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PLEITO

Extrema direita alcança 44% e conquista maior bancada em eleição na Alemanha

Alternativa para a Alemanha (AfD) fica perto da maioria na Saxônia-Anhalt, mas depende de outros partidos para formar governo

O Liberal

7 de setembro de 2026 às 12:53

Ulrich Siegmund, candidato do partido de extrema direita AfD

Ulrich Siegmund, candidato do partido de extrema direita AfD ( Foto: Redes sociais )

A extrema direita alemã alcançou neste domingo (6) seu melhor resultado em uma eleição estadual desde o fim da Segunda Guerra Mundial. A Alternativa para a Alemanha (AfD) chegou a 44% dos votos, segundo projeções, e conquistou a maior bancada do Parlamento da Saxônia-Anhalt, no leste do país.

A Alemanha é uma República Federativa, assim como o Brasil, formada por 16 estados. Apesar da expressiva votação, o resultado não garante à AfD maioria suficiente para eleger Ulrich Siegmund como ministro-presidente, cargo equivalente ao de governador. Para assumir o comando do estado, o partido precisará negociar com outras legendas.

Segundo os levantamentos, a União Democrata-Cristã (CDU), partido do atual governador, Sven Schulze, conquistou 17,5% dos votos, aproximadamente metade do resultado obtido no último pleito estadual, em 2021. A Esquerda teve 8,6%, os Verdes, 8,9%, e o Partido Social-Democrata (SPD), 9,2%. Todos conseguiram representação no Parlamento, segundo as projeções, segundo informações da Folha de São Paulo.

AfD fica perto da maioria

A Aliança Sahra Wagenknecht (BSW), que chegou a sinalizar a possibilidade de formar um governo com a AfD, surpreendeu e pode ter ultrapassado a cláusula de barreira, com 5,1% dos votos.

Nesse cenário, a AfD teria 39 cadeiras no Parlamento, ficando próxima das 42 necessárias para alcançar a maioria. O partido, porém, ainda dependeria de uma negociação com outras siglas, que pode durar semanas, para conseguir governar.

“Estendemos a mão a todas as forças democráticas que desejam buscar políticas melhores. O que precisamos na política é confiança”, declarou Siegmund. O candidato afirmou, no entanto, que uma eventual negociação não significaria abrir mão das principais bandeiras da AfD, como imigração, segurança interna e uma reaproximação com a Rússia.

Weidel fala em "mandato claro"

A líder da AfD, Alice Weidel, não esperou a consolidação dos resultados para afirmar que o partido recebeu um “mandato claro”. Segundo ela, a votação não se limita à Saxônia-Anhalt e também alcança outros estados e o Bundestag, o Parlamento alemão, em referência às eleições federais de 2029.

Weidel também afirmou que a legenda está disposta a dialogar com outros partidos, que até agora rejeitam qualquer associação com a extrema direita.

“Não trabalhamos com partidos extremistas”, respondeu quase imediatamente Franziska Hoppermann, secretária-geral da CDU, partido do primeiro-ministro Friedrich Merz, que sofreu uma das principais derrotas da eleição.

CDU pode formar governo minoritário

Ainda que parte dos conservadores defenda uma possível coalizão com a AfD, a tendência é que a CDU tente formar um governo minoritário caso tenha condições. Nesse cenário, os democratas-cristãos precisariam contar com o apoio pontual da Esquerda. O modelo, embora proibido por uma resolução da CDU, já existe em outros estados alemães.

“Isso é democracia”, declarou Schulze, da CDU, ao parabenizar os rivais, em contraste com outros integrantes do partido que lamentaram o resultado.

A derrota também representa um revés para Friedrich Merz. Para observadores, o avanço da AfD, uma legenda de caráter antissistema, reflete a fragilidade do governo federal. “É um sinal para Berlim”, afirmou Lars Klingbeil, líder do SPD e vice-premiê. Os sociais-democratas integram o governo de Merz.

AfD cresce com discurso anti-imigração

O pleito teve forte participação do eleitorado, com 78% de comparecimento. A mobilização, segundo observadores, reflete também o esforço da AfD para conquistar eleitores indecisos e desiludidos com a CDU, que até 2021 era a principal força política do estado.

Criada por economistas em 2013, na esteira da crise do euro, a AfD ganhou espaço político a partir de temas controversos. O partido cresceu principalmente com o discurso contrário à imigração, impulsionado pela política de portas abertas adotada pela então chanceler Angela Merkel em 2015.

A legenda também se posiciona contra pautas associadas à esquerda, como políticas ambientais, transição energética e direitos de minorias. Siegmund é um dos principais representantes dessa estratégia. Sua presença na AfD cresceu durante a pandemia, quando ganhou visibilidade com críticas às restrições impostas pelo governo.

Partido mantém propostas radicais

A AfD reproduz características do populismo europeu, mas se diferencia de outras legendas de extrema direita do continente pela ausência, até agora, de uma tentativa de amenizar suas posições políticas e seu discurso.

O partido defende forte intervenção nas áreas de educação e cultura, que são de responsabilidade dos estados, além de propostas de alcance federal, como a chamada “remigração”, deportações em massa, proibição da atuação de médicos estrangeiros, retorno do marco alemão e saída da União Europeia.

O resultado na Saxônia-Anhalt aumenta a pressão sobre os partidos tradicionais e coloca a AfD diante de seu principal desafio: transformar a expressiva votação em poder político, rompendo o isolamento mantido pelas demais legendas.