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Sincerão

'A questão financeira realmente pesa': Vivian abre o jogo sobre o Remo

Em bate papo exclusivo, executivo de futebol azulino falou sobre a gestão e o que mudou no clube em 10 meses

Junior Cunha

4 de outubro de 2026 às 07:00

( Foto: Foto: Carmem Helena/O Liberal )

No Remo desde janeiro, o executivo de futebol Luís Vagner Vivian recebeu, nesta semana, o Núcleo de Esportes do Grupo Liberal no Estádio Banpará Baenão para um bate papo "sincerão". Em pauta, a gestão dele à frente do departamento de futebol do clube nesta temporada, que ao longo de 10 meses teve altos e baixos. 

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Durante a conversa, que teve mais de 40 minutos de duração, Vivian revelou detalhes sobre como encontrou o clube e como ele está hoje. Além disso, o executivo não fugiu de assuntos polêmicos, como as crises no vestiário, a saída do atacante Alef Manga e a pressão por contratações.

Confira a seguir a entrevista completa:

O Liberal: Qual a avaliação destes oito meses de trabalho no departamento de futebol do Remo? 

Luís Vagner Vivian: Desde a minha chegada, quando o Campeonato Brasileiro estava iniciando, tivemos ali mudanças no comando técnico. Por isso também necessidades de mudanças no elenco e isso tudo dá um grande trabalho, uma grande transformação dentro do clube em relação a orçamento. Tu tem um orçamento planejado, e acaba tendo que remodelar isso. Também aos poucos se viu que o elenco era insuficiente em termos de qualidade, não de quantidade. Porém, no campeonato estadual e na Copa Norte a gente vai vendo que era um pouco deficitário para o nível da Série A que conhecemos bem. Então a diferença é grande, um trampolim na questão de nível de jogo, de estrutura de clubes, de qualidade de elenco, de investimentos, enfim, várias coisas que afetam a performance e o resultado do jogo. Então a gente chega direto para o jogo contra o Vitória, na estreia. O treinador ainda é o (Juan Carlos) Osório. Estreamos com a derrota, e aos poucos fomos tentando ajustar, ajudar a comissão técnica da melhor forma no ajuste do elenco e também em algumas melhorias estruturais no clube e de processos que a gente foi entendendo necessário. Venho com a experiência de nos últimos três anos ter disputado a Série A no outro clube em que trabalhava. Conheço bem o nível que o campeonato demanda. É lógico que de um a dois anos tu não consegue mudar drasticamente um clube que subiu muito rápido, por méritos e do de todos que aqui trabalhavam, da Série C à Série A. Acaba e essa subida rápida tem uma série de coisas que tu tem que subir junto em termos de receita, porque tu começa a competir com clubes tem muito mais dinheiro, estrutura, planejamento já de anos, elencos já consolidados que vão repor só algumas peças para melhorar, grandes investimentos em contratações. O mercado está muito inflacionado no Brasil, isso não é novidade para ninguém. Dentro da limitação do clube em relação financeira, a gente foi vendo as prioridades. Dentro do elenco, estrutura, melhorando algumas coisas no Baenão, investindo em logística, mais conforto para ter estes atletas à disposição e com e com energia, descanso necessário para competir com as outras equipes, que eu acho que estamos conseguindo brigar de igual para igual, e o detalhe faz a diferença em vários aspectos. O primeiro passo do clube crescer em termos de Série A nós demos. Agora o clube tem que seguir o caminho. Hoje é difícil gerenciar e fazer futebol porque, cada vez mais, o mundo está muito imediatista. E no futebol, o imediatismo, às vezes, tu só gasta dinheiro e não sai do lugar. A gente tem que ter um planejamento a médio e longo prazo, ter um uma sequência de gestão dentro do clube, indiferente das pessoas, mas a ideia é o projeto ter sequência que o clube tem toda a estrutura e margem para crescer, tem muita margem para crescer. Um clube de grande massa, que muitos outros não chegam nem perto. Acredito muito, e se não estiver aqui, vou estar torcendo porque ganharam um torcedor.

OL: O que mudou desde a chegada no clube?

