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Agroextrativismo e um cheiro de futuro

Madson Alan Rocha de Sousa / Especial para O Liberal

As chuvas de março molham o chão da floresta na amazônia, enchem os igarapés e anunciam mais um ano de coleta de castanha: do Pará ou do Brasil, conforme o afeto linguístico de ambos os lados do rio, que em nada afeta a importância socioambiental e econômica desse produto extrativista. Os ouriços pararam de cair, é hora de organizar o batelão, juntar a família e partir corredeiras acima no rio Iratapuru. No vale do Jarí, fica instalada a bolsa de valores da castanha-do-brasil, na qual os atores econômicos ditam a comercialização da barrica, unidade de medida que contabiliza cerca de seis latas de 18 litros com castanhas com casca, que já chegou a custar R$ 750 reais na região.

Barricas, igarapés, rios, corredeiras, batelão representam, por um lado, a dinâmica de um sistema de produção extrativista e, por outro, a cultura inerente a povos e comunidades tradicionais, que têm no agroextrativismo um aliado ao seu modo de vida e reprodução social. 

O agroextrativismo é o agregar de um sistema extrativista que pode ser vegetal ou animal, com a produção agrícola familiar, e juntos, retratam a subsistência, segurança e soberania alimentar, e ainda, uma renda complementar ou a principal atividade econômica da família no meio rural. A coleta de castanha, açaí, cupuaçu, cacau, andiroba, copaíba, extração de madeira, cipós e outros, associados à pesca, à caça de subsistência, aos quintais produtivos, roçados e criação de pequenos animais manifestam-se como uma estratégia milenar de manutenção das famílias amazônicas, e exprimem valor ecológico, cultural e econômico a este sistema poliprodutivo.

Na Amazônia, este sistema está presente em cerca de 136 milhões de hectares de florestas comunitárias, que somadas aos milhares de hectares de florestas já desmatadas ou degradadas compõem um cenário propício de sinergia para o fomento ao desenvolvimento do extrativismo e agroecossistemas. Associados à uma agenda de restauração florestal ativa, podem caracterizar futuros sistemas de produção e comercialização de produtos fortemente vinculados às realidades locais. Esse vínculo é importante, pois garante respeito à culturalidade agroextrativista e, a ele, uma posição de animador e protagonista dos caminhos possíveis ao desenvolvimento socioeconômico.  

É sabido que este sistema de produção assegura a conservação florestal, conservação da agrobiodiversidade, conservação cultural e permite uma dinamização da economia local, que favorece o desenvolvimento endógeno, o desenvolvimento que acredita no açaí, na castanha, na mandioca e suas dinâmicas de produção como ativos capazes de sustentar crescimento econômico e bem-estar social. É sabido também que o manejo agroextrativista dessas e outras espécies é essencial para evitar a homogeneização dos agroecossistemas, o que os tornariam mais frágeis com a diminuição da diversidade, e portanto, mais suscetíveis a pragas e doenças.

Visto as suas benesses, temos, então, que lançar luzes e tarrafas sobre os desafios para a consolidação do agroextrativismo como uma ferramenta de desenvolvimento mais presente e com mais espaço nas políticas públicas. Os investimentos em infraestrutura, assistência técnica e extensão florestal, regularização fundiária, acesso e educação para o crédito e organização socioprodutiva, para os povos e comunidades tradicionais, devem ser coerentes e análogos aos esforços políticos de usar a imagem e preocupação com uma Amazônia conservada e sustentável, senão, corremos o risco de associar o cheiro do futuro ao sabor amargo dos erros passados. 

Madson Alan Rocha de Sousa, Prof. Assistente III da Uepa, Coordenador do Curso de Engenharia Florestal?

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