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Soluções da floresta: Amazônia une tradição e ciência na criação de produtos naturais

Região é local de fabricação de curativos a partir do açaí, de produtos dentais com insumos da floresta e de pisos de fibra natural para casas populares

Cleo Soares e Daleth Oliveira / O Liberal

Inventar algo é descobrir ou criar algo novo, seja esse algo uma ideia, um conceito, um produto ou um serviço. Porém, nem toda invenção é uma inovação. Inovar é, de certo modo, criar soluções - seja para gerar mais valor a um determinado produto, ou para melhorar ou tornar mais fácil a maneira como se faz algo. E só isso não basta. Para inovar, é preciso atender efetivamente a uma necessidade real. Para uma novidade, um invento ou criação ser uma inovação, é necessário haver uma aplicação, um mercado potencial, ou resultados que podem até ajudar comunidades inteiras a vencer desafios. Enquanto um invento é a descoberta de algo novo, inovar é explorar, com sucesso, essa nova ideia.

Ouça o comentário desta reportagem em inglês:

Frente ao grande potencial de geração de riqueza da Amazônia, por aspectos naturais que incluem a maior biodiversidade do globo, inovar se tornou uma palavra-chave para a região. É essa uma das senhas obrigatórias para o alcance de um novo patamar de desenvolvimento econômico. Uma palavra cujo exercício será crucial para se atravessar fronteiras, rompendo com um passado preso ao extrativismo e à pobreza, rumo um futuro com maiores possibilidades de geração de renda e sustentabilidade para as suas populações e seu vasto território. 

Esse é o desafio abraçado pelos esforços em desenvolvimento de alguns novos produtos em instituições de conhecimento da região. Nelas, pesquisadores dedicam-se a estudar como matérias-primas originais e espécies vegetais nativas da Amazônia, como a andiroba, podem se transformar em novas mercadorias e formas de atender antigas ou novas demandas. E isso vale até para o reaproveitamento daquilo que poderia ir para o lixo, como é o caso do caroço do açaí, o fruto da palmeira do açaizeiro. 
Novas mudas permitem colher açaí o ano todo

Um exemplo de inovação está numa solução buscada após o crescimento da demanda por açaí, a partir da década de 1990. O Estado do Pará já era o maior produtor mundial do fruto, quando, naquela época, a comercialização começou a apresentar um expressivo crescimento. Com o avanço da procura, tanto no mercado nacional como no internacional, oferecer o açaí durante o ano inteiro, e não apenas nos meses de colheita do ciclo natural da palmeira, passou a ser uma urgência econômica.

(Everaldo Nascimento / O Liberal)

Sendo o açaí um fruto nativo de regiões de várzea, e de safra sazonal, o aumento da demanda criou a necessidade de mudanças – e inovação. Era necessária a expansão do cultivo para novas áreas. Porém, as sementes existentes na época eram de baixo potencial produtivo.

Foi com os estudos de melhoramento genético do açaí, iniciados ainda na década de 1980, por pesquisadores da Embrapa Amazônia Oriental, que se chegou ao que hoje é o açaizeiro “BRS Pará”. Lançado em 2005, desde então ele é utilizado na expansão do plantio da espécie a novas áreas cultivadas em terra firme.

O engenheiro agrônomo Walkymário Lemos, doutor e pesquisador recentemente empossado como chefe-geral da instituição, ressalta: a Amazônia hoje tem um potencial inovador gigantesco, com várias instituições trabalhando em estudos importantes, voltados ao desenvolvimento de produtos da floresta dirigidos a diferentes públicos e necessidades.

"É importante investir em tecnologias inovadoras, e produzir para se ter uma bioeconomia forte. E é possível fazer isso, usando áreas já degradadas e preservando o meio ambiente" - Walkymário Lemos, chefe-geral da Embrapa Amazônia Oriental.

Na Embrapa Amazônia Oriental, Lemos diz que o conceito de inovação tem sido usado de forma aberta às parcerias público-privadas, em várias linhas de pesquisas voltadas a demandas de consumo. Para ele, esse é um caminho promissor. Justamente porque isso agiliza o suporte financeiro às pesquisas e, ao mesmo tempo, dá garantias de que o produto entrará no mercado. 

“Encontrar um parceiro na iniciativa privada é muito importante, porque a Embrapa, assim como outras instituições públicas, não é quem vai comercializar o produto resultante da pesquisa. Então, como os recursos infelizmente são escassos, esse tipo de parceria ajuda a pesquisa e ajuda o mercado, uma vez que o produto chega a esse mercado com o aval e a credibilidade de uma instituição séria”, pondera Lemos.

