A 20 dias da primeira prova do Exame Nacional do Ensino Médio (Enem), estudantes intensificam os treinos de redação, considerada uma das etapas mais desafiadoras do exame. Marcada para 8 de novembro, a prova exigirá dos candidatos a produção de um texto dissertativo-argumentativo de até 30 linhas, além das questões objetivas. Na reta final, professores recomendam atenção à argumentação, à norma-padrão e ao uso adequado do repertório sociocultural.
O Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep) divulgou a Cartilha do Participante do Enem 2026 em 18 de setembro. O documento detalha o que o candidato precisa fazer para alcançar uma boa nota no exame, como o texto da redação é corrigido e quais erros podem levar à nota zero. Além do domínio da escrita, os candidatos precisam administrar o tempo: a duração da prova é de 5h30 para responder às questões e produzir o texto.
O professor de Língua Portuguesa e redação Joelson Beltrão, de 34 anos, reforça que a Cartilha do Participante, disponibilizada gratuitamente, é um documento fundamental para quem fará a prova. “É um documento norteador. Ele norteia aquilo que a banca corretora das redações espera dos candidatos, que fazem a maior prova do Brasil - o ENEM. Os candidatos precisam estar atentos ao que de fato as competências pedem. Nós precisamos ser estratégicos com relação a esses textos que são divulgados”, enfatiza.
A orientação de Joelson é que os estudantes pratiquem bastante a redação e estejam atentos à utilização da norma culta da língua portuguesa. Os candidatos devem analisar quais são suas principais dificuldades e os erros mais frequentes para direcionar os estudos. Se, por exemplo, durante a correção o estudante identificar problemas de acentuação, deve revisar especificamente essas regras. O mesmo vale para outras dificuldades recorrentes.
“Os estudantes precisam estar atentos também para essa utilização da norma culta da língua. Muitos deles cometem desvios de concordância, desvio de regência, desvio de paralelismo sintático, morfológico ou semântico. Eles ainda têm deficiências com o Novo Acordo Ortográfico e isso penaliza na Competência 1 e na Competência 4, que avalia os mecanismos linguísticos”, exemplifica Joelson.
O professor de produção textual Emerson Sena, de 33 anos, chama atenção para um dos cuidados destacados na Cartilha do Participante: o chamado “repertório de bolso”. No contexto da redação do Enem, a expressão se refere ao uso de conhecimentos socioculturais genéricos, decorados e preparados para serem encaixados em diferentes temas. É o caso, por exemplo, de menções à Constituição Federal, à Declaração Universal dos Direitos Humanos, a frases de filósofos ou a conceitos muito amplos, sem demonstrar uma relação concreta com o problema discutido.
“Tendo em vista que a banca, principalmente agora de 2026, com o lançamento da Cartilha do Participante tem abordado essa prática. Isso não quer dizer que determinados repertórios como escritores conhecidos, filmes e a Constituição sejam abominados da redação, e devam ser retirados da redação e caracterizados, consequentemente, como repertório de bolso, mas o aluno precisa assumir a responsabilidade por esse repertório. Ele precisa estar legitimado, pertinente e produtivo para que ganhe uma função extra no texto que é articular a argumentação”, explica.
A estudante do 3º ano do ensino médio Mariana Miralha, de 17 anos, está focada em colocar em prática as orientações dos professores. “Eu acho que o que acaba dificultando é quando você não pratica com frequência, então eu tento fazer pelo menos umas duas ou três redações por semana de temas variados. Tento não usar as mesmas teses, tento escrever de forma diferente”, revela.
A argumentação é uma das competências em que Mariana sente mais dificuldade. “Aquela questão de você conseguir basear os seus argumentos de uma forma que vá somar ali, com originalidade, porque não basta você apenas usar o repertório, tem que usar de forma argumentativa”, adianta. Mariana tem buscado ampliar o repertório acompanhando o noticiário e por meio da leitura de livros. “Eu sempre leio bastante. É sempre bom ler temas variados, sempre bom para ampliar o repertório e não cair naquela questão de ‘repertório de bolso’”, afirma.
A estudante Beatriz Dourado, de 16 anos, do 2º ano do ensino médio, fará a prova do Enem neste ano como treinamento. Mesmo assim, o nervosismo aumenta com a proximidade da prova. “Fica aquele coração acelerado, aquele frio na barriga, porque querendo ou não é um teste para o que a gente vai fazer. Tem um nervosismo, mas acho que a melhor forma de cessar esse medo é estudando e me preparando”, enfatiza.
A jovem também sente dificuldade na Competência 3, que avalia a capacidade de selecionar, relacionar, organizar e interpretar informações e argumentos em defesa de um ponto de vista. “É o que demanda mais do nosso conteúdo em si, e não só do nosso conteúdo naquela redação, mas do quanto a gente consome de redação e de tudo na nossa vida. Essa parte argumentativa é o que puxa um pouco mais. Tenho feito muitas redações”, comenta.
Um bom repertório e a prática frequente da produção textual são fundamentais para evitar que o candidato fique preso a estruturas preconcebidas de texto. Emerson Sena reforça a importância da leitura atenta dos textos motivadores, disponibilizados na prova do Enem, para entender o que a banca espera do candidato. Ele ressalta que não basta apenas citar a frase temática na redação, mas é preciso desenvolver o tema de forma sistemática ao longo da introdução, do desenvolvimento e da conclusão. Para isso, é necessário entender o núcleo do assunto, as palavras-chave e os elementos argumentativos a ele relacionados.
“Logo, é aconselhável que esse aluno assuma a autoria do seu texto, desde a introdução e o desenvolvimento até a conclusão. As construções dos períodos, orações subordinadas e coordenadas, precisam ser intercaladas de uma maneira singular para que o repertório e a argumentação sejam os alvos positivos do texto e quem sabe tirar a nota mil”, destaca.
Conheça as cinco competências avaliadas na redação do Enem:
Cada competência vale até 200 pontos, totalizando 1.000 pontos:
Domínio da língua portuguesa: escrever de acordo com a norma-padrão, evitando erros de ortografia, concordância, pontuação e construção de frases.
Compreensão do tema: desenvolver exatamente o assunto proposto e demonstrar domínio do texto dissertativo-argumentativo.
Argumentação: selecionar, organizar e interpretar informações, fatos e opiniões para defender um ponto de vista.
Coesão: utilizar adequadamente mecanismos linguísticos para ligar frases, períodos e parágrafos e dar continuidade ao raciocínio.
Proposta de intervenção: apresentar uma solução para o problema discutido, relacionada à argumentação e respeitando os direitos humanos.
