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RECUPERAÇÃO

Projeto Carroceiro promove reabilitação e cuidados com equinos na Grande Belém

A presença de cavalos soltos em ruas e avenidas da Região Metropolitana de Belém permanece como um desafio para o poder público e para a sociedade

Ana Laura Carvalho e Lívia Ximenes

26 de julho de 2026 às 09:08

Atualmente, o projeto abriga 16 equídeos entre cavalos, éguas, burros, mulas e jumentos, número superior à capacidade instalada

Atualmente, o projeto abriga 16 equídeos entre cavalos, éguas, burros, mulas e jumentos, número superior à capacidade instalada ( Foto: Ivan Duarte/ O Liberal )

A presença de cavalos soltos em ruas e avenidas da Região Metropolitana de Belém permanece como um desafio para o poder público e para a sociedade. Além do risco de acidentes, muitos desses animais vivem em situação de abandono ou sem os cuidados necessários. Há mais de duas décadas, o Projeto Carroceiro, da Universidade Federal Rural da Amazônia (Ufra), desenvolve ações voltadas à recuperação desses equinos, à orientação dos proprietários e à promoção da posse responsável.

Fundado em 2003, a iniciativa surgiu inicialmente para atender uma necessidade do curso de Medicina Veterinária da Ufra. Segundo o médico-veterinário Djacy Ribeiro, coordenador do projeto e professor da universidade há 24 anos, a proposta era disponibilizar cavalos para as aulas práticas. No entanto, a realidade encontrada na região fez com que a iniciativa ampliasse sua atuação.

“Como a gente tem um problema muito sério dentro de Belém de maus-tratos e excesso de animais, e a Ufra fica numa região urbana, a gente começou a atender esses animais clinicamente. Aí surgiu a necessidade de um atendimento permanente e de uma infraestrutura para trazer esses animais para serem atendidos”, explica.

De acordo com Djacy Ribeiro, coordenador do Projeto Carroceiro, o número de animais utilizados para tração na Grande Belém diminuiu nos últimos cinco ou seis anos (Ivan Duarte/ O Liberal)

Hoje, o Projeto Carroceiro é um programa de extensão formado por três frentes de atuação. A primeira é voltada ao atendimento clínico, cirúrgico e à reabilitação dos equinos. A segunda desenvolve orientações técnicas para pessoas que trabalham com cavalos, além da distribuição de cartilhas educativas. Já a terceira atua na área de legislação, prestando assessoria na elaboração e discussão de normas relacionadas aos animais de tração.

Atualmente, o projeto abriga 16 equídeos entre cavalos, éguas, burros, mulas e jumentos, número superior à capacidade instalada, que é de 12 animais. Além dos atendimentos realizados na sede da universidade, a equipe também presta assistência aos animais levados pelos próprios carroceiros e promove ações itinerantes em comunidades onde o acesso ao serviço veterinário é mais difícil.

Muitos dos problemas de saúde observados nos equinos estão relacionados à alimentação inadequada
Muitos dos problemas de saúde observados nos equinos estão relacionados à alimentação inadequada (Ivan Duarte/ O Liberal)

“Nós fazemos o atendimento dos carroceiros, quando eles trazem os seus animais, tratamos e depois eles levam de volta. Também realizamos ações itinerantes nos bairros mais distantes e em municípios quando há necessidade”, afirma Djacy. O coordenador cita como exemplo as ações realizadas há mais de uma década em Algodoal e os atendimentos feitos anteriormente na ilha de Cotijuba.

Cavalos soltos

De acordo com Djacy Ribeiro, o número de animais utilizados para tração na Grande Belém diminuiu nos últimos cinco ou seis anos. Segundo ele, isso ocorreu em razão do fortalecimento da fiscalização pelos órgãos responsáveis. “O número total de animais dentro da Grande Belém reduziu por causa da pressão em cima dos setores que regulam e fiscalizam. A Secretaria Municipal de Proteção e Defesa dos Animais (Sepda), em Belém, ampliou a fiscalização, o que reduziu o número de animais em circulação”, observa.

Apesar disso, nesta época do ano é comum que mais cavalos sejam vistos soltos pelas ruas. O professor explica que o fenômeno está relacionado ao período de férias dos próprios carroceiros. “O carroceiro está de férias também. Como ele não tem onde colocar o animal, acaba soltando esse cavalo, que passa a circular e chega às grandes vias”, aponta Ribeiro.

