As oito ocorrências de sarampo no Brasil somente neste ano acenderam o alerta das autoridades sanitárias para evitar que a doença volte a registrar transmissão sustentada no país, que é o momento quando o vírus passa a circular continuamente, sem estar associado apenas a casos importados. O Ministério da Saúde (MS) confirmou sete casos de sarampo em São Paulo e um no Rio de Janeiro.
Segundo Rita Medeiros, infectologista e gerente de Atenção à Saúde do Hospital Universitário João de Barros Barreto (HUJBB), integrante do Complexo Hospitalar da Universidade Federal do Pará (CHU-UFPA/HU Brasil), o principal fator para o reaparecimento da doença é a queda global da cobertura vacinal. "Quando a cobertura vacinal diminui, aumenta o número de pessoas suscetíveis à infecção. Como o sarampo é extremamente contagioso, basta a introdução do vírus em uma população com baixa imunização para favorecer o surgimento de surtos", ressalta.
A infectologista explica que não existe um tratamento específico contra o vírus do sarampo. "O cuidado é voltado para aliviar os sintomas, manter a hidratação, controlar a febre e tratar eventuais complicações, como infecções respiratórias. Nos casos mais graves, pode ser necessária a internação para acompanhamento e suporte clínico", destaca.
Desde 1990, o Pará registrou 8.657 casos confirmados e 67 óbitos por sarampo, segundo o Ministério da Saúde. O último caso da doença no estado foi registrado em 2021, enquanto o último óbito ocorreu em 2020.
Doença - O sarampo é uma doença infecciosa viral altamente contagiosa, transmitida de pessoa para pessoa por meio de gotículas eliminadas ao tossir, espirrar, falar ou respirar. Antes do avanço da vacinação, a doença foi uma das principais causas de mortalidade infantil em todo o mundo. Os primeiros sintomas costumam incluir febre alta, tosse, coriza, conjuntivite e mal-estar, seguidos pelo aparecimento das manchas avermelhadas características da doença.
De acordo com o pediatra do Hospital Universitário Barros Barreto, Manoel Pavão Júnior, embora muitas pessoas associem o sarampo apenas às manchas na pele, a infecção pode comprometer diversos órgãos e evoluir para formas graves. “Indivíduos não vacinados são os mais suscetíveis a adquirir a doença, enquanto crianças menores de cinco anos, gestantes e pessoas imunossuprimidas apresentam maior risco de desenvolver formas graves do sarampo”, afirma.
"O vírus provoca uma resposta inflamatória em todo o organismo e reduz temporariamente as defesas do corpo, deixando o paciente mais vulnerável a outras infecções. Por isso, além do diagnóstico precoce, a vacinação continua sendo a principal forma de prevenção e de proteção coletiva", completa o especialista.
Apesar dos avanços obtidos com a vacinação, o sarampo ainda representa um desafio para a saúde pública, especialmente em regiões onde a cobertura vacinal permanece abaixo dos 95% recomendados. A transmissão pode ocorrer entre seis dias antes e quatro dias após o aparecimento das manchas vermelhas. Nesse período, uma pessoa infectada pode transmitir o vírus para cerca de 90% das pessoas suscetíveis com quem tiver contato próximo.
COMPLICAÇÕES - Embora a maioria dos pacientes se recupere, o sarampo pode evoluir para quadros graves, especialmente entre crianças menores de cinco anos, gestantes e pessoas imunossuprimidas.
Entre as principais complicações da infecção estão a pneumonia, principal causa de morte por sarampo em crianças pequenas; a otite média, frequente principalmente entre crianças e que pode resultar em perda auditiva permanente; e a encefalite, registrada em aproximadamente um a cada mil casos e capaz de provocar convulsões e sequelas neurológicas.
A doença também pode causar danos oculares graves, com risco de cegueira, comprometer o crescimento infantil e, em casos raros, desencadear a panencefalite esclerosante subaguda (PEESA), uma enfermidade cerebral degenerativa e fatal.
VACINAÇÃO – Após campanhas de vacinação iniciadas em 1991, o Brasil reduziu significativamente o número de casos e de óbitos por sarampo. Esse avanço levou o país a receber, pela primeira vez, o certificado de eliminação da doença, em 2016. No entanto, o país perdeu essa certificação em 2019, após o retorno da circulação do vírus, e voltou a conquistá-la em 2024.
O Sistema Único de Saúde (SUS) oferece diferentes vacinas que protegem contra o sarampo. A vacina indicada varia conforme a idade, o histórico vacinal e a situação epidemiológica. A tríplice viral é a principal vacina utilizada no Calendário Nacional de Vacinação. Ela protege contra sarampo, caxumba e rubéola. A primeira dose é recomendada aos 12 meses de idade.
A segunda vacina é a tetra viral, que serve como segunda dose da tríplice viral, administrada aos 15 meses de idade. Além de reforçar a proteção contra sarampo, caxumba e rubéola, inclui também a primeira dose contra a varicela (catapora).
A dupla viral protege contra sarampo e rubéola. Essa vacina pode ser utilizada em situações específicas, como ações de bloqueio vacinal durante surtos ou campanhas definidas pelas autoridades de saúde.
A orientação dos médicos é que pessoas de 5 a 29 anos devem ter duas doses da vacina contra o sarampo, com intervalo mínimo de 30 dias entre elas, caso não tenham comprovação do esquema vacinal completo. Adultos de 30 a 59 anos que não tenham comprovação de vacinação prévia devem receber uma dose da vacina. Profissionais de saúde, independentemente da idade, devem comprovar duas doses da vacina, devido ao maior risco de exposição ao vírus.
O esquema vacinal contra o sarampo é oferecido gratuitamente pelo Sistema Único de Saúde (SUS) e deve ser mantido em dia conforme o Calendário Nacional de Vacinação. Em caso de sintomas compatíveis com a doença, a orientação é procurar atendimento de saúde e evitar contato com outras pessoas até avaliação médica.
