O sobrenatural pede carona; conheça histórias assombrosas de Belém

Rodrigo Cabral

Vamos falar de fantasmas e assombrações. Se você nasceu em Belém, cresceu habituado a ouvir as histórias de lendas urbanas, visagens e assombrações ainda transitam pelo imaginário da população da capital paraense. Se está passagem pela cidade, já deve ter percebido a relação fantástica que os cidadãos têm com histórias do outro mundo. Como for, sejam bem-vindos. Aceitam dar uma volta e contemplar os mitos locais?  

“Boa noite, senhor! Quero que me leve pelos principais pontos turísticos da cidade”. Esse, com certeza, é um pedido que os taxistas de Belém já receberam inúmeras vezes. Mas, se isso aconteceu com você na sexta-feira da semana passada, dia 19 de abril, é bom começar a rezar (ou acessar qualquer outro mecanismo de proteção em que acredite). Se for cardíaco, não olhe para a foto ao lado: jovem morreu há quase 90 anos. Esse é o início de uma das versões mais conhecidas da lenda da Moça do Táxi, que, por décadas, volta e meia, aparece como tema das conversas dos tementes paraenses.

O último dia 19 foi o aniversário de nascimento de Josephina Conte, uma jovem que faleceu aos 16 anos e que, segundo a crença popular, adorava passear de carro. Todos os anos, quando completava idade nova, ganhava de seu pai uma volta pela cidade como presente. Daí viria uma das justificativas para se acreditar que, anualmente, o seu espírito retorna para repetir esse percurso. A história da ‘Moça do Táxi’ foi materializada, pela primeira vez, em 1985, quando ganhou as páginas do livro “Visagens e Assombrações de Belém”, escrito pelo sociólogo e jornalista Walcyr Monteiro. Ele é uma verdadeira lenda viva dos estudos sobre o folclore de Belém.  

“Quando eu era pequeno, ouvia falar da história de uma moça que pegava um carro de aluguel ou carro de praça, como era chamado, na época. Não havia táxi em Belém, como conhecemos hoje. Os carros de aluguel não possuíam placa de identificação no teto. Na maioria das vezes, os motoristas ficavam na praça esperando o telefonema de chamado. Por isso, a lenda, antes, era conhecida como ‘A Moça do Carro de Aluguel’. Quando publiquei a segunda edição livro, já estavam instalando as placas nos táxis e eu decidi mudar o nome para ‘A Moça do Táxi’, na intenção de gerar maior identificação”, lembra o escritor.

Walcyr Monteiro (Naiara Jinknss)

 

Ao recontar a lenda, Walcyr destaca que a história possui algumas versões que alteram o trajeto e o desfecho. Tudo começava quando a moça pegava um táxi. Em uma das variantes da narrativa, ela pediu para fazer um tour pela cidade. Outra vertente afirma que a jovem seguiu o trajeto de casa para o cemitério ou do cemitério para casa. “Depois disso, falou para o motorista que procurasse o pai dela para receber pela corrida, entregando o endereço anotado em um pedaço de papel. No dia seguinte, ele foi ao local fazer a cobrança, mas recebeu a resposta de que não morava nenhuma moça ali. Em seguida, avistou uma imagem na parede e disse: ‘como não? É aquela moça da fotografia!’.

Consternados, os pais informaram que ela estava morta. Uns dizem que o motorista encarou a situação com naturalidade e só acreditou quando foi ao cemitério conferir; outros falam que ele enlouqueceu; outros contam, ainda, que o motorista não aguentou continuar em Belém e se mudou para o Rio de Janeiro, por ter vivido um caso tão assombroso”.

Conta-se que Josephina teria sucumbido à tuberculose – um mal que, infelizmente, era muito comum no começo do século passado. Nascida em 1915 e falecida em 1931, Josephina era uma das filhas de Nicolau Conte, comerciante italiano que fez fortuna em Belém com uma fábrica de calçados, a “Boa Fama” – cuja sede ficava na Gaspar Viana. A fábrica ficava no térreo e, nos altos da fábrica, morava a família Conte. Em seus aniversários, costumava, de fato, fazer um passeio por Belém. Adorava um broche, em formato de calhambeque, que o pai lhe trouxera de uma das viagens à Itália – broche, aliás, que aparece usando na foto de seu túmulo. O pai, devastado pela tristeza da doença da filha, mandou vir da Europa especialistas para curá-la, sem êxito. Anos depois, casou-se novamente e teve mais filhos.

Fábrica de calçados 

 

Um passeio pela memória

Engatando a marcha ré, Walcyr Monteiro convida para uma volta pela Belém do passado: “Na minha infância, a cidade era muito tranquila. Só tinha uma emissora de rádio e a vida noturna era bem pacata. Havia alguns cinemas que faziam poucas exibições noturnas. Festas e bailes eram esporádicos. Àquela altura, as pessoas colocavam as cadeiras na porta das casas e ficavam comentando sobre os noticiários do dia. Circulavam duas edições dos jornais, diariamente, os matutinos e os vespertinos. À noite, era o momento dos contos sobre visagens e assombrações, invariavelmente. A gente ia dormir com medo. Depois que a televisão chegou aqui, os personagens das novelas roubaram aquele tempo que era dedicado aos personagens das lendas, mitos e visagens. Foi quando eu comecei a escrever o livro, em 1972, com medo que essas histórias desaparecessem”, afirma. Hoje, já está na quarta tiragem da sétima edição.