Alimentação inadequada compromete a saúde dos animais

Durante os atendimentos, a equipe do projeto também orienta os proprietários sobre alimentação, manejo, doenças e legislação. Segundo o veterinário, muitos dos problemas de saúde observados nos equinos estão relacionados à alimentação inadequada. “O cavalo é um herbívoro e precisa comer capim obrigatoriamente. Como trabalha, precisa ser suplementado, como um atleta. Ele perde muitos elementos e precisa repor vitaminas e minerais, o que normalmente não acontece com os animais das ruas”, explica.

Os animais recebidos pelo Projeto Carroceiro são encaminhados por órgãos competentes, como a Secretaria Municipal de Proteção e Defesa dos Animais, Centro de Controle de Zoonoses (CCZ), Polícia Militar e Corpo de Bombeiros
Os animais recebidos pelo Projeto Carroceiro são encaminhados por órgãos competentes, como a Secretaria Municipal de Proteção e Defesa dos Animais, Centro de Controle de Zoonoses (CCZ), Polícia Militar e Corpo de Bombeiros (Ivan Duarte/ O Liberal)

Além da deficiência nutricional, outro problema frequente é a alimentação encontrada no lixo. “Muitas vezes esses animais se alimentam no lixo. O grande problema é a sacola plástica. Mais de 90% dos cavalos que vêm a óbito no Projeto Carroceiro morrem por cólica causada por obstrução gastrointestinal provocada pela ingestão dessas sacolas”, revela.

Depois das cólicas, a desnutrição é apontada como uma das principais ocorrências registradas pela equipe. “Esses animais não comem um capim ideal. Aqui nós plantamos e adubamos o capim para oferecer um alimento nutritivo. Como eles trabalham muito e não recebem a reposição necessária, vão ficando cada vez mais fracos. Quando não conseguem mais puxar a carroça, acabam sendo abandonados”, reforça.

Recuperação e adoção responsável

Os animais recebidos pelo Projeto Carroceiro são encaminhados por órgãos competentes, como a Secretaria Municipal de Proteção e Defesa dos Animais, Centro de Controle de Zoonoses (CCZ), Polícia Militar e Corpo de Bombeiros, após situações de abandono ou quando são encontrados doentes.

Somente depois da recuperação completa eles podem ser disponibilizados para adoção. “A gente só procura um futuro para esses animais quando eles estão totalmente reabilitados, sem doenças infecciosas e aptos a conviver com pessoas”, explica Djacy Ribeiro.

Qualquer pessoa pode adotar um dos equinos, desde que possua um espaço adequado para mantê-lo e atenda aos requisitos avaliados pela equipe do projeto. Os interessados passam por um processo de análise para garantir que o animal terá condições adequadas de bem-estar.

Durante os atendimentos, a equipe do projeto também orienta os proprietários sobre alimentação, manejo, doenças e legislação
Durante os atendimentos, a equipe do projeto também orienta os proprietários sobre alimentação, manejo, doenças e legislação (Ivan Duarte/ O Liberal)

Atualmente, sete animais estão disponíveis para adoção: as éguas Mulan, Duquesa e Vanessa; os cavalos Ferrugem, Montese e Van Gogh; e a mula Luz.

Os interessados devem possuir uma área com pastagem, como sítios ou fazendas, e assinar um termo de compromisso estabelecendo que o animal não poderá ser comercializado, emprestado, cedido ou utilizado para trabalho. “É como se fosse uma aposentadoria. Esses animais já foram resgatados por maus-tratos e não podem voltar para o trabalho”, afirma o coordenador.

Nem todos os equinos atendidos pelo projeto podem ser adotados. Alguns permanecem sob os cuidados da universidade por causa da idade avançada, comportamento agressivo ou porque possuem tutores.

Além da recuperação física, a equipe também trabalha o comportamento dos animais. “Como muitos apanharam e foram maltratados nas ruas, chegam receosos do contato com as pessoas. Com o trabalho realizado pelos alunos, eles recuperam essa confiança e se tornam animais calmos e dóceis”, garante Ribeiro.

Mesmo após a adoção, o vínculo entre os tutores e o Projeto Carroceiro continua. Sempre que houver necessidade, os responsáveis pelos animais podem procurar a equipe para receber orientações e apoio técnico. O projeto oferece esse suporte gratuitamente e faz o encaminhamento para o especialista mais adequado a cada situação, garantindo acompanhamento aos animais mesmo após serem adotados.