LVV: A própria mudança do elenco em si. Estava fazendo um "backup" e saíram 21 jogadores. Isso é muita coisa. 50% do elenco, que estava um pouco inflado. Hoje tem menos (jogadores). Saíram 21, chegaram 12. Mais um atleta da base (Tico, atacante) que a gente promoveu para o profissional. Fazia tempo que isso não acontecia. É uma coisa importante. Foram 13 (chegadas). A gente reduziu um pouco o elenco, tentou melhorar a qualidade e diminuiu a quantidade. Mas isso tudo custa também dinheiro e durante o campeonato é mais difícil de fazer as mudanças. A questão do elenco é nítida. Fazendo um apanhado geral, os jogadores que saíram, no Brasil, não tem nenhum jogando a Série A. E a grande maioria não está como um titular na série B, o aproveitamento deles em números e minutos é baixo. Não menosprezando os atletas,  se estavam aqui, tiveram o mérito, mas a gente precisava fazer alguma coisa para tentar elevar um pouco (o nível do elenco). Volto na questão do planejamento, que é uma coisa importante no clube para disputar uma série A. Tem que estar planejado, investindo, entender que vai gastar mais do que às vezes se planeja. E a receita do clube ainda está muito distante dos outros clubes que já estão um bom tempo disputando série A, série B. O clube vai precisar trabalhar nestes próximos anos para melhorar esta receita, porque hoje é o investimento todo dentro ou fora de campo, depende de orçamento. Com certeza o presidente, os próximos presidentes que vierem vão estar pensando nisso, porque eles entendem que precisa também.

Lateral esquerdo, Marlon foi um dos últimos contratados pelo Remo na gestão Luís Vagner Vivian. (Samara Miranda / Ascom Remo)
Lateral esquerdo, Marlon foi um dos últimos contratados pelo Remo na gestão Luís Vagner Vivian. (Samara Miranda / Ascom Remo)

OL: Na apresentação, tu falou que o Remo estava em uma "crescente meteórica". Segue com esse pensamento que o clube é, de fato, isso hoje?

LVV: Ele teve essa crescente meteórica dos acessos (de divisão). Então, assim, é um clube que sai da (Série C) C e em duas temporadas estar na (Série) A, é difícil de acontecer isso. Normalmente é mais fácil cair rápido. Tu errar a mão em uma temporada na série A, como já aconteceu em vários clubes, tu endividar o clube, ou tu não gerenciar bem os contratos dos jogadores, ou tu fazer uma mudança mudança de gestão drástica ou de comando técnico drástico, traz um treinador que não tem nada a ver com o elenco de jogador que tu tem, tu tem que mudar tudo, aí para cair para B, para C, para D é rápido. Principalmente faltar dinheiro. Nessa questão financeira a gente sempre teve os pés no chão. Mesmo estando na Série A, o presidente (Antônio Carlos Teixeira) é muito responsável. Cumpre com tudo, e eu concordo com ele. Não vim para cá fazer loucura e endividar o clube. Pelo contrário, vim para tentar potencializar e vamos deixar um legado, com certeza. Um elenco muito mais valioso em termos de valor de mercado, também pronto para a divisão que vier a disputar no próximo ano. Lógico que a ideia é seguir na Série A, mas temos que ser realistas. Não é fácil. Nunca foi fácil, desde quando começou o campeonato. Não é agora. Lá no início a gente teve que fazer várias mudanças. Mas a ideia de gestão de elenco sempre pensamos em ter, para o próximo ano, uma boa base para uma Série A. Se mantém, contrata jogadores de nível melhor ainda para disputar posição e vai fazer um trabalho de subir a escadinha. Se não consegue se manter, tem uma boa base, com time com contrato, que pode precisar de complemento para disputar a Série B. É o planejamento que a gente tenta fazer sempre aqui, discutindo as coisas com o presidente, com os vices, para a gente tentar deixar o clube dando esses passos acima. Agora com uma ascensão não tão grande, mas sempre seguindo em termos de estrutura, mentalidade, processos, melhoria de profissionais, crescimento interno de todo mundo.