Na opinião de Walcyr Monteiro, mesmo diante do processo de urbanização da cidade, Belém nunca deixou de ser “visagenta”. “Continuam existindo muitas histórias fantasmagóricas pela cidade. Hospital, quartéis, órgãos públicos, casarões e prédios antigos têm relatos nesse sentido. Uma vez telefonaram para a minha casa, numa sexta-feira à noite, dizendo que era do hospital municipal. Até fiquei preocupado, pensando que fosse algo com o meu filho. Mas o homem disse que havia faltado luz no local, que eu precisava ir pra lá, pois estava cheio de assombração (risos). As pessoas pensam que eu sou uma espécie de ‘caça-fantasmas’”, brinca.

Realmente, a história de Josephina Conte não estacionou. De história oral, virou a esquina e se transformou em livro. Seguiu em frente, foi tema vídeos e ganhou sinal verde na internet. Ultrapassando fronteiras do imaginário da cidade, de personagem lendário, a jovem foi alçada à santa popular milagreira. É um dos túmulos mais visitados no dia de finados, no cemitério Santa Isabel, recebe flores, velas e até placas de agradecimento “pela graça alcançada”. 

Um colaborador fiel

Uma das histórias do livro “Visagens e assombrações de Belém” trata do mito (tão celebrado quanto temido) Matinta Pereira. O relator da história, Guapindaia Assu de Moraes, já falecido, avô de nossa editora Lorena Filgueiras, costumava enviar suas histórias de assombrações para os jornais que circulavam na capital paraense. “Ele morava na Pedreira, em uma década, em que não havia perigos – quer dizer, havia só o respeito pelo desconhecido – e era muito comum ir para os bailes, as estudantinas e voltava a pé. Minha avó contava que a família do vovô era vizinha de uma senhorinha bem idosa, dona Mariana, que era benzedeira, rezadeira e que entrava em transe. Minha bisavó, Jacinta, sempre lhe preparava um prato de comida, mandava-lhe roupas limpas, um lanche e o portador das encomendas era meu avô, Guapindaia. Dona Mariana tinha um carinho enorme por ele, mas sempre o alertava sobre voltar muito tarde dos bailes. Um dia, encafifado, ele se perguntou ‘mas como é que ela sabe?’’, Lorena contra risos. Certa noite, voltando já mais tarde que o habitual, meu avô e os amigos vinham caminhando, meio altinhos e rindo bastante, até que começaram a ouvir o tal assobio, que era característico do mito da Matinta Pereira. Dizia-se que ela queria fumo (cigarro ou tabaco). Os amigos saíram correndo e vovô ficou ali, paralisado. Sentiu o farfalhar das grandes asas sobre sua cabeça, mas não teve coragem de levantar os olhos. Seguiu o farfalhar – correndo, esbaforido – ao que ele desembocou na casa da vizinha, dona Mariana. E concluiu que ela era o ser penado. 

Em detalhe: a foto de Guapindaia Assu de Moraes, nas mãos da neta, Lorena. Na foto, ele tinha a idade aproximada em de Moraes, nas mãos da neta, Lorena. Na foto, ele tinha a idade aproximada em que escreveu sobre a Matinta Pereira ()

 

Edifício mais famoso de Belém coleciona histórias famosas

Ponto famoso por oferecer visão privilegiada para a procissão do Círio de Nazaré, o edifício Manoel Pinto da Silva coleciona algumas histórias sobrenaturais. Construído na década de 1950, na época reconhecido como o maior arranha-céu da Amazônia, até hoje tem contos sobre assombrações subindo e descendo de seus elevadores. Miguel Gonzaga tem 65 anos e é zelador do edifício há 43 anos. Ele fala que já ouviu relatos de moradores. “Fazemos a manutenção da sala de máquinas, que fica no 26º andar. Não tenho medo, mas já aconteceu, por vezes, de eu me arrepiar do nada. Um antigo morador do 25º, antes de ir embora, contou que já viu uma moça loira passar por ele no corredor e desaparecer em seguida. Eu não duvido”, diz. 

Há 13 anos trabalhando como porteiro do Manoel Pinto, Luiz Fernando Menezes, 34, também já ouviu histórias entrarem e saírem pelo portão principal. “Uma ex-moradora relata que sempre via crianças no corredor. A gente tinha que acompanhá-la até lá em cima, porque ela era traumatizada mesmo. Não subia só de jeito nenhum. Acredito que só vê ou escuta as visagens quem tem esse dom, sabe? Eu subo e desço dia e noite, faço rondas sozinho e não vejo nada”. 

Já Edson Silva, 41 anos, que trabalha em um carro de sanduíches em frente ao edifício Manoel Pinto, revela que não só viu, como atendeu um fantasma daquele prédio. “Era dia primeiro de novembro de 2011, véspera do Dia de Finados, uma senhorinha veio aqui, pediu um ‘X-Frango’ e perguntou se a gente aceitava cartão. Quando eu respondi que não, ela disse que iria voltar pro Manoel Pinto para pegar o dinheiro. Eu falei que a gente poderia fazer a entrega e receber o valor no apartamento. Ela concordou e falou para deixar no apartamento 1403. Perguntei se era pra levar troco, ela não respondeu mais nada. O rapaz que trabalhava comigo foi entregar, ficou uma meia hora batendo na porta até que um vizinho do lado saiu e informou que não morava mais ninguém lá. Que antes era uma senhora, que já havia falecido”, lembra.

Edson Silva (Naiara Jinknss)

 

No dia seguinte, Edson voltou ao edifício para buscar mais informações. “O síndico me disse que, no apartamento 1403, morava a dona Nazaré, porém, que ela não estava mais viva há 2 anos. Um tempo depois, uma das filhas daquela senhora veio fazer algo no apartamento, eu encontrei com ela e contei a história toda. Para o meu espanto, a filha confirmou que as características físicas batiam com as da sua mãe. E o mais impressionante: que a dona Nazaré, quando viva, só comia sanduíche de frango”, finaliza, deixando muito mistério no ar. 

Se cremos em visagens, não sabemos, mas...

O Liberal
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