Nesse sentido, porém, o engenheiro agrônomo avalia que, embora a Amazônia seja considerada um grande celeiro, no qual o esforço científico pode render muito ao mercado, os investimentos do poder público em pesquisas ainda são baixos – e vêm sendo reduzidos a cada ano.

Carvão de caroço de açaí (Sidney Oliveira / O Liberal)

E isso ocorre mesmo quando se comprova que os resultados compensam, como é caso da própria Embrapa - onde estudos mostram que cada R$ 1 de investimento público se transforma em R$ 17 para o mercado. “Hoje, a Embrapa tem um retorno dezessete vezes maior do investimento feito. Mas isso, infelizmente, ainda é muito abaixo do que seria o ideal, além dos cortes recorrentes, que ficaram ainda mais drásticos nesse período difícil que enfrentamos com a pandemia”.

Nessa geração de exemplos lucrativos, e que atendem diretamente o mercado, produzidos a partir de pesquisas da Embrapa, Walkymário Lemos destaca ainda os produtos vindos dos Sistemas Agroflorestais (SAFS). São alimentos, energéticos, barras de cereais e essências, com produções que mantêm a floresta em pé. “É importante investir em tecnologias inovadoras, e produzir para se ter uma bioeconomia forte. E é possível fazer isso, usando áreas já degradadas e preservando o meio ambiente”, afirma o chefe-geral da Embrapa Amazônia Oriental.

Inovação e riqueza: o desafio da propriedade intelectual

Depois que os pesquisadores vencem a etapa de inovar, frente às necessidades que se sucedem – seja, por exemplo, de uma vacina para uma doença nova, como a covid-19, seja para um novo cosmético, que evite o envelhecimento precoce da pele –, é crucial se aproximar de um outro campo: o da propriedade intelectual. 

"Quando se pensa em empreendedorismo, a primeira coisa que devemos lembrar é da marca" - Sheila Corrêa, analista da Embrapa.

E embora muitas vezes os membros da academia estejam um pouco mais distantes dessa frente, por ela ser mais relacionada ao mercado, é a propriedade intelectual, a garantia do direito sobre aquele algo novo que se criou, um passo estratégico para que o esforço da pesquisa não apenas tenha sucesso no seu intento maior, de melhorar a realidade, mas também gere riqueza.

Para Sheila Corrêa, analista da Embrapa e mestre em propriedade intelectual e inovação pelo Instituto Nacional da Propriedade Industrial (INPI), quando se trata de inovação, a palavra é mesmo desafio. “E são muitos: internos e externos a uma organização, compreendendo que podemos estar trabalhando com inovação tanto em universidades quanto em empresas”, explica.

Ela afirma que, nesse cenário, o registro é fundamental para vencer os desafios e não deixar uma inovação apenas guardada, sem sair do papel. “Vamos ver um pesquisador chegar a um resultado incrível e inédito em determinada área do conhecimento, e ele sabe que é preciso proteger aquilo através de patente, mas sem um fluxo do que será feito após o depósito da patente, aquela tecnologia vai ficar ali na prateleira”.

(Sidney Oliveira / O Liberal)

Sheila Corrêa cita a importância da prospecção em bases de patentes ser um tema em todos os cursos superiores, pois existem produtos e processos patenteados que não estão descritos em artigos científicos. “Com isso, podemos evitar que muito tempo e dinheiro seja direcionado para chegar em um avanço científico que já existe, pelo simples fato do pesquisador não ter o conhecimento de como buscar patentes de sua área de pesquisa”, alerta.

A analista diz que até o empreendedorismo na Amazônia ganha com a valorização de registros de patentes. “Quando se pensa em empreendedorismo, a primeira coisa que devemos lembrar é da marca, pois um negócio que hoje é pequeno, amanhã poderá ser grande, e se ele começar pequeno usando uma marca de terceiro? Quando ele ficar grande, vai precisar trocar e terá uma despesa grande com publicidade, só para dizer para as pessoas o seu novo nome. Se ele já inicia o pequeno negócio com uma marca registrada no INPI, ele poderá se posicionar melhor no mercado”, ressalta Sheila, lembrando que essas são apenas algumas entre as inúmeras vantagens do registro de uma criação inovadora.

Açaí: exemplo de evolução com inovação

A introdução no mercado, em 2005, da marca “Açaí BRS Pará”, foi feita para que os produtores superassem o obstáculo da safra sazonal do fruto. O uso da tecnologia BRS, sigla que identifica produtos provenientes do programa de melhoramento genético liderado pela Embrapa, de fato resultou em muitos os avanços nesses 16 anos, com produção de frutos mais precoce, com a primeira frutificação em média aos três anos após o plantio.

Os estudos apontam que o rendimento de polpa varia de 15 a 25%, e o benefício econômico gerado pela tecnologia é estimado em R$ 36,14 milhões, com 70% desse valor atribuído à Embrapa e 30% aos parceiros. Esses indicadores superam muito os registrados no sistema tradicional de produção dos açaizais e fazem todos ganharem: produtores agrícolas, agroindústrias e consumidores. 

Os estudos estimam ainda que o BRS Pará acrescentou mais de 3,8 mil postos de trabalho com a adoção da tecnologia ao longo da cadeia produtiva, além de gerar renda, proporcionando maior segurança e estabilidade aos produtores.

Resíduos do açaí geram sabonetes e filtros

Mas, depois de passar pelo cultivo e colheita, e chegar aos pontos de batedores de açaí, o que fazer com as toneladas de caroços, o rejeito do fruto após a extração da polpa? Graças às pesquisas, tudo isso ainda continua sendo útil.

Ingrid Teles é engenheira de produção (Sidney Oliveira / O Liberal)

O incômodo pela quantidade de resíduos sem um destino adequado levou a engenheira de produção Ingrid Teles, no ano de 2015, a pensar em soluções inovadoras para resolver o problema e gerar renda. Após pesquisas apontarem que o açaí pode ser útil para fabricação de carvão ativado, ela desenvolveu um filtro de água ecológico e um sabonete líquido facial à base do insumo.

“O filtro fizemos, inicialmente, para filtrar água em comunidades ribeirinhas, e deu muito certo. A pesquisa toda nasceu a partir do carvão para esse fim, mas depois, com algumas alterações nos processos, foi possível chegarmos também nesse, do qual é feito o sabonete facial”, contou Ingrid.

A engenheira trabalha ainda com outras duas colegas de profissão. Juntas, elas iniciaram uma start-up para gerar renda a partir de suas ideias. Entretanto, para entrar no mercado, elas avaliaram que era necessário outro produto. “Precisávamos produzir e vender, mas ainda era complicado iniciar com o tratamento de água, por conta de tudo o que demandava e ainda não tínhamos capital. Então analisamos toda a situação e pensamos em outras formas de utilizar o carvão que tínhamos produzido. Foi assim que entramos no mercado de higiene e cuidados com a pele com nossos primeiros sabonetes. Inicialmente eles eram em barra e esfoliantes. Hoje já estamos com o líquido”, explicou.

E trata-se de um produto eficaz, que auxilia na diminuição da oleosidade excessiva da pele, e para elas tem também a função de no futuro investir na produção dos filtros, já testados e aprovados. 

(Sidney Oliveira / O Liberal)

Além do açaí, Ingrid também utiliza caroço de manga, que exerce a mesma função do caroço do açaí para fazer o carvão ativado, a ser utilizado nos filtros que serão lançados brevemente.

Hoje, a start-up associada ao Parque de Ciência e Tecnologia Guamá, reaproveita açaí de um batedor parceiro de Belém. “Brevemente vamos fechar parceria com outros batedores para reciclar esses caroços. Acreditamos que hoje é possível trabalhar com tudo o que já temos, sem a necessidade de extrair, colaborando, dessa maneira, para manter a nossa floresta em pé”, disse.

Muitos desses potenciais parceiros nem fazem ideia do tamanho do aproveitamento desses resíduos. Alberto Silva, batedor artesanal de açaí há mais de 30 anos, desconhece todas as possibilidades de uso do caroço do fruto. “Já ouvi falar sobre a possibilidade de aproveitar para tratamento dos dentes, mas sobre esse reaproveitamento para desenvolver carvão ativado é novidade para mim”, contou ele, informando que só no Ver-o-Peso, o maior mercado a céu aberto da América Latina, na cidade de Belém, mais de uma tonelada de caroços são descartados por dia. “Nós, infelizmente, não temos o hábito de trabalhar toda a cadeia do caroço. Então, depois que batemos o açaí, o que sobra vai pro lixo”.

Produtos do açaí para a saúde bucal

O “uso no tratamento dos dentes”, citado pelo batedor de açaí Alberto Silva, é resultado da pesquisa da cirurgiã dentista e professora Danielle Emmi, da Universidade Federal do Pará (UFPA), em parceria com pesquisadores da Embrapa. A pesquisa rendeu para a maior universidade do Norte do Brasil a patente de um composto evidenciador de placa bacteriana, que tem como base o corante natural do açaí. Trata-se de uma solução odontológica capaz de revelar a existência de placas bacterianas que se formam nos dentes e são as responsáveis pelo aparecimento das cáries.

"A principal vantagem do evidenciador de placa com corante de açaí é sua seletividade na evidenciação e a ausência de efeitos colaterais" - Danielle Emmi, cirurgiã dentista e professora.

A coordenadora da pesquisa, realizada entre os anos de 2001 a 2006, afirma que o produto serve para identificar as áreas dos dentes que necessitam de melhor escovação. “A principal vantagem dos evidenciadores de placa dental é orientar a escovação, já que a placa dental é uma massa microbiana imperceptível que se forma constantemente nas superfícies dentárias. E por isso é difícil de ser removida com eficácia. Ter uma substância que dê cor à placa dental facilita sua localização para promover uma escovação eficiente”, explica Danielle Emmi.

O composto natural tem eficácia 90% superior aos evidenciadores sintéticos. “A principal vantagem do evidenciador de placa com corante de açaí é sua seletividade na evidenciação e a ausência de efeitos colaterais, já que se constitui de matéria-prima extraída de um fruto que tem grande consumo como fonte alimentar, principalmente na região Amazônica”, ressalta  a pesquisadora. 

Apesar do pedido da patente ter sido feito em 2002, ela só foi concedida pelo Instituto Nacional da Propriedade Industrial em 2015. Entretanto, mesmo com a demora do reconhecimento, Danielle Emmi afirma que não perde o ânimo para continuar buscando novas vias de inovação na Amazônia.

Enxaguantes bucais e pastas de dente com óleos de pupunha e tucumã 

É dessa busca que, em 2012, a professora Danielle voltou a inovar com soluções da floresta amazônica. Desta vez, com a criação de creme dental e enxaguante bucal com óleos vegetais de pupunha e tucumã.

(Sidney Oliveira / O Liberal)

“As evidências científicas mostram que alimentos gordurosos têm efeito protetor nos dentes contra a cárie, e muitas culturas antigas utilizam bochechos com óleos para redução de microrganismos bucais. Então, por que não testar os frutos amazônicos, que são tão conhecidos e consumidos no Pará?”, detalha Danielle Emmi.

Em relação ao que o mercado já oferta, o diferencial dos produtos feitos pela pesquisa desenvolvida pela UFPA é a incorporação de antimicrobianos, fluoretos e dessensibilizantes que conferem a eles também a função terapêutica. “A utilização de antimicrobianos para complementar a remoção mecânica da placa dental tem sido de grande importância para redução dos microrganismos bucais e prevenção da cárie e doença periodontal”, detalha a pesquisadora.

Os ensaios clínicos preliminares, realizados com 40 voluntários, mostraram que o creme dental com os óleos vegetais apresentou eficácia similar a marcas comercializados com antimicrobianos. Além disso, testes indicam uma abrasividade adequada e baixa citotoxicidade nos novos produtos desenvolvidos na UFPA.

Já os testes do enxaguante bucal mostram também um produto com baixa citotoxicidade, sendo menos danoso às células bucais do que os comercializados, testados comparativamente. “Esses resultados possibilitam, pela primeira vez, a utilização dos óleos de pupunha e tucumã no uso em produtos para a saúde bucal”, afirma a pesquisadora, informando que apesar de todos os avanços com os testes in vitro e clínicos, que se estenderam até 2019, a pesquisa precisou ser suspensa em 2020, por conta da pandemia do coronavírus, devido aos riscos de contaminação advindos da prática odontológica.

Biocurativos com óleo de andiroba

É no Laboratório de Óleos da Amazônia, localizado no Espaço Inovação do PCT Guamá, em Belém, que o Grupo de Desenvolvimento Tecnológico em Biopolímeros e Biomateriais da Amazônia desenvolveu um produto inovador para o tratamento de feridas: o biocurativo feito com insumos da espécie vegetal andiroba, capaz de desinflamar e acelerar o processo de cicatrização cutânea.

Marcele Passos é especialista em biomateriais (Sidney Oliveira / O Liberal)

Coordenado pela professora doutora Marcele Passos, especialista em biomateriais, o grupo fundado em 2017 pesquisa biocurativos com vários outros insumos amazônicos. “Foi observada a necessidade de desenvolver produtos terapêuticos de baixo custo. Então aproveitamos essa demanda, para valorizar a biodiversidade regional”.

Para que o estudo ocorresse, também pesou o saber popular, que há muitos anos já usa a andiroba nos tratamentos, como bem sabe a comerciante Carmelita Rocha, que há mais de 50 anos trabalha em uma banca no mercado do Ver-o-Peso, em Belém. Ela vende a semente e o óleo vegetal, e afirma que o saber tradicional embasa a eficácia do curativo desenvolvido pela professora Marcele. “A andiroba é um ótimo cicatrizante. A garrafada que a gente faz com o óleo da semente é bom pra tudo. Então, com certeza, esse curativo é bom”, afirma, categórica.

A pesquisadora Marcele pontuou que os testes mostram a capacidade de absorver fluidos, auxiliando na cicatrização e prevenindo a infecção. Além disso, não foram identificadas reações adversas ao organismo, mas ainda é necessário seguir para testes clínicos e demonstrar melhor a eficácia do produto, que, segundo o grupo de estudo, ainda não tem similares no mercado. “Nossos biocurativos são feitos por fibras e por isso, têm uma porosidade mais acentuada que os demais. Essas fibras facilitam ainda mais o processo de cura da ferida, somada aos aditivos naturais da andiroba, que é o nosso diferencial”, diz Marcele.

(Sidney Oliveira / O Liberal)

Os óleos utilizados são, em parte, produzidos no próprio laboratório, mas a equipe também consome óleos vegetais do mercado paraense. O grupo trabalha para conseguir a patente da inovação.

“Temos foco para patentear não apenas o produto, mas também o processo. E estamos desenvolvendo outros tipos de biocurativos, com outros insumos da floresta. E, na medida que tivermos a patente, visamos atrair novos olhares para promover o progresso da técnica trabalhada”, diz Marcele, ciente do longo caminho a trilhar. “Trabalhar com inovação é desafiador, apesar de termos um vasto material, por conta da biodiversidade. Mas sigo firme e espero melhorar a qualidade de vida das pessoas, com acessibilidade a tratamentos terapêuticos de baixo custo”.

Acessibilidade com ecopiso de coco do babaçu

Inovar para gerar acessibilidade. Esse é o objetivo da professora doutora em processamento de materiais, Carmen Dias, da Faculdade de Engenharia Mecânica UFPA. Entre os trabalhos que já desenvolveu com bolsistas de graduação, mestrado e doutorado, ela coordenou a produção de um piso ecológico, feito a partir de fibras de coco do babaçu, uma palmeira presente no Maranhão, Piauí, Tocantins e Pará, em uma área de convergência entre o Cerrado, a Caatinga e a Floresta Amazônica.

(Sidney Oliveira / O Liberal)

O ecopiso de fibras de coco do babaçu também surgiu a partir do conceito de sustentabilidade, impulsionado pela vontade de melhorar a vida de comunidades. “Em 2006, uma orientanda de mestrado quis ajudar uma comunidade de catadoras de babaçu de Pedreiras, no Maranhão. Então verificamos quais as necessidades delas e quais as características locais. As condições de moradia das famílias nos tocaram, principalmente o piso, para bebês poderem engatinhar e andar.

O resíduo local, segundo Carmen, continha principalmente casca de babaçu. “Juntamos ciência, tecnologia e uma pitada de carinho. Bingo! Deu certo!”, conta ela, animada pelos resultados, desde o início do projeto. Ao todo, a iniciativa já processou mais de quatro toneladas de resíduos reaproveitados como fibras. E além das famílias de Pedreiras, uma comunidade de Colares, no Pará, já é beneficiada com os ecopisos.

Carmen Dias é professora doutora em processamento de materiais (Sidney Oliveira / O Liberal)

Entre os pisos plásticos disponíveis no mercado, os de babaçu são os melhores, garante a pesquisadora. “Eles substituem perfeitamente qualquer piso de plástico, tendo até uma durabilidade maior, porque a resistência da fibra de babaçu é bem elevada”, explica.

E apesar do piso sustentável de fibras de coco do babaçu ter surgido em 2007, apenas este ano recebeu patente nacional. “Demorou um pouquinho pra sair, mas ele é um entre mais de dez patentes que o nosso laboratório possui”, anima-se a pesquisadora.

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