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LIBERAL AMAZON

Por Grupo Liberal

Iniciativa do Grupo Liberal para potencializar o acesso do mundo às informações sobre a Amazônia, com a perspectiva local sobre a região, além de apoiar os estudos do inglês.

Pará tem potencial para liderar bioeconomia a nível global, mas ainda precisa superar entraves

Economia baseada na biodiversidade tem gerado cada vez mais renda ao redor do mundo e é o caminho de um futuro sustentável compartilhado

Eduardo Laviano / O Liberal

Muitos debates ganham repercussão ano a ano no Dia Mundial do Meio Ambiente, celebrado em 5 de junho. Poucos deles, porém, são tão abrangentes quanto o conceito de bioeconomia e são tão cheios de possibilidades para um futuro sustentável e de bem estar social, gerando emprego, renda e preservação ambiental.

 

 

Ouça o comentário em inglês sobre esta reportagem:

Focada na inovação, a bioeconomia possui três pilares: ciência, tecnologia e biodiversidade. A bioeconomia engloba desde os sorvetes com frutas amazônicas até as plantas geneticamente modificadas para suportar verões intensos, passando pelo desenvolvimento de biomassas e biocombustíveis. O objetivo do movimento é garantir que os benefícios colhidos dos recursos sejam compartilhados por todos. 

"Enquanto a gente estiver com 11 mil km de desmatamento nessa floresta, que é a fonte da bioeconomia, estamos destruindo a nossa matéria-prima"  - Joice Ferreira, bióloga.

Com 42.730 espécies vegetais distribuídas conhecidas em diferentes biomas, o Brasil tem a maior diversidade genética vegetal do mundo, o que confere ao país a oportunidade de comandar o navio da bioeconomia em escala global, com um foco especial nos elementos da Amazônia, que atualmente fornece matéria-prima para diversos produtos no planeta inteiro.  

(Everaldo Nascimento / O Liberal)

"A gente sempre trabalhou com biodiversidade. Sempre teve extrativismo, seja de açaí ou de castanha. Quando falamos de bioeconomia, o diferencial é a aplicação de mais ciência e desenvolver novos produtos, ter mais laboratórios", resume a bióloga Joice Ferreira, da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa).

"Estamos com o menor orçamento do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico do século (...) Como as comunidades vão coletar materiais? (...) Temos que ser realistas: ou mudamos esse paradigma ou vamos ficar só sonhando" - Joice Ferreira.

Apesar do vasto potencial natural da região amazônica, Joice considera que o Pará e os estados vizinhos ainda enfrentam problemas básicos para que a bioeconomia local ganhe cada vez mais força e desenvolva uma imagem positiva globalmente.

Joice Ferreira é bióloga da Embrapa (Adriana Sena / Ascom Embrapa)

"Eu vejo que no Pará há uma boa articulação em torno da bioeconomia. Os tomadores de decisão possuem um engajamento com essa visão de desenvolvimento. Mas, precisamos resolver algumas questões fundamentais: enquanto a gente estiver com 11 mil km de desmatamento nessa floresta, que é a fonte da bioeconomia, estamos destruindo a nossa matéria-prima", afirma ela, que em 2019 venceu o prêmio da Sociedade Britânica de Ecologia na categoria Engajamento Ecológico.

Os entraves não param por aí. Segundo Ferreira, é necessário mais investimento em ciência, pesquisa e infraestrutura. "Estamos com o menor orçamento do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico do século. As instituições públicas de ensino, idem. Temos muitos problemas de infraestrutura também. Como as comunidades vão coletar materiais? Como vão transportá-los? Como eles serão capacitados para se relacionarem com o mercado? Enquanto tiver funcionários (públicos de órgãos de fiscalização) sendo ameaçados, enquanto não tiver estrada, energia, como podemos falar de laboratórios super equipados? Temos que ser realistas: ou mudamos esse paradigma ou vamos ficar só sonhando. Precisamos de pessoas para fazer as pesquisas, usar os computadores, manipular DNA", avalia.

Joice lembra que existem muitas possibilidades e caminhos que a bioeconomia pode seguir no Pará. Ela destaca o grande interesse internacional pelo açaí, cacau (foto abaixo) e castanha, por exemplo, pode atrair cada vez mais investimentos que devem ir além da extração, incentivando também pesquisas e a incorporação de comunidades locais ao cotidiano das atividades econômicas das grandes empresas e corporações. 

(Igor Mota / O Liberal)

"Na cadeia do açaí, tudo é muito rudimentar ainda, assim como a questão dos fármacos, que ganhou força aqui nos últimos anos. As atividades das grandes empresas precisam ser bem reguladas, mas comparado com o nosso gigantismo, são poucas empresas ainda que estão focadas na bioeconomia no Pará. É preciso garantir que as comunidades tenham simetria para negociar de igual para igual, com capacitação. As comunidades trabalham de forma extrativa, rústica, mas possuem muito valor por conta do conhecimento acumulado ao longo do tempo. É uma troca", afirma.

Amazônia tem know-how quando o tema é bioeconomia 

Além da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária, a região amazônica possui um leque grande de instituições trabalhando a favor do fortalecimento dos valores da bioeconomia na região. Um dos exemplos, o Museu Emílio Goeldi, desenvolve atualmente mais de 250 projetos em parceria com instituições do Brasil e do exterior. 

Desde 1866, as atividades da instituição de pesquisa se concentram nos estudos e na catalogação dos sistemas naturais e socioculturais da Amazônia, além da divulgação de conhecimentos e acervos relacionados à região e aos povos que a habitam. 

Tanto capital técnico e intelectualidade amazônida acumulado confere ao Pará um lugar privilegiado no debate internacional sobre a bioeconomia. É o que acredita a atual coordenadora de pesquisa e pós-graduação da instituição, Ely Simone Gurgel.  

(Ronaldo Rosa / Divulgação Embrapa)

"Com persistência e determinação, é possível avançar mais. Não faltam exemplos positivos. Temos uma colônia japonesa em Tomé-Açú, com sistemas agroflorestais que dão certo há décadas. Outro exemplo é Cooperativa Agrícola Mista de Tomé-Açu, que comercializa polpas de frutas no estado há 30 anos. Por outro lado, vemos que a realidade não é a mesma em muitas regiões. Na Transamazônica, por exemplo, houve uma experiência menos bem sucedida de implantação de sistemas agroflorestais. Por lá, é difícil comercializar e produzir, mas é uma região de solo riquíssimo, com potencial imensurável", afirma Gurgel. 

Ela lembra que o escoamento da produção é um ponto sensível, principalmente no Sul e Sudeste do Pará, onde os produtores sofrem com a falta de logística adequada. A produção local ainda é muito dependente de alguns portos, como os de Manaus, no Amazonas e Santarém, Belém e Barcarena, no Pará.

"As pessoas vão ao shopping e olham um produto importado com muito apreço, mas possuem um certo desapreço por aquilo que é local (...) Quando valorizamos as feiras locais, produtores locais (...) isso é incentivar a bioeconomia, ajudando o desenvolvimento do local onde moramos, que é único" - Joice Ferreira.

A coordenadora acredita que, uma vez solucionados os impasses relacionados à infraestrutura, o desenvolvimento da bioeconomia no estado se dará de maneira natural, pois se trata de uma vocação do estado e das instituições envolvidas de pesquisa envolvidas nestes processos.

"Nossa pesquisa é fundamental, pois vamos desde a descoberta de novas espécies, com um forte viés taxonômico, identificação científica de fungos e animais, até as pesquisas que são feitas sobre remédios que são produzidos com organismos da natureza, por comunidades ribeirinhas e comunidades indígenas que sabem o uso correto de cada planta. Mais do que pesquisar em nome do futuro, preservamos a memória para que esse conhecimento não se perca", ressalta.

É impossível não falar da vantagem competitiva do Pará quando o assunto é bioeconomia paraense sem citar o açaí. A exportação do fruto cresceu quase 15.000% em dez anos, conforme revelou reportagem recente do Liberal Amazon.

"Hoje, posso afirmar que o açaí é a peça fundamental da nossa bioeconomia, pois envolve a cultura local, a população, padrões internacionais rígidos e renda para comunidades vulneráveis. É um conjunto de valores que interagem entre si", diz Mário Jardim, engenheiro florestal que coordena a área de botânica do Goeldi.

Jardim pesquisa sobre o açaí e o manejo de açaizeiros desde 1988. Segundo ele, que é doutor em ciências biológicas e ecologia, a cadeia produtiva do açaí muda conforme cada município. Apesar do volume grande dos frutos no estado, ele acredita que é preciso pensar no futuro, mesmo que o açaizeiro não possua risco de extinção atualmente.

"Há a questão da manutenção das populações naturais do açaizeiro. É uma planta muito usada para fins comerciais. Outro ponto é valorizar os atores envolvidos. Trabalho há muitos anos com extrativistas na comunidade e vejo que ainda tem muito a melhorar para eles em termos de qualidade de vida. Mais do que bioeconomia, precisamos promover o bioempreendedorismo, com jovens e empresários investindo em produtos naturais com cooperativas, de forma compartilhada. Minha sugestão, neste momento em que se celebra o Dia do Meio Ambiente, é que plantem uma muda de açaí onde quer que seja, para as gerações que estão vindo", alerta Mário.

Consumidores podem apoiar bioeconomia com atos simples

Segundo estudo da Nielsen, realizado em 2019, a sustentabilidade é a terceira maior preocupação do consumidor brasileiro. Sete milhões de lares no país declararam ter hábitos sustentáveis e são eles que concentram quase 20% do faturamento de produtos de higiene e beleza, área na qual a Amazônia também transborda potencial.

(Igor Mota / O Liberal)

O ramo possui indústrias grandes instaladas no Pará, mas os pequenos empreendedores também movimentam o setor de cosméticos na Amazônia. Quando Laura Loisy criou a Eulauea Cosméticos Naturais, o objetivo era resolver um problema pessoal de longa data.

"A marca existe desde 2019. Sou vegetariana há sete anos e sempre fiquei procurando produtos veganos e nunca tive muitas opções, até por conta da falta de dinheiro também. Então comecei a pesquisar como fazer xampu e sabonetes com ingredientes locais. Além disso, sou do candomblé e sempre mexi com ervas. Depois de um tempo as pessoas perceberam que eu usava produtos diferentes e foram se interessando", conta ela, que tem 20 anos.

Laura Josy fabrica comésticos (Tarso Sarraf / O Liberal)

Os xampus, sabonetes e produtos de cuidado facial desenvolvidos por Laura são um sucesso. Com o tempo, outras preocupações foram surgindo na mente da empreendedora, todas relacionadas à bioeconomia e à sustentabilidade. Ela fez questão, por exemplo, de valorizar fornecedores locais, e de conscientizar consumidores sobre o descarte dos recipientes, que são todos retornáveis. 

"Eu fui percebendo também a questão do lixo, do plástico, do cuidado ecológico. Eu só uso produtos amazônicos também: óleos amazônicos, manteigas amazônicas, desde a compra até a feitura até a pessoa receber, tudo é pensado. A minha principal fornecedora é a Amazon Oil, de Ananindeua, e que infelizmente pouca gente conhece. Além disso, uso alecrim, camomila e outras ervas, tudo comprado no Ver-o-Peso", afirma ela, que faz tudo sozinha e, às vezes, conta com a ajuda da namorada. 

Apesar do alcance que as redes sociais deram ao negócio de Laura, ela acredita que ainda falta incentivo no Pará, apesar do potencial do estado para liderar esta nova economia do mercado de cosméticos baseada na sustentabilidade.

(Igor Mota / O Liberal)

"Vejo muita gente que se interessa, muita gente compra para revender e tem muitos produtores. As pessoas são curiosas em relação a isso. Antes eu tinha um nicho, aqui no centro de Belém, hoje em dia expandiu muito. Mas, alguns químicos para o xampu eu tenho que comprar em São Paulo. Falta diversificação e divulgação também", entende ela, que tem aumentado a produção desde que se mudou para uma casa maior. 

Para Joice Ferreira, da Embrapa, os cidadãos podem contribuir com o fortalecimento da bioeconomia local com atos simples. 

"As pessoas vão ao shopping e olham um produto importado com muito apreço, mas possuem um certo desapreço por aquilo que é local. Valorizar a bioeconomia é valorizar os produtos da nossa biodiversidade. Quando valorizamos as feiras locais, produtores locais e escolhemos os nossos representantes que dão valor à floresta e vão trabalhar no sentido de conservação da floresta, da cultura da gastronomia, tudo isso é incentivar a bioeconomia, ajudando o desenvolvimento do local onde moramos, que é único", aconselha.

Liberal Amazon
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