OL: Temos um grande problema que é a logística que Belém fica longe do eixo Sul-Sudeste. Como que a sua gestão tentou otimizar esse processo para ajudar o Remo?

LVV: Quando cheguei, sendo repetitivo, encontrei o time em Salvador. Inclusive, naquela viagem aconteceu um fato, que é o risco que tu corre quando está viajando de voo comercial, que é um atraso de um voo. E pode atrapalhar o teu planejamento para o jogo. A equipe tinha ido em voo comercial, foi fazer uma conexão em São Paulo, atrasou o voo aqui na saída por conta da chuva. Perdeu a conexão em São Paulo e acabou chegando tarde na noite em em Salvador para descansar para o jogo no dia seguinte. 'Ah, isso foi decisivo?'. Não sei, mas o futebol é o resultado de vários detalhes. Dentro do campo, na semana, no treinamento, nos detalhes que a comissão técnica passa para os jogadores, no planejamento que tu faz da logística, na alimentação, no descanso, na massagem, na fisioterapia que faz para jogo, no dia do treino. É muito complexo. E todas as decisões são tomadas dentro do campo. Às vezes, o pessoal quer vender uma fórmula mágica para o futebol. Não é assim. É uma coisa que tem que ser construída aos poucos, né, com o auxílio de todo mundo, todo mundo entender o projeto e remar para o mesmo lado. Quando voltei desse jogo, comecei a fazer um plano para ver como que a gente teria que fazer em voos comerciais para disputar todos os jogos. Com essa parada da Copa do Mundo, a tabela do Campeonato Brasileiro ficou mais exprimida, principalmente no primeiro semestre. Tu tinha jogo meio de semana e final de semana. Como tu vai jogar quarta-feira, 21h30 em Porto Alegre e tu tem um jogo aqui, no sábado, em Belém contra um time de São Paulo, por exemplo. Tu vai lá e não treina. Tu passa toda a quinta-feira viajando de volta para cá. O time que vem jogar aqui contra você chega mais descansado que você que vai jogar em casa. Então, principalmente, pela força que o clube tem que ter em casa, a gente teve isso como um ponto muito importante de melhoria. Conseguiu fazer um contrato com a empresa aérea para fazer os fretamentos, com investimento, com o apoio do presidente, de todo mundo que auxilia o clube. É um dos detalhes que ajuda o time ainda estar disputando, fisicamente e mentalmente, a competição de igual para igual com muitos clubes. 

OL: Em termos de estrutura, o que a tua experiência externa ajudou o clube a melhorar a estrutura do Baenão, CT? 

LVV: Assim como tem muitos bons profissionais aqui com experiências, conhecimentos, eu também tenho um pouco pelo tempo que estive fora. Trabalhei na Seleção Brasileira por oito anos. Viajei pelo mundo conhecendo centros de treinamentos, estruturas conversando com outros profissionais, entendendo os processos que eles trabalhavam, a forma de gerir um elenco. Então assim, tem um pouco de bagagem nesses anos, e depois dos três anos mais recentes no Grêmio, já nessa função que eu exerço aqui hoje. Agreguei um pouco de conhecimento. Mas lógico que, a realidade do clube quem conhece muito mais são as pessoas que estão aqui no dia a dia há mais tempo. Tentamos trazer ideias que são compradas pelos que já estão aqui e a gente consegue também viabilizar, às vezes por investimento. Às vezes tem coisas que não é possível. Tudo aquilo que a gente conseguiu acrescentar, melhorar parte de alimentação, processos, às vezes até para para as coisas funcionarem um pouco melhor no dia a dia para os atletas e comissão técnica. Investir na parte de recovery, de fisioterapia, de equipamentos, em parcerias, muito contato que a gente tinha de parceiros, de patrocinadores de outros clubes, a gente ligou para fazer um investimento. O clube investiu, mais ou menos, em equipamentos na base de R$ 1.5 milhão. Desse valor, o clube pagou menos de um terço. O resto foi parcerias de marketing. Essas coisas eu acho que a gente consegue agregar com conhecimentos, contatos, confiança que a gente tem com outros clubes, outras empresas. E o CT, o projeto já estava bem avançado quando cheguei, e sempre que eu pude, aqui junto com o Giovani, que é o diretor que está à frente do projeto, tentei agregar e dar ideias, mostrar algumas coisas que no meu entendimento podem ser melhores, mais funcionais para o clube. Dentro lógico da realidade. Não estou dizendo que nós vamos trazer para cá o CT do Manchester City, mas tem detalhes que existem lá, que a gente pode colocar aqui na prática sem gastar nada mais, por exemplo. São coisas simples às vezes, mas aquele olhar um pouco de fora, que eu acho que é importante que alguém de fora saiba utilizar isso. Pelo menos eu tento sempre aprender com os outros, com as experiências dos outros. É isso que tentamos implementar e colaborar com o clube.

