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Ciência revela potencial da biodiversidade amazônica para conservação e nova bioeconomia

Pesquisas do Instituto Tecnológico Vale avançam no conhecimento genético do açaí e no manejo sustentável do jaborandi, espécies que unem conservação, ciência, saúde e geração de renda

Lívia Ximenes e Ana Laura Carvalho
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A biodiversidade da Amazônia reúne espécies que, além de fazerem parte do cotidiano da população, possuem potencial para gerar conhecimento científico, inovação, renda e novas soluções. Pesquisas do Instituto Tecnológico Vale (ITV) mostram como o conhecimento sobre a floresta pode contribuir para uma nova bioeconomia brasileira, baseada na valorização da biodiversidade e na conservação dos recursos naturais.

Os estudos foram apresentados a jornalistas nesta quarta-feira (2), em Belém, durante a 5ª edição do Café com Ciência, iniciativa realizada pela Vale para aproximar pesquisadores do ITV e profissionais da imprensa. A programação também marcou as celebrações pelo Dia da Amazônia, comemorado em 5 de setembro.

Entre as pesquisas estão estudos genéticos com três espécies de açaí e trabalhos voltados à conservação e ao manejo sustentável do jaborandi, planta nativa utilizada como fonte de pilocarpina, substância empregada na produção de medicamentos.

Açaí ganha mapa genético

Presente diariamente na mesa de milhares de paraenses e amazonenses, o açaí deixou de ser um produto predominantemente regional e conquistou mercados em diferentes partes do mundo. A importância econômica da espécie levou o ITV a incluí-la em um projeto de sequenciamento genético.

A pesquisadora Gisele Nunes, doutora em Microbiologia Agrícola, explica que o estudo integra o projeto Genômica da Biodiversidade Brasileira, desenvolvido em parceria entre o ITV e o Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio), que prevê a geração de 80 genomas de diferentes espécies.

image Gisele Nunes, pesquisadora do Instituto Tecnológico Vale (Foto: Divulgação)

Foram selecionadas três espécies: o açaí-de-touceira (Euterpe oleracea), principal espécie cultivada no Pará; o açaí-solteiro (Euterpe precatoria), encontrado principalmente na região amazônica; e a juçara (Euterpe edulis), da Mata Atlântica, conhecida também como palmito-juçara.

Segundo Gisele, a pesquisa resultou na produção de genomas completos em nível cromossômico. Na prática, o genoma funciona como um mapa genético que permite investigar características como reprodução, produtividade e adaptação a diferentes ambientes. “Imagina que você precisa de um mapa para se guiar, por exemplo, dentro de uma grande cidade. O genoma nada mais é do que isso. Ele não vai te dar as respostas, mas vai auxiliar esses diferentes estudos”, explica.

A partir desse mapa, os pesquisadores podem investigar, por exemplo, por que determinadas espécies se desenvolvem melhor em certos ambientes. O Euterpe oleracea ocorre principalmente em áreas de várzea, enquanto outras espécies se estabelecem em terra firme.

Da biodiversidade a novos produtos

O sequenciamento também abre caminho para estudos relacionados à produção de compostos de interesse biotecnológico, como as antocianinas, além de outras substâncias com potencial para novos produtos.

Para Gisele, o genoma poderá apoiar pesquisas de diferentes instituições tanto na conservação quanto no desenvolvimento de produtos. “O genoma é o caminho para outras pesquisas, outras instituições, outros focos entender não somente a conservação e sua adaptação, mas também a geração de produtos biotecnológicos”, afirma.

A escolha das três espécies considera suas diferentes características e importância. Enquanto o açaí-de-touceira possui grande relevância econômica para a cadeia produtiva amazônica, o açaí-solteiro amplia o conhecimento sobre a diversidade do gênero e a juçara tem importância para a conservação da Mata Atlântica.

Tecnologia desenvolvida no Pará acelera pesquisas

Um dos diferenciais do estudo é o PipeAsm, ferramenta de bioinformática desenvolvida pela equipe do ITV. A tecnologia automatiza etapas da montagem dos genomas e reduz o tempo necessário para transformar os dados genéticos em um genoma de referência.

