SEX · 02 OUT 2026Assine

MURALISMO

Projeto 'Paredes Vivas' transforma muros em galerias a céu aberto no interior do Pará

Projeto leva oficinas de grafite e muralismo a crianças e adolescentes de Marabá, Parauapebas, Canaã dos Carajás, Curionópolis, Ourilândia do Norte e Tucumã

Tay Marquioro

23 de julho de 2026 às 09:47

Em Marabá, alunos da Escola Valdir Pereira dos Santos estão recebendo as atividades do projeto

Em Marabá, alunos da Escola Valdir Pereira dos Santos estão recebendo as atividades do projeto ( Foto: Cristiano Cantão )

Um ônibus adaptado cruza as estradas do sudeste paraense levando em seu interior muito mais do que tintas, rolos e sprays: carrega a promessa de ressignificar paisagens urbanas e despertar uma nova geração de artistas na Amazônia. Entre os meses de julho e agosto de 2026, o projeto Paredes Vivas: Identidade e Grafismo na Amazônia vai transformar muros e escolas de seis municípios no estado do Pará em verdadeiras galerias públicas de arte.

A caravana cultural está passando por Marabá e vai ainda a Parauapebas, Canaã dos Carajás, Curionópolis, Ourilândia do Norte e Tucumã. A proposta une a vivência prática e teórica do grafite e do muralismo com o fortalecimento da identidade e do pertencimento local. O coração da operação é um laboratório criativo móvel instalado dentro de um ônibus adaptado para as atividades itinerantes. O veículo serve como ponto de apoio e central de materiais, enquanto as atividades de imersão acontecem em escolas parceiras em cada cidade.

Ao longo de uma semana de oficinas gratuitas, crianças, adolescentes e moradores locais aprendem desde a história do muralismo e do grafite até técnicas de aplicação de cor com pincéis, rolos e latinhas de spray. O ápice de cada etapa é a criação coletiva de um grande mural que estampará a cultura e as tradições do município.

Para Akira Souza, aluna da Escola Municipal Valdir Pereira dos Santos, que recebe o projeto em Marabá, essa está sendo uma experiência única. “Nunca tinha tido contato com o grafismo.  Não sabia como era tão fácil e criativo o processo”, conta. “O que eu estou gostando mais é de saber como fazer as figuras ficarem mais nítidas e coloridas. Espero no futuro fazer do grafismo um meio de expressão pessoal e também um meio de ganhar a vida, de ser cada vez mais profissional”, projeta a estudante.

O projeto Paredes Vivas: Identidade e Grafismo na Amazônia conta com o patrocínio da Vale, viabilizado por meio da Lei Federal de Incentivo à Cultura (Lei Rouanet), com apresentação do Ministério da Cultura.

À frente da condução artística está Waldir Lisboa, um dos nomes pioneiros do muralismo e do grafismo no Pará. Para o mestre, o projeto entrega aos jovens uma poderosa ferramenta de voz e cidadania. Questionado sobre a origem da proposta, Waldir Lisboa explica que o projeto nasceu de uma viagem à Colômbia. “Em Cartagena, caminhando por ruas históricas, me chamou a atenção a forte presença dos grafites que ocupam muros, fachadas e casas da cidade. Mais do que intervenções artísticas, essas obras revelam a identidade de seus moradores, retratam a cultura local, preservam memórias e traduzem, em cores e formas, o cotidiano de uma comunidade que se reconhece na arte urbana”, relembra.

Waldir Lisboa, um dos nomes pioneiros do grafismo no Pará, conduz as oficinas
Waldir Lisboa, um dos nomes pioneiros do grafismo no Pará, conduz as oficinas (Divulgação)

"Mais do que levar oficinas de grafite às cidades participantes, o projeto pretende despertar o sentimento de pertencimento, estimular a criatividade da juventude e deixar, em cada mural pintado, um testemunho permanente de que a arte é capaz de transformar pessoas, espaços e comunidades”, revela o artista.

"O projeto consiste numa ideia que tem três pilares. O primeiro são as oficinas, que vão chegar em cada cidade durante uma semana para crianças, adolescentes e comunidade em geral. Ao final dessas oficinas, a gente entrega um grande mural feito junto com os participantes e com o artista Waldir Lisboa. O terceiro eixo é um documentário que vai registrar toda essa grande aventura, desde a transformação do ônibus em ateliê até a entrega dos murais, ficando disponível gratuitamente para toda a população”, esclarece Cristiano Aguiar, coordenador-geral do projeto, explicando que toda a circulação está sendo acompanhada de perto por uma equipe audiovisual. Com esse time, está a responsabilidade de capturar bastidores, entrevistas e a transformação vivida pelos alunos.