OL: Chegaram dois profissionais contigo, o João Neto e o Diego Ziegg. De que forma eles agregaram no dia a dia do clube?

LVV: É um que não é único do Remo. Em todos os clubes que já andei, converso com as pessoas, vira e mexe vem o mesmo problema. A comunicação interna do clube. Os processos estarem bem alinhados por setores, por áreas para chegar o mais filtrado possível na comissão técnica e nos atletas que são os grandes clientes nossos do clube. A gente tem que entregar as coisas da melhor forma possível para eles desempenharem o trabalho deles e o resultado vai vir a partir disso. O final do processo é contando com eles, mas tem uma prévia muito grande para esse trabalho acontecer. A gente tenta no dia a dia dar melhores condições para isso. Existiam dois outros profissionais junto com o (Marcos) Braz antes, que acabaram não saindo e eu senti que ficou uma lacuna desse dia a dia. Fiquei um tempo aqui sozinho, observando o que a gente precisava ajustar e achei, discutindo também com o presidente de trazer mais dois profissionais, um mais focado para o dia a dia, que é o Diego, o gerente de futebol que está mais próximo da comissão técnica ajustando detalhes, dando sugestões, tendo cuidado nas programações para sair tudo redondo. Está atento a todos os processos, próximo dos atletas para ver as demandas também dos atletas. Ele circula bastante nessa área da saúde, comissão técnica, as demandas que precisam também para essas áreas de compra de alguma coisa fora da rotina, mudança de última hora e também supervisionando um pouco da logística. O João, mais como um gestor administrativo para organizar um pouco a parte de contratos que o clube não tinha ainda um banco de dados, por exemplo, para a gente abastecer e isso ficar um legado para o clube. Bastante coisa que eu tive dificuldade no início, dessa parte administrativa, a gente conseguiu dar uma organizada e deixar para o clube. Fizemos uma parceria com uma plataforma de um banco de dados, que geramos ali a programação, que o jogador recebe no celular as informações, o departamento médico lança os atendimentos, da fisioterapia. Tem tudo ali. O presidente precisa ver uma dúvida de um contrato, ele acessa. Tudo isso é uma das coisas que o João foi atrás para buscar para organizar e mais essa parte das parcerias também com a empresa para gente melhorar a estrutura. Ele botou o braço nessa parte estrutural para para buscar parceiros e com, com todo o staff do clube aqui a gente melhorar essa parte administrativa e o Diego mais nessa parte mais técnica e eu fazendo esse elo geral junto com a estratégia com o presidente e vices no dia a dia e tomando as decisões com eles. Você não citou, mas eu vou incluir aqui o Rafael Vieira, um analista que a gente trouxe um pouco depois. O clube não possuía esse profissional. Acabava acarretando essa demanda para o analista de desempenho, mas são coisas bem distintas. O analista de desempenho dá o suporte para a comissão técnica e atletas de informações do desempenho da equipe adversária, e o de mercado vai olhar o interno aqui, o nível que a gente tem de jogador e também o mercado que a gente possa trazer jogadores para agregar no elenco. É um trabalho bem diferente. A gente conseguiu trazer o Rafael, que abraçou o projeto, que é um grande profissional aí da área e trabalhou em quase todos os maiores clubes do Brasil e ele veio bem pelo projeto mesmo, porque viu o potencial no clube da mesma forma que eu vi e a gente está buscando melhorar cada dia para deixar o clube em um patamar melhor do que quando a gente chegou.

