O despejo de uma mulher de 87 anos que vivia há mais de sete décadas no mesmo apartamento provocou uma onda de protestos em Madri, na Espanha. O caso de Maricarmen Abascal mobilizou milhares de pessoas no fim de semana e levou manifestantes a montar um acampamento na histórica Puerta del Sol, onde os atos continuaram nesta segunda-feira (28).
Maricarmen foi retirada do imóvel no bairro do Retiro na quarta-feira (23), em uma operação que terminou com a idosa sendo levada de maca para uma ambulância. As imagens do despejo se espalharam pelo país e transformaram o caso em símbolo dos protestos contra o aumento dos aluguéis e a dificuldade de acesso à moradia.
Na segunda-feira (28), os advogados da aposentada informaram que chegaram a um acordo com a empresa proprietária do apartamento para que ela possa retornar ao imóvel. A negociação contou com a mediação do órgão municipal de habitação de Madri, e o acordo ainda precisa ser aceito por Maricarmen.
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Por que o despejo provocou protestos?
O caso aconteceu em meio a uma crise imobiliária que tem elevado o preço dos aluguéis em grandes cidades espanholas. No sábado (26), dezenas de milhares de pessoas participaram de uma manifestação em Madri para cobrar medidas de proteção aos inquilinos e mudanças nas regras de despejo.
Parte dos manifestantes decidiu permanecer na Puerta del Sol depois da marcha e montou barracas no local. Entre as reivindicações estão contratos de aluguel por tempo indeterminado, medidas contra aumentos considerados abusivos e a proibição de despejos quando não houver uma alternativa de moradia disponível.
“Estamos todos nas ruas porque estamos fartos”, afirmou Natalia Navarro, atriz de 27 anos que participou do acampamento.
Alicia del Río, porta-voz do Sindicato dos Inquilinos de Madri, afirmou que o movimento pretende continuar pressionando o governo espanhol por novas medidas para enfrentar a crise habitacional.
Idosa morava no imóvel desde 1956
Segundo informações divulgadas pelo Sindicato dos Inquilinos de Madri, o pai de Maricarmen alugou o apartamento pela primeira vez em 1956. Após a morte dos pais, ela permaneceu no imóvel como inquilina sob o antigo regime de controle de aluguéis.
A situação mudou depois que o prédio passou por alterações de propriedade. De acordo com o sindicato, a mulher recebeu uma proposta para comprar o apartamento em 2018, mas não tinha condições financeiras para adquirir o imóvel.
Posteriormente, o apartamento foi comprado pela empresa Urbagestión. O aluguel, que era de cerca de 500 euros, chegou a ser elevado para 2.650 euros. O valor depois foi reduzido para 1.650 euros, ainda considerado incompatível com a renda da aposentada, segundo o sindicato.
O despejo executado em 23 de setembro ocorreu após tentativas de negociação e mobilização de apoiadores para impedir a retirada da idosa. Segundo a agência EFE, Maricarmen deixou o imóvel em uma maca e foi encaminhada para uma ambulância do serviço de emergência de Madri.
Caso virou símbolo da crise imobiliária
As imagens da retirada da idosa provocaram críticas e aumentaram a pressão sobre autoridades espanholas. O primeiro-ministro Pedro Sánchez chegou a mencionar o caso durante um discurso em Madri e afirmou que o governo trabalhava em novas medidas para a área de habitação.
O episódio também levou o governo e autoridades locais a discutir alternativas para que Maricarmen pudesse voltar ao imóvel. A primeira proposta apresentada pela Urbagestión para incluir o apartamento em um programa municipal de habitação foi considerada inviável pela Prefeitura de Madri. O município, porém, passou a atuar como mediador entre a empresa e os representantes da idosa.
Após novas negociações, representantes de Maricarmen e da empresa chegaram ao acordo anunciado nesta segunda-feira para possibilitar o retorno dela ao apartamento. A solução, no entanto, ainda depende da avaliação da própria idosa.
Crise de moradia afeta grandes cidades
O caso de Maricarmen ocorre em um cenário de aumento dos custos de moradia na Espanha. O crescimento dos preços dos imóveis e dos aluguéis tem dificultado o acesso à habitação, principalmente em grandes centros urbanos como Madri e Barcelona.
Segundo dados citados no material, o preço médio do metro quadrado para aluguel no país chegou a 15,1 euros em agosto, enquanto o valor médio para compra alcançou 2.355 euros por metro quadrado.
O Banco da Espanha estimou uma falta de cerca de 550 mil moradias no país no ano passado. Madri, Barcelona e Valência concentram parte significativa dessa demanda.
Os protestos também resgataram a memória das manifestações iniciadas em 15 de maio de 2011, quando integrantes do chamado Movimento dos Indignados ocuparam a Puerta del Sol durante semanas em meio à crise econômica espanhola.
Agora, o caso de Maricarmen passou a concentrar parte das reivindicações do movimento por moradia. Os manifestantes mantêm o acampamento em Madri e cobram novas medidas do governo para conter o aumento dos aluguéis e reduzir os despejos.
O governo espanhol, liderado pelo socialista Pedro Sánchez, deve analisar novas medidas habitacionais em reunião do gabinete nesta terça-feira (29). A proposta, porém, ainda precisará passar pelo Parlamento para entrar em vigor.
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