Segundo Gisele, um processo que poderia levar cerca de três semanas passou a ser realizado em aproximadamente dois dias. “Ele foi totalmente automatizado. Você precisa apenas colocar lá seus dados iniciais e, ao final, verificar a qualidade da sua montagem”, explica.

Para a pesquisadora, outro destaque é a possibilidade de todo o processo ser desenvolvido no Brasil e no Pará. “O ITV é um grande centro hoje de genômica, um dos maiores centros da América Latina, em que a gente tem equipamento de ponta e pesquisadores. Conseguir gerar todo o processo da geração do genoma dentro de casa não tem explicação”, afirma.

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Jaborandi une conservação, saúde e renda

Enquanto o açaí é estudado principalmente sob a perspectiva genética, o jaborandi representa outro caminho para a bioeconomia: o aproveitamento de uma espécie nativa aliado à conservação e ao manejo sustentável.

O jaborandi (Pilocarpus microphyllus) ocorre naturalmente no Pará, Maranhão e Piauí. Suas folhas concentram a pilocarpina, princípio ativo utilizado na produção de medicamentos para glaucoma e xerostomia, conhecida como síndrome da boca seca. Mais recentemente, a substância também passou a ser utilizada no tratamento da presbiopia, a chamada vista cansada.

A espécie sofreu pressão histórica tanto pela retirada inadequada quanto pela perda de habitat provocada pelo desmatamento. Como se desenvolve no sub-bosque, a parte mais baixa da floresta, a retirada da vegetação compromete sua ocorrência. “Perdemos jaborandi por duas vias: uma, o desflorestamento, e a outra, por exploração não adequada”, explica Cecílio Caldeira, doutor em Biologia Integrativa de Plantas e pesquisador do ITV.

Em Carajás, o instituto trabalha com uma cooperativa de extrativistas para aprimorar o manejo. Entre as mudanças está o uso de tesouras de poda para retirar determinados ramos, enquanto plantas menores são preservadas até atingirem tamanho adequado.

Rodízio permite recuperação das plantas

Outra estratégia é o mapeamento das populações de jaborandi na Floresta Nacional de Carajás. Com isso, é possível estabelecer uma rotação das áreas de coleta, permitindo que as plantas tenham tempo para se recuperar e participar do ciclo reprodutivo.

O ITV também avaliou se décadas de exploração provocaram perdas significativas na diversidade genética do jaborandi em Carajás. De acordo com Cecílio, os resultados não apontaram perda significativa, indicando que as populações avaliadas permanecem geneticamente bem conservadas.

Recuperação ambiental pode ampliar áreas de coleta

A pesquisa também avançou para a produção de mudas de jaborandi destinadas a áreas em recuperação ambiental. Os pesquisadores desenvolvem técnicas de propagação e cultivo para produzir mudas saudáveis que podem ser utilizadas na recuperação de áreas degradadas. No futuro, essas áreas poderão se tornar novos locais de coleta, ampliando a disponibilidade da espécie e reduzindo a pressão sobre as populações naturais. “Estamos ampliando a área disponível para a coleta de folhas. A gente agora cuida dessas plantas por um tempo, até que elas consigam atingir um tamanho ideal e possam ser usadas para coletas também”, explica Cecílio.

Ciência e comunidade

Para o pesquisador, o caso do jaborandi demonstra que a bioeconomia exige mais do que uma espécie de valor comercial. É necessário conhecer a biodiversidade, estabelecer regras de manejo, organizar os extrativistas e acompanhar toda a cadeia produtiva. “Para isso a gente precisa conhecer bem a espécie, ter um programa de manejo adequado, ter as pessoas organizadas. Na verdade, a gente precisa de uma cadeia muito bem estabelecida”, afirma.

No caso do jaborandi, essa cadeia envolve extrativistas, cooperativa, pesquisadores e a indústria que utiliza a pilocarpina na produção de medicamentos. Os estudos com açaí e jaborandi mostram, assim, como a ciência pode transformar a biodiversidade amazônica em conhecimento, inovação e oportunidades econômicas, mantendo a conservação da floresta como parte central desse processo.

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