Vivian recebeu o Grupo Liberal no Estádio Banpará Baenão. (Foto: Carmem Helena/O Liberal)
Vivian recebeu o Grupo Liberal no Estádio Banpará Baenão. (Foto: Carmem Helena/O Liberal)

OL: Quando apresentado, tu falou que ia ter autonomia no futebol, para contratar, auxiliar o técnico. Tiveste, de fato, essa autonomia no futebol? E como isso foi trabalhado com presidente e comissão técnica?

LVV: A gente teve toda autonomia, porém futebol é uma coisa que não existe o dono do clube. Eu não sou o dono do clube, o presidente não é o dono do clube. A gente tenta sempre tomar as decisões em consenso usando três pilares. O pilar técnico, isso falando para qualquer cenário, tanto para contratação, para mudança de alguma coisa interna, de uma melhora estrutural. Então, o pilar técnico, o pilar estratégico e financeiro e o pilar político, do clube, institucional. Essa parte financeira institucional é o presidente que responde e eu respondo por essa parte técnica aqui do futebol. Quando a gente vai tomar uma decisão na contratação de jogador, por exemplo, eu tinha autonomia de fazer todo a busca que a gente criou aqui o processo de primeiro destacar qual é o perfil que a gente precisa trazer, fazer os filtros dentro do mercado e quem dá a ordem financeira, que é a faixa salarial (da contratação), o investimento, isso é mais institucional. Não sou eu que vou chegar aqui e criar um endividamento para o clube, que eu nunca faria isso. Nessas decisões, a gente sempre buscar esse tripé, que se baseavam com o presidente e os vice-presidentes, e eu aqui com a comissão técnica, discutindo essas questões. Quando vinha a indicação do treinador, a gente analisava aqui na parte de análise de mercado, via se encaixava realmente com o perfil, se tinha potencial financeiro para trazer o jogador, para depois a gente começar uma negociação. Mas normalmente a gente levantava três, quatro, cinco nomes com o perfil, aprofundava o máximo possível, depois discutia com o treinador, tentava levantar as condições e quando estava dentro de uma faixa líquida a gente sabia que estava dentro do orçamento, a gente tentava ir em busca desse desse jogador. Sempre com plano A, B, C, sempre, nunca ficando com opção só, porque senão fica difícil para tu conseguir negociar.

OL: No futebol tem dois cenários no Campeonato Brasileiro. Um é a permanência e o outro é o rebaixamento. Os dois cenários foram planejados pelo Remo, tanto a permanência como um possível rebaixamento para o ano que vem? 

LVV: O planejamento sempre tem um objetivo, a permanência (na Série A). Segue sendo. Isso a gente não abre mão. Enquanto tiver bambu, tem flecha, que nem falam. A gente acredita por vários aspectos. Tivemos perto de sair da zona de rebaixamento em vários momentos do campeonato, deixamos escapar em um ou outro detalhe, mas sempre estivemos vivos dentro da competição. Se a gente puxar um pouquinho atrás e for ver falas do início do ano, muita gente já dava o Remo como rebaixado no primeiro turno, não ia nem brigar, ia ser o Sport do ano passado, que fez o primeiro turno muito ruim. A gente conseguiu dar uma equilibrada no elenco, ter dois jogadores por posição para disputar e elevar esse nível, dar características diferentes no elenco para o treinador. Acabaram ocorrendo as trocas de treinadores, mas o objetivo segue o mesmo. Como te falei, no planejamento desse elenco, no tempo de contato, a gente tem que pensar em todos os cenários para o próximo ano, para a série A ou para a série B, que são as duas possibilidades do clube. Se a gente conseguir permanecer, o clube vai ter que investir mais para tentar ainda melhorar o elenco, para ser mais competitivo ano que vem junto com outras estruturas que precisam ainda também melhorar. Aquela construção contínua. E se não conseguir se manter, já tem uma boa base de elenco. Praticamente aí 80, 90% do time que vem sendo titular ou os reservas que estão entrando mais seguidamente, já tem contrato em vigência. E ainda tem a possibilidade de renovar com alguns que entenda que que vão ser importantes para uma Série B.

