A irregularidade no fornecimento de água na Região Metropolitana de Belém tem levado consumidores a mudar hábitos e buscar formas de armazenar o recurso para garantir atividades básicas dentro de casa. Relatos de moradores também apontam problemas na qualidade da água após o restabelecimento do serviço, enquanto reclamações registradas contra a concessionária Águas do Pará incluem ainda cobranças contestadas e faturas com valores elevados.
No bairro do Marco, a enfermeira Nilce Maria de Jesus relata interrupções frequentes no abastecimento. “A falta de água é frequente aqui no bairro do Marco. Durante a semana faltam pelo menos 3 vezes, ficando pior no final da semana. Ficamos totalmente sem água nas torneiras e quando retorna tem odor forte e completamente barrenta”, relata.
Para lidar com os períodos de interrupção, moradores mantêm água armazenada em baldes e outros recipientes. Segundo Nilce, a situação também interfere em atividades cotidianas. “Afeta as tarefas diárias principalmente na hora do banho. Na verdade, essa situação é antiga. Com a mudança para a Águas do Pará pensei que poderia melhorar, ficou pior pois falta água a qualquer hora do dia”, relata.
Reclamações
Além dos problemas de abastecimento, a concessionária recebeu 593 reclamações na plataforma Reclame Aqui nos últimos seis meses. Os registros incluem relatos de consumidores que ficaram semanas sem água e questionamentos sobre valores cobrados nas faturas, incluindo uma conta de R$ 33 mil.
Um consumidor afirma estar há mais de 25 dias sem água e aguarda a visita de um técnico. Em outro caso, uma moradora de Igarapé-Açu relata enfrentar falta de água diariamente. Também há registro de interrupção do fornecimento em Belém.
Um dos casos já relatados pela reportagem de O Liberal é o do consultor de impressão Djacir Távora, de 86 anos. A conta de setembro chegou a R$ 8.100,34, enquanto a fatura do mês anterior havia sido de R$ 49,10.
Djacir, que vive há 50 anos no imóvel com a esposa, Iraci Araújo, de 83 anos, afirma que as contas normalmente ficavam entre R$ 40 e R$ 60. Segundo ele, os valores começaram a subir após a troca do hidrômetro, em abril. “Quando fez um mês [da troca do medidor], veio uma conta já de R$ 800. Passou para R$ 600. Então, eu ia lá o tempo todo reclamar. Fui quatro vezes. Toda vez que vinha mais alto, eu ia lá”, contou.
Na conta de setembro, constavam consumo medido de 451 metros cúbicos, consumo médio de 10 metros cúbicos e consumo faturado de 450 metros cúbicos. A Águas do Pará informou inicialmente que havia realizado verificações no imóvel e alertado o cliente sobre o aumento progressivo do consumo.
Em 1º de outubro, porém, a concessionária informou que havia confirmado a existência de um vazamento oculto na residência. Segundo a empresa, o filho do casal se comprometeu a contratar um profissional para realizar o reparo e uma nova fatura seria emitida.
Cobranças por poço artesiano
As cobranças relacionadas ao uso de poços também foram alvo de manifestação do governo estadual. Em 4 de setembro, a governadora Hana Ghassan anunciou o cancelamento de cobranças relacionadas à reativação de contratos, à taxa de disponibilidade e ao uso de poço artesiano. “Tá cancelada qualquer taxa da Águas do Pará por reativação, disponibilidade ou poço artesiano. Se você recebeu cobrança, não pague. Nós já acionamos a concessionária e ela vai ter que se explicar”, declarou Hana.
A Águas do Pará afirma que não cobra pelo uso ou pela existência de poços particulares, mas pela disponibilidade da rede pública em determinadas situações. Em agosto, a concessionária afirmou que esse tipo de cobrança está previsto na legislação do saneamento e no contrato de concessão quando a rede pública está disponível para atender o imóvel.
Após a manifestação da governadora, a Agência de Regulação e Controle de Serviços Públicos do Estado do Pará (Arcon) determinou a suspensão de cobranças e reativações de cadastros realizadas sem comprovação técnica. Segundo informações divulgadas sobre a medida, foram identificados casos de reativação de cadastros antigos e inativos da Cosanpa e de faturamento por estimativa em imóveis que utilizam fontes próprias de abastecimento.
A Águas do Pará esclareceu posteriormente que a determinação da Arcon não suspende todas as contas emitidas pela empresa. Segundo a concessionária, clientes ligados à rede pública e que recebem o serviço devem continuar pagando normalmente.
Concessão
Em setembro do ano passado, a Águas do Pará assumiu os serviços de abastecimento de água e esgotamento sanitário no Estado. A concessão tem prazo de 40 anos e abrange 126 municípios paraenses. Em abril de 2025, o grupo Aegea, responsável pela concessionária, venceu o leilão realizado pela Companhia de Saneamento do Pará (Cosanpa).
Em nota à reportagem, a empresa informou que, desde o início da operação, realizou melhorias no sistema de abastecimento do bairro do Marco, incluindo a reforma da estação de tratamento de água, em parceria com a Cosanpa, a substituição de válvulas e equipamentos e a implantação de monitoramento 24 horas. “A recuperação e a modernização dos sistemas, não apenas neste bairro, mas em toda a cidade de Belém, são prioridades desde o início da operação. As ações buscam enfrentar desafios históricos de infraestrutura, de redução de perdas e ampliação da regularidade e a qualidade do serviço”, informou a concessionária.
Sobre as reclamações, a empresa informou que registrou 553 manifestações nos canais oficiais de atendimento nos últimos seis meses e que cada caso é analisado individualmente. Em relação às cobranças consideradas fora do padrão, orientou os consumidores a solicitar análise pelo telefone ou WhatsApp 0800 091 0091 ou em uma loja de atendimento. Segundo a concessionária, podem ser verificadas a leitura do hidrômetro, o histórico de consumo e a composição da fatura, com possibilidade de revisão conforme cada caso.
