necessariamente estamos de fato incluídas.”
Igualdade racial
Cristina avalia que a geração de Zélia contribuiu para avanços importantes, como a criminalização do racismo, a Lei nº 10.639/2003, que estabelece o ensino da história e cultura afro-brasileira e africana, e a criação de políticas específicas para a população negra em áreas como saúde, educação, assistência e ingresso no serviço público. “Não podemos negar os avanços. Quando a gente pensa na geração de Zélia, não podemos negar a própria criminalização do racismo. Antes não havia essa criminalização, e ocorreu em 1988”, citou.
Ela também falou sobre a ampliação das políticas de ação afirmativa e a criação de medidas de assistência estudantil, mas ressalta que ainda existe uma distância entre o que está previsto em lei e a aplicação efetiva dessas políticas. “A questão é que existe, muitas vezes, um abismo entre o plano legal, normativo, e a operacionalização da política. Existe uma fragmentação também muito grande”, explicou.
Apesar dos desafios, ela mantém uma perspectiva de continuidade. “Eu sou uma pessoa muito otimista, e a gente precisa ser. Sem otimismo, a gente nem luta, porque você não vislumbra possibilidade de transformação”, destacou Cristina Maria.
Zélia e o fortalecimento do movimento negro
Para César Atotô, militante e membro do Centro de Estudos e Defesa do Negro do Pará (Cedenpa), Zélia foi uma das principais lideranças do movimento negro no Estado e teve papel importante na projeção nacional e internacional da entidade.
“A Zélia foi de extrema importância. Eu considero um dos pilares do movimento negro. Ela acabou se tornando uma grande liderança para o mundo. Acabou, na verdade, propagando o Cedenpa para o mundo, porque ela representava e era uma das fundadoras também”, afirmou.
César destaca que a atuação da professora contribuiu para conquistas que beneficiaram a população negra, entre elas a implantação das políticas de cotas. “Através dela, o Cedenpa conseguiu alcançar alguns dos objetivos, que inclusive são políticas que vêm favorecer a população negra. E as cotas são uma delas. Ela teve um grande empenho enquanto Cedenpa para que se conseguisse isso, para que a UFPA fosse a primeira universidade a implantar o sistema de cotas aqui no Pará”, apontou.
A relação de Zélia com a educação, a arte e a militância também é apontada por César como uma característica central de sua trajetória. “A Zélia sempre esteve ligada às artes e sempre esteve ligada à educação. Então, ela juntou as duas coisas. A educação serviu para ela trabalhar a questão da arte e a questão da militância contra o racismo, a luta antirracista”, detalhou.
Ele lembra ainda a passagem da professora pelo teatro, iniciada no Centro de Arte Aberta, e sua atuação na defesa da população negra. “Isso é transformador, ela poder trabalhar essa questão da educação dentro de todas essas outras questões.”

Arte, memória e continuidade
A presença de Zélia na cultura também foi lembrada pelo Cedenpa. César conta que, em 2024, o bloco afro da entidade a homenageou com uma música intitulada “Mãe de Abalu”, que aborda a luta antirracista, sua trajetória no teatro e sua participação na Coalizão Negra por Direitos.
Para o militante, a transformação provocada pela atuação de Zélia pode ser percebida na presença de pessoas negras em espaços que antes eram menos acessíveis, como a universidade. “Quando eu tive o primeiro contato com a Zélia, não se via o que se vê hoje, lógico. E, de lá para cá, houve um fortalecimento de pessoas negras na universidade, que antes não se via. E isso é superimportante”, frisou.
Ao falar sobre a importância dos avanços para o Estado, a educação e as artes, César resume a trajetória da professora em três palavras. “Acho que tem três coisas que definem a Zélia: luta, resistência e mudança. São três coisas que ela fazia e conseguiu. Principalmente mudança, porque o Cedenpa luta por mudança.”
Para ele, a continuidade desse trabalho depende das pessoas que tiveram contato com a professora e que podem levar adiante os princípios defendidos por ela. “Ela deixou um legado que eu espero que as pessoas que tiveram contato com ela, que puderam ouvir uma palestra dela, ver o trabalho dela, deem continuidade”, concluiu.
A árvore que simboliza o legado de Zélia
Um dos gestos mais recentes de Zélia na UFPA foi o plantio de um baobá, realizado em 18 de agosto deste ano, no Campus Guamá, em Belém. A árvore foi colocada na terra durante uma cerimônia acompanhada por amigos e familiares, como uma homenagem à trajetória da professora na instituição.
A UFPA relacionou a escolha do baobá à ancestralidade, à memória de povos africanos e afrodescendentes, à resistência e à continuidade. O plantio ganhou um significado especial após a morte de Zélia, como símbolo de um legado que continua a crescer.
Luto
A UFPA também decretou luto oficial por três dias após a morte da professora. O reitor da Universidade Federal do Pará, professor Gilmar Pereira da Silva, divulgou uma nota nas redes sociais lamentando a morte de Zélia Amador de Deus. O texto destaca a importância da docente para a história da instituição e para a luta dos negros no Brasil.
“Neste momento, escrever sobre Zélia é muito difícil para mim. Difícil porque a Universidade Federal do Pará se despede de uma das pessoas mais importantes de sua história, mas também porque me despeço de uma amiga, de uma companheira de tantas lutas e de alguém por quem tenho profunda admiração.
Zélia Amador de Deus foi uma das mais importantes intelectuais e ativistas negras do Brasil. Sua vida se confunde com a história da luta antirracista no nosso país e também com a história da própria UFPA. Ela ajudou a transformar esta universidade com sua presença, sua inteligência, sua arte, sua coragem e sua capacidade de abrir caminhos que, por muito tempo, se mantiveram fechados.
Como homem negro e, hoje, reitor desta universidade, sei que ocupar determinados espaços nunca é apenas uma conquista individual. Antes de nós, houve quem enfrentasse barreiras, questionasse estruturas e alargasse os caminhos para que outros pudessem chegar. E eu não tenho a menor dúvida de que Zélia é uma dessas pessoas”, diz a mensagem.
Memória perpetuada
A memória da professora continuará sendo celebrada em manifestações culturais e acadêmicas. Zélia será homenageada no lançamento do 32º Auto do Círio, programa de extensão da UFPA, que ocorrerá neste domingo (13), na Praça da República, em Belém. O tributo está previsto na programação do evento, que neste ano terá como tema “Maria, Salvai e Guardai Nosso Patrimônio Sagrado e Nossa Fé”.
A homenagem reconhecerá a contribuição de Zélia para a história e a consolidação da manifestação artístico-cultural da UFPA, além de celebrar sua atuação na valorização da cultura, da arte e da identidade amazônica.
O legado de Zélia Amador de Deus permanece em movimento. Está nas políticas de igualdade racial, na presença de estudantes negros na universidade, na defesa das comunidades quilombolas, na produção intelectual, no teatro, na cultura e nas pessoas que seguem transformando os espaços que ela ajudou a abrir.
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