OL: Fechou a janela de contratação, o que um executivo de futebol faz neste período?

LVV: Tem uma coisa muito distorcida no futebol brasileiro que é a função do executivo. O pessoal acha que o executivo contrata e manda embora. Na verdade, essa nomenclatura foi criada para diferenciar o diretor estatutário, aquele que não recebe (salário), e o diretor executivo, o remunerado que fica à frente da pasta. Por isso foi criada essa função. Mas na verdade, ele é um gestor. A função é de gestão. Ele é o cabeça do departamento de futebol, que ele age em todas as áreas do departamento de futebol. Se tem um problema no departamento médico, vamos tentar discutir com o líder do departamento médico para tentar arrumar o problema. Se o jogador está com problema e não é resolvido, vai chegar em mim, vamos tentar buscar a solução. E a melhoria contínua, como eu falei. Todos os detalhes que a gente está vendo dia a dia que quer melhorar, temos que estar buscando melhorar. Agora, neste momento, como mudou a comissão técnica, eu estou dando suporte muito próximo da comissão técnica para eles terem o entendimento máximo possível, mais rápido possível do elenco todo, do contexto, com o histórico que a gente tem de mais tempo no clube que eles estão chegando agora e dar todo esse suporte para eles para no próximo jogo a gente fazer os três pontos em casa que vão ser importantes aí na na retomada da das vitórias.

OL: Na apresentação, tu disse que o Remo era visto hoje pelo jogador como uma vitrine. Esse pensamento segue contigo? 

LVV: Na primeira janela (de transferência), quando eu cheguei, trouxemos sete jogadores. E ali tu tinha todo o campeonato pela frente praticamente. Então é mais fácil do jogador ver como uma vitrine e ter um convencimento para esse jogador vir para cá e querer disputar a Série A, principalmente jogadores que não estão atuando em outros clubes da série A ou que estão em clubes da série B e querem dar esse passo para cima e tem potencial para isso. Fizemos algumas apostas em alguns jogadores desse modelo. Agora na janela do meio do ano, que a gente trouxe cinco atletas muito mais para preencher lacunas de algumas posições que a gente era um pouco deficitário de opções para o treinador, ou para dar mais mais características diferentes, a gente já não estava nessa situação (de calendário aberto), já tem só a metade do campeonato e o jogador pensa 'eu vou ter seis meses agora na série A. Se manter, eu tenho mais um ano, mas o que é garantido são seis meses'. Já começa a mudar (o pensamento). A gente fez as contratações mais no início da janela porque já estava trabalhando antes, já tinham os alvos e as posições que a gente achava que precisava incorporar mais gente. Principalmente foram funções defensivas para ter um equilíbrio no elenco. Hoje, em todas as posições, a gente tem dois ou três jogadores à disposição que na necessidade dá para dá para modificar. Essa disputa de vaga, de titularidade no elenco, é necessária porque um eleva o nível do outro. Isso é importante a nível de treinabilidade e também às vezes características diferentes. Isso a gente não tinha tanto antes, agora a gente conseguiu equilibrar no meio do ano.

OL: O torcedor esperava mais nomes de peso e não vieram. Chegou Zé Ivaldo, que era reserva do Santos, Galeano, que era reserva do Mirassol, Marlon, destaque do Cuiabá na Série B, e também Matheus Felipe e Edson Fernando, que vieram de fora. Qual a avaliação foi feita para trazer estes cinco jogadores de forma específica? 

