Alguns traços são suficientes para resumir o principal assunto do dia, provocar reflexão e arrancar um sorriso do leitor. Há quase 38 anos, é assim que chargista J. Bosco, 65, transforma os acontecimentos da política, do esporte e do cotidiano em charges publicadas nas páginas de O Liberal. Testemunha das mudanças tecnológicas e editoriais do jornal, o chargista construiu uma trajetória marcada pelo humor, pela crítica e pela capacidade de traduzir fatos complexos em desenhos que atravessam gerações e ajudam a contar a história dos 80 anos do jornal.
Para Bosco, a charge continua firme como um grande editorial, representando a linha jornalística do jornal e desempenhando um papel fundamental, sobretudo pela autonomia criativa que ele possui. “A charge vive nos jornais como a fotografia. Gosto a cada dia de fazer charges, caricaturas e ilustrações nesses meus 38 anos de O LIBERAL. O jornalismo mudou por causa das redes sociais e talvez da falta de um espaço mais analítico das coisas”, diz o chargista, que tem 44 anos de profissão.
Bosco ingressou em O Liberal em 8 de outubro de 1988, a convite do então diretor de Redação, Cláudio de Sá Leal. Em um período em que a produção do jornal ainda era totalmente analógica, com diagramação feita à mão, lápis, régua e borracha, assumiu a função de diagramador e ilustrador de todas as editorias. “Entrei para diagramar e ilustrar todo o jornal, dando dois horários na redação. O tempo foi passando e vem a era da informática. E eu já estava só fazendo charge, caricaturas , ilustrando tudo no jornal. Para mim foi uma época de mudança estranha”, lembra.
“Minhas charges foram ganhando a cara do jornal, por entender os fatos, e saber entender o leitor do de O Liberal, foi aí que cada vez mais o jornal me deu liberdade pra trabalhar. Uma autonomia que não via em outros chargistas”, acrescenta.
O processo criativo das charges está diretamente ligado ao acompanhamento diário dos acontecimentos. O chargista explica que busca inspiração nos fatos que marcam o noticiário, especialmente situações inusitadas, contradições e episódios envolvendo os assuntos locais e até mesmo internacionais.
“Todos os temas são desafiadores. Na charge, nada se inventa, tudo é factual e de vida curta. Mas o desenho depois serve para registro histórico daquele momento e época. Futebol e política sempre foram temas importantes e indispensáveis na imprensa. E são nesses fatos que o chargista tem um prato cheio para desenhar”, comenta.
Em tempos em que opiniões são alvo de críticas e até de cancelamentos nas redes sociais, Bosco defende que a liberdade de expressão e de opinião continua sendo essencial. E, nos 80 anos do jornal O Liberal, ele reforça a máxima da liberdade de opinião do veículo de comunicação
“Cada chargista ou profissional jornalístico tem que entender e respeitar seus limites. Ninguém pode passar uma trincheira sem saber o que nos espera do outro lado. O chargista trabalha pisando em ovos, principalmente nos dias de hoje, com as redes sociais em que se vive esperando a hora de dar o bote da cobra do cancelamento. Sei driblar e muitas vezes provocar”, reforça.