Em outubro, as ruas de Belém ganham uma explosão única de cores, leveza e nostalgia. São barquinhos vibrantes, socadores de açaí, pássaros e bonecos que encantam os olhos de crianças e adultos. Essas figuras nascem da própria magia amazônica e ganham vida pelas mãos dos mestres artesãos de Abaetetuba, município do nordeste paraense legitimamente reconhecido como a Capital do Artesanato de Miriti.
Por trás de cada traço esculpido no talo do miritizeiro — conhecido como a "palmeira santa" —, há histórias enraizadas de afeto, fé e herança familiar. Um dos rostos mais conhecidos dessa tradição viva é o de Meriani Matias Miranda, Mestra no Artesanato de Miriti e atual presidente da Associação dos Artesãos Produtores de Artesanato de Miriti (AAPAM).
A trajetória de Meriani com o miriti começou no aconchego de sua casa, observando o fazer cotidiano dos pais. Aos 10 anos, os olhos atentos da menina assimilaram cada movimento do Mestre Manoel Miranda, seu pai. Entre raspas da madeira leve, conhecida como o "isopor da Amazônia", ela aprendeu a arte que mais tarde se tornaria sua missão de vida.

Hoje, Meriani Matias Miranda dá continuidade a essa herança cultural e familiar. Para ela, esse legado é um ato de amor e resistência cultural, e a palmeira uma fonte divina de sustento: “O miritizeiro é chamado de ‘palmeira santa' porque dele tudo se aproveita: a fibra, o fruto, a palha e o talo. Várias famílias no município vivem e retiram seu sustento exclusivo desse fazer tradicional, mantendo viva uma economia criativa e sustentável que passa de geração em geração", explica a presidente da AAPAM.
Do talo ao encanto
Dar vida ao miriti é um processo de paciência que exige sensibilidade técnica e respeito à natureza para que o talo da palmeira se transforme nos brinquedos. “A confecção dos brinquedos passa por etapas bem definidas e artesanais", resume Meriani.
O primeiro passo é a coleta e seleção do talo do miritizeiro. Em seguida, o talo é deixado para secar ao sol para garantir a leveza e a durabilidade do material. O terceiro passo é feito com a faca ou navalha, quando o artesão esculpe o formato do brinquedo na bucha leve do miriti. A quarta etapa inclui o ajuste das peças, lixamento para dar acabamento suave e junção das partes usando pequenos talos ou colas. Por fim, há a aplicação das tintas coloridas, característica marcante das peças.

O resultado são peças que hipnotizam pela leveza e vibração visual. Embora os brinquedos tradicionais sigam como o coração dessa arte, a palmeira revela uma versatilidade. “O colorido vibrante e a extrema leveza do artesanato de miriti são os elementos que mais chamam a atenção do público, mas a palmeira santa é extremamente versátil. Além dos brinquedos tradicionais (pássaros, barcos, cobras, socadores) é possível produzir luminárias, maquetes, itens de decoração para interiores, biojoias, utilitários e peças de arte contemporânea", enumera Meriani.
Ao representar os artesãos do município, Meriani fala com orgulho sobre os símbolos de fé e identidade. “Para os artesãos de Abaetetuba, ter o artesanato de miriti reconhecido como uma das grandes referências do Círio de Nazaré representa um orgulho imenso e a validação de uma identidade cultural. Os brinquedos de miriti não são apenas objetos decorativos ou brinquedos tradicionais; representam fé, devoção, sustentabilidade e a própria alma do povo paraense expressa em cores e formas durante a festividade", acredita a Mestra.
O projeto "Círio e suas histórias" tem patrocínio da Agropalma, Banco da Amazônia, Hapvida, Hydro e Prefeitura de Belém. E o apoio da Vale.