LVV: A questão de ser titular ou não é uma decisão do treinador, da comissão técnica e a gente respeita. A gente discute, conversa, mas a palavra final sempre vai ser dele, porque é responsabilidade dele. A gente dá opinião. Buscamos jogadores alinhados com o perfil da comissão técnica também. Defensores que a gente precisava, realmente. Zagueiros que a gente precisava, a gente tinha poucas opções ali, saíram alguns jogadores. Precisava melhorar ali o nível. É como você falou, a gente trouxe jogadores da série A que não estavam jogando, porque se estão jogando na série A, a gente não consegue trazer. E na série B, o Marlon que estava sendo destaque também foi um jogador que a gente tentou lá atrás e a pedida (salarial) foi muito alta. Agora a gente conseguiu viabilizar. São jogadores que foram destaque da série B ou que na A não estavam jogando e a gente acredita no potencial. Se a gente buscar o histórico desses jogadores, são com experiência em série A, experiência internacional. O Matheus Felipe estava fora do Brasil, mas era jogador do Athlético Paranaense. A gente tinha convicção de um jogador para vir para ser um ativo do clube. (O Matheus Felipe) Foi um jogador que a gente conseguiu trazer sem precisar de investimento financeiro. Veio pelo projeto. A gente valoriza isso. O Zé Ivaldo é um jogador que tem experiência em Libertadores, Sul-Americana, muitos jogos brasileiros. É um jogador de nível técnico bom também, com espírito competitivo para tentar elevar a competitividade ali na defesa. A decisão de jogar ou não é reservada ao treinador. A gente respeita. Mas o que a gente tentou foi o que eu falei antes, dar competitividade dentro do elenco para essas posições. O Galeano, a gente precisava de mais um atacante para o lado. Faltava um desde a outra janela e é uma posição difícil de achar hoje, está muito valorizada. Todo o nosso ataque tivemos que comprar praticamente. O Jájá tivemos que fazer investimento, o Taliari teve que fazer investimento, o Galeano teve que fazer investimento para trazer jogadores ou destaque da B ou jogadores que na série A não estavam sendo muito aproveitados, como foi o caso do Galeano. Porém, no ano anterior fez um bom Campeonato Brasileiro da Série A pelo Ceará. Por isso que o Mirassol foi lá e comprou, mas às vezes não encaixa na equipe, acabou ficando sem jogar muito. Isso que viabilizou. Se ele estivesse jogando, a gente não conseguia tirar de lá. A gente tem que entender que a disputa para trazer jogadores no mercado nacional é muito alta. Todos os outros clubes têm mais dinheiro que o Remo em relação à receita. Entendeu? Todos. Tu não consegue ir na Chapecoense simplesmente tirar um jogador se tu não botar dinheiro. Tu não consegue ir no Athletico Paranaense (e tirar jogador). É difícil. 

Executivo de futebol do Remo não fugiu das polêmicas. (Foto: Carmem Helena/O Liberal)
Executivo de futebol do Remo não fugiu das polêmicas. (Foto: Carmem Helena/O Liberal)

OL: Então a questão financeira foi o que mais pegou para o Remo no mercado? 

LVV: Com certeza, o limite financeiro. A gente trouxe o melhor possível dentro da realidade financeira. Porque também, Júnior, vale a gente lembrar, desses 20 jogadores que saíram, a gente trabalhou o máximo possível para diminuir o custo com eles. O jogador, quando tu contrata, é um investimento, mas quando ele não está servindo, ele vira custo. É tu diminuir esse custo para colocar eles no mercado, só que fica ainda um passivo para o clube pagar. E esse dinheiro todo, com certeza, se a gente tivesse, e não é pouco o dinheiro que a gente teve que seguir pagando, baixou muito, diminuiu na base de R$ 12 milhões de rescisões de contrato, diminuiu o custo do clube, mas ainda ficou um passivo para para seguir pagando e isso inviabilizou talvez a gente poder trazer mais ativos no meio do ano. A gente queria tentar trazer talvez mais um ou dois jogadores, mas assim, a questão financeira realmente pesa.

OL: Dessa questão dos jogadores que que saíram para limpar folha, dois não conseguiram ter essa saída, que é o Catarozzi e o Tassano. O que aconteceu nessa situação para não conseguir encontrar um novo clube para eles ou finalizar o contrato? 

LVV: Para finalizar o contrato, a gente tem que fazer uma rescisão unilateral e pagar todo o contrato. E isso gera um desembolso imediato do clube que atrapalha o fluxo planejado do. Então é preferível às vezes seguir pagando o salário dele até o final do contrato mensalmente, do que tu simplesmente exonerar. Aqueles jogadores que aceitam fazer um acordo para diminuir ou parcelar em mais vezes, foram feitos. Ou que a gente arrumou o clube para para eles ou os empresários deles arrumaram o clube para eles, foram feitos. Esses a gente não conseguiu o clube. Os que se interessaram, alguns jogadores também não se interessaram em sair e acabaram ficando. Até o momento ainda estão em treinamento aqui. 

OL: Essa questão unilateral é a do Alef Manga agora, que sai e o Remo rompe (o contrato) com ele e arca com todo o contrato? 

LVV: Foi uma decisão do clube (a rescisão unilateral), mas o jogador e o staff dele teve também o bom senso de fazer uma negociação para diminuir um pouco os custos por parte do clube.

Alef Manga rescindiu com o clube na última semana. (Samara Miranda / Remo)
Alef Manga rescindiu com o clube na última semana. (Samara Miranda / Remo)

OL: Depois da tua chegada, o Remo teve dois treinadores, Léo Condé e agora o Thiago Carpini. O Osório tu pegou o final do trabalho, com a saída dele para chegar ao Condé. Quais foram os motivos que levaram o Remo a trocar de treinadores e, principalmente, a escolher Condé e agora Carpini? 

LVV: A troca normalmente vem de resultados. No futebol brasileiro, às vezes tu tem que tomar decisões que podem não ser a melhor naquele momento, mas tu tem que tomar. E às vezes é mais fácil trocar a comissão técnica do que trocar um elenco inteiro. O que a gente conseguiu fazer de mudança no elenco, de melhorar o elenco para dar mais condições para o Condé no período que ele esteve aqui, fazendo um bom trabalho, buscando sempre evoluir os jogadores, mas o resultado não vem e às vezes tu tem que fazer uma troca para dar aquela virada de chave para para o grupo também não ir baixando as forças e largar a toalha, entendeu? Em nenhum momento aconteceu isso. Eu acho que começa a ter um desgaste muito grande da torcida com o treinador, com alguns atletas e isso não é benéfico. Então a gente acabou decidindo por romper o contrato. Trazer o Carpini, que é um bom treinador, que tem experiência também em série A, é um perfil que não é totalmente oposto ao do Condé, porque se tu traz um treinador com uma metodologia, uma visão totalmente oposta, tu quebra o teu elenco e a janela já estava fechada. Tu não tinha mais dinheiro e nem tempo para fazer mudanças de elenco. Então era o treinador mais bem conceituado em termos de histórico, livre no mercado e também com energia para chegar e, desde a primeira conversa, se mostrou muito confiante, muito, com muito tesão, muita energia para vir e agregar para a gente tentar sair dessa situação.

OL: Sabemos que o Marcelo Rangel já está neste processo de renovação de contrato. Além dele, o que mais tem de renovação em andamento para o ano que vem?

LVV: A gente tem dois jogadores que tem opção de renovação (automática) por parte do clube, que aí vai ser uma decisão do clube. Como está em um momento também político, de troca de gestão, de presidência, a gente entende que não dá para misturar muito as coisa. No momento certo a gente vai dar os passos que tem que dar com aqueles jogadores que o clube entender que devem permanecer. Mas como falei, o planejamento para ter uma boa estrutura já é de 11, 12 jogadores com contrato para o ano seguinte, a gente já tem. Agora é pontualmente ver o rendimento desses jogadores na reta final (da temporada), porque o campeonato ainda tem 10 jogos e pode acontecer muita coisa. A gente vai avaliando no dia a dia e juntamente com a diretoria para ver como eles vão querer fazer o planejamento para o próximo ano, porque também depende do orçamento, que é diretamente ligado a que divisão tu vai jogar.

OL: Em alguns momentos a torcida veio aqui no Baenão reunir com vocês, foram na sede fazer protestos. Como você encara essa questão deles protestando de forma mais incisiva, cobrando vocês aqui no Remo?

LVV: O clube existe por conta da torcida. A gente entende o torcedor que não queria estar nesse momento. Depois de 30 e poucos anos sem disputar uma Série A, de fazer grandes jogos aqui em Belém contra grandes equipes de futebol brasileiro e querer