A produção ornamental das cuias paraenses reúne conhecimentos técnicos, sensibilidades estéticas e significados sociais. Documentos históricos mostram que a história das cuias amazônicas sempre foi perpassada pelo encontro entre arte e utilidade, de acordo com o historiador e pedagogo Arenildo dos Santos Silva, mestre em Antropologia pela Universidade Federal do Pará (UFPA). Segundo ele, a dimensão artística integra os conhecimentos e as práticas de produção dos objetos, que são feitos a partir dos frutos secos da cuieira.
A preparação começa com a colheita do fruto no ponto de maturação, que é identificado por características como a casca firme, além da ausência de rachaduras e de partes moles. O processo é seguido do corte, limpeza e secagem.
Nas mãos do artista visual Ariel Mirandda, do município de Colares, no Nordeste do Pará, o fruto se transforma em uma tela e abre espaço para a criação e reinvenção de pontos turísticos, retratos, paisagens e outras possibilidades artísticas.
De família repleta de figuras artísticas, que o inspiraram e o incentivaram ao longo de sua trajetória, Ariel iniciou no meio da arte com pinturas em aquarela sobre telas. Tudo mudou, no entanto, quando conheceu a arte-educadora Sylvia Mendonça, fundadora da Belamazônia Ateliê, de Colares, no ano de 2023.
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No início da parceria, as principais produções eram cuias decorativas pintadas, usadas para líquidos e alimentos sólidos após o processo de tingimento natural com cumate, além dos cachepôs, que são vasos feitos de cuia.

“Ela [Sylvia] já trabalhava com cuias utilitárias tradicionais, com grafismos, vasos de cuia e cuias decorativas. Comecei a frequentar o ateliê e, em certo momento, ela me convidou para auxiliar em uma coleção com desenhos inspirados no Círio de Nazaré. Foi então que tive meu primeiro contato com a arte em cuia”, relembra Ariel.
A arte-educadora Sylvia Mendonça trabalha com cuias desde 2005. “O início da minha história foi na Fundação Curro Velho, como aluna do professor Marco Antônio, numa oficina de grafismo em cuias”, diz Sylvia. Os dois artistas uniram as técnicas, com a pintura aliada ao trabalho que já vinha sendo desenvolvido por Sylvia, e passaram a unir a matéria-prima ancestral a uma pintura mais elaborada e contemporânea.
Processo
Ariel descreve o processo artístico como um “ritual”, que começa com a escolha do tema e da cuia, cujo formato combina mais com a referência escolhida. A dupla também desenvolve coleções e propostas próprias para acervo e venda na loja. Nos trabalhos, eles buscam valorizar a cultura amazônica, mesclando, ao mesmo tempo, referências e tendências contemporâneas.
Depois da colheita do fruto, os artistas definem qual será a finalidade da peça: cuia utilitária, decorativa, acessório, vaso, entre outras possibilidades. A dupla desenvolveu braceletes do fruto, que são encontrados tanto pintados como naturais no ateliê.
“Em 2025, idealizamos também os acessórios produzidos a partir da cuia, como bolsas e
colares. Em outubro do mesmo ano, lançamos, em parceria com o estilista Neto Navarro, o
bracelete ou pulseira de cuia”, conta Ariel. Figuras como Dina Carmona, Alane Dias, Fafá de Belém, Zaynara e Andrea Pinheiro já usaram as peças, segundo o artista. A apresentadora Ana Maria Braga também já foi presenteada com braceletes, durante a participação à distância de Ariel e Sylvia no programa Mais Você, no quadro Feed da Ana. A cantora Marina Sena também recebeu o adorno durante o show em Belém.
Referências marajoaras
Em Belém, a artesã Maria Santana Filha, conhecida como Mel, trabalha com artesanato em cuia há 27 anos. Ela aprendeu a arte com o companheiro, que já era artesão desde os 13 anos de idade e a ensinou quando a conheceu, já na vida adulta, aos 18 anos. “Todo o processo do grafismo é tirado das cerâmicas marajoaras. Minha referência é o padre Giovanni Gallo. Tenho o livro dele e é uma coisa pessoal minha que gosto muito”, conta Mel.
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A produção da arte é feita tanto a partir de referências de clientes, quanto de criações da própria Mel. Ela conta que os clientes costumam comprar os objetos para decoração, mas que eles também podem ser utilizados para fins alimentícios. Para conservar as cuias, a artesã reforça que é preciso sempre lavar com a parte macia da esponja e deixar longe do sol, para evitar o ressecamento.
Mais que um ofício, para a artesã, as cuias representam uma forma de autoconhecimento e expressão. “No grafismo foi onde eu me reconheci, reconheci a minha história, o que sou e represento. Quando sento para fazer um grafismo em cuia, é um momento meu, onde estou contando a história da minha vida. Fico emocionada ao falar sobre isso”, diz Maria Santana Filha.
Panorama histórico
Autor do livro Monte Alegre: Cidade Pinta-Cuia, publicado pela Editora Paka-Tatu, o historiador e pedagogo Arenildo dos Santos, mestre em Antropologia pela Universidade Federal do Pará (UFPA), explica que a habilidade das mulheres indígenas de Monte Alegre e Santarém na produção de cuias ornamentadas foi registrada pelo naturalista Alexandre Rodrigues Ferreira, durante sua Viagem Filosófica pela Amazônia (1783–1792) no século XVIII.
“No século seguinte, em 1848, Alfred Russel Wallace também destacou a beleza das cuias produzidas em Monte Alegre, descrevendo seus desenhos de pássaros e outros animais, a vivacidade das cores e o domínio das técnicas de pintura pelas mulheres indígenas”, diz. Para ele, os registros reforçam a compreensão de que a dimensão artística já integrava os conhecimentos e práticas de produção dos objetos desde os primórdios.

De acordo com Arenildo, o naturalista Alexandre Rodrigues Ferreira registrou um exemplo de usos no século XVIII. “Havia cuias especialmente reservadas para servir água ou bebidas aos chamados "principais", termo empregado na documentação colonial para designar determinadas lideranças indígenas. Essas cuias podiam apresentar ornamentações diferenciadas, com búzios, miçangas e muiraquitãs. Oferecê-las constituía uma demonstração de consideração e respeito”, afirma.
As cuias possuem importância para a história e a identidade cultural do Pará, especialmente para as populações do Baixo Amazonas, materializando conhecimentos que atravessam gerações e revelam a contribuição das mulheres indígenas e ribeirinhas para a formação histórica e cultural da região.
“Não basta admirar a beleza de uma cuia: precisamos reconhecer os conhecimentos, as experiências e as pessoas que tornam sua produção possível. Acredito que a maior contribuição dessa tradição para a cultura paraense está justamente em demonstrar que a história da Amazônia também pode ser compreendida por meio dos objetos cotidianos, dos conhecimentos transmitidos entre gerações e da capacidade criativa de suas populações”, finaliza.
*Ayla Ferreira, estagiária de Jornalismo, sob supervisão de João Thiago Dias, coordenador do Núcleo de Atualidades