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COMBATE AO RACISMO E À MISOGINIA

Os passos de uma luta por igualdade

Zélia Amador de Deus dedica sua vida pessoal, acadêmica e política ao enfrentamento do racismo na sociedade

Fabrício Queiroz

8 de março de 2022 às 07:00

Para Zélia Amador, o feminismo negro permite desvendar e lutar contra as estratégias do machismo e do racismo

Para Zélia Amador, o feminismo negro permite desvendar e lutar contra as estratégias do machismo e do racismo ( Foto: André Oliveira / O Liberal )

Em uma sociedade patriarcal, ser mulher já é por si só uma condição que representa a necessidade de estar disposta a enfrentar muitos desafios. Em um contexto de relações racializadas, as estruturas de poder a serem enfrentadas são ainda maiores e perpassam histórias de vidas por várias gerações.

Essa realidade veio à tona para Zélia Amador de Deus ainda jovem e, por isso, a professora e ativista percebeu a importância de se mobilizar para transformar as dores individuais dela e outras pessoas negras em símbolo de luta coletiva.

“Eu nasci negra, então desde cedo eu percebi o racismo na própria pele. Então qual é o caminho? O caminho é você se organizar para combater, o caminho é você se organizar para mostrar para uma sociedade que assimilou e internalizou o racismo que esse racismo é cruel, que esse racismo mata, que esse racismo não pode continuar” - Zélia Amador de Deus

No início dos anos 1980, Zélia integrou o grupo responsável pela criação do Centro de Estudos e Defesa do Negro do Pará (Cedenpa). Apesar do cenário de uma luta desigual, a professora avalia que há conquistas desse movimento, apesar do Brasil ainda precisar assumir e enfrentar o seu próprio racismo.

Na década de 1980, Zélia Amador de Deus foi uma das fundadoras do Cedenpa, um movimento de referência na luta antirracista no Pará
Na década de 1980, Zélia Amador de Deus foi uma das fundadoras do Cedenpa, um movimento de referência na luta antirracista no Pará (Paula Sampaio / O Liberal)

 “O fato do racismo ser tipificado hoje como crime inafiançável e imprescritível, isso é resultado da luta dos movimentos negros. O fato da gente ter legislação penalizando o racismo, é resultado da luta dos movimentos negros. O fato de você ter hoje os quilombolas lutando pelo título de propriedade de suas terras, lutando por educação, por saúde, por melhores condições de vida, isso é resultado da luta do movimento negro. Muita coisa está avançando”, analisa.

Para a professora, um dos sinais desse avanço se reflete no protagonismo que as mulheres negras têm desempenhado, contribuindo para que o feminismo se repense e coloque em debate as violências particulares sofridas por esse grupo. No feminismo negro essas especificidades são conceituadas como intersecções. “Cada vez que uma intersecção se cruza com a outra para discriminar um ser, esse ser vai ficando cada vez mais vulnerável. É o que acontece no caso das mulheres negras”, explica Zélia Amador.

Outra pauta se dá em torno do resgate e pesquisa de figuras femininas negras, cujas histórias eram desconhecidas ou apagadas por conta das estruturas do racismo e do machismo. Nesse sentido, Tereza de Benguela, que viveu no século XVIII e se tornou a líder do maior quilombo na região de fronteira entre o estado do Mato Grosso e a Bolívia, se tornou um símbolo dessa luta por valorização. Atualmente, no dia 25 de julho é celebrado no Brasil o Dia Nacional de Tereza de Benguela e da Mulher Negra.

Zélia Amador foi a primeira vice-reitora negra de uma universidade no Brasil. A UFPA lhe concedeu o título de professora emérita em 2020
Zélia Amador foi a primeira vice-reitora negra de uma universidade no Brasil. A Universidade Federal do Pará (UFPA) lhe concedeu o título de professora emérita em 2020 (Alexandre de Moraes / Ascom UFPA)

No presente, certamente Zélia Amador de Deus é uma das figuras que inspiram jovens e mulheres negras no Pará e em outros lugares. Além de ser fundadora do Cedenpa, ela é professora universitária e dramaturga, se graduou em Língua Portuguesa, tem mestrado em Estudos Literários e doutorado em Ciências Sociais. Suas pesquisas envolvem temas como a cultura, a arte, o teatro, a educação, as políticas de ação afirmativa e a diáspora africana.

De 1993 a 1997, Zélia Amador foi vice-reitora da Universidade Federal do Pará (UFPA), a primeira mulher negra a ocupar esse cargo no país. Hoje, ela é assessora de diversidade e inclusão social da mesma instituição que, inclusive, lhe concedeu o título de professora emérita, em reconhecimento à sua liderança acadêmica e política.

“A gente costuma dizer que os nossos passos vêm de longe, muito já foi feito para que hoje eu tivesse a oportunidade de estar aqui. Isso é um caminho que a juventude pode ir além, a juventude pode ficar cada vez mais forte para fazer seus agenciamentos políticos, para construir, para fazer com que o Estado tenha políticas públicas de combate ao racismo, de eliminação da discriminação racial, de combate ao machismo e à misoginia”, destaca a professora que ressalta: “Essa juventude tem todo um cenário pela frente para conquistar, para fazer com que essa sociedade fique melhor”, finaliza.

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