Para quem trabalha diariamente sob o sol, o calor faz parte da rotina, mas as temperaturas mais elevadas podem tornar a jornada ainda mais desgastante. O El Niño pode contribuir para esse cenário. O fenômeno climático é caracterizado pelo aquecimento anormal das águas do Pacífico Equatorial e provoca alterações nos padrões de chuva e temperatura em diferentes partes do mundo.
Na Amazônia, seus efeitos podem favorecer períodos mais quentes e secos, aumentando o desconforto e os desafios enfrentados por trabalhadores que passam muitas horas expostos ao sol. Em Belém, quem atua nas ruas e em feiras precisa adaptar os hábitos para lidar com a exposição prolongada, principalmente em atividades que exigem esforço físico.
No Ver-o-Peso, Nely Silva, de 60 anos, conta que utiliza roupas para se proteger do sol enquanto chama clientes para almoçar no box onde trabalha. “Eu coloco aqui a minha camisa de mangas compridas com proteção UV, meu boné, minha calça e meu tênis. Aí dá para aguentar”, relata.
A hidratação também é uma preocupação constante. Ela conta que a sede aparece várias vezes ao longo do dia. “A sede vem toda hora. Eu bebo água, ou um pedaço de melancia, abacaxi, e assim vou levando”, conta.
A trabalhadora também percebe mudanças nas temperaturas. Para ela, o calor está mais intenso atualmente. “O sol a cada dia está ficando mais quente”, afirma. Na avaliação de Nely, as mudanças na paisagem e a redução das áreas de floresta contribuem para a sensação de calor.
“O pessoal está acabando com as florestas, estão botando só prédio, prédio. É isso aí que está acontecendo com a gente. E quem sente é a gente que trabalha no sol o dia a dia”, afirma.
A boieira Leda Salles, de 42 anos, trabalha há cerca de nove meses no Ver-o-Peso e também aponta a hidratação como principal aliada para enfrentar as altas temperaturas. “Tomando bastante água e muito suco natural. Não acaba muito com o calor, mas ajuda”, afirma. Ela também costuma consumir água de coco durante a jornada.

Outro cuidado adotado por Leda é o uso de protetor solar. “Protege a pele, né? É importante para não estar tendo problemas de queimadura, manchas no rosto”, explica. Assim como Nely, Leda afirma perceber que o calor aumentou nos últimos anos. “Tá mais quente, mais quente, com certeza, mais quente”, diz.
Calor e trabalho
Os efeitos das altas temperaturas também são acompanhados pelo Tribunal Regional do Trabalho da 8ª Região (TRT-8), que atende Pará e Amapá. Segundo o órgão, trabalhadores da construção civil, vendedores ambulantes, motociclistas, trabalhadores rurais e pescadores estão entre os profissionais mais expostos às condições climáticas.
O desembargador Paulo Isan Coimbra da Silva Júnior, gestor regional do Programa Trabalho Seguro no TRT-8, destaca que fatores como temperatura, esforço físico, tempo de exposição, pausas e acesso à água precisam ser considerados na prevenção.
“Todo trabalhador tem direito a um ambiente seguro e saudável. Se o calor se tornou um risco ambiental, e de fato se tornou, a empresa deve fazer a gestão adequada desse risco”, afirma.
Para Ivo Borges Freitas, presidente da Força Sindical no Pará e vice-presidente do Sindicato dos Trabalhadores nas Indústrias Metalúrgicas do Estado do Pará (Simetal-PA), ainda existem desafios para garantir condições adequadas aos trabalhadores.
“Há uma distância significativa entre as necessidades da classe trabalhadora e as condições encontradas no dia a dia. As jornadas permanecem exaustivas, sem acesso garantido à hidratação e sem intervalos para recuperação térmica”, afirma.
Entre as medidas apontadas estão o acesso à água potável, pausas durante períodos de calor intenso e roupas adequadas. Para quem trabalha nas ruas, como Nely e Leda, a hidratação e a proteção contra o sol já fazem parte da rotina para enfrentar as altas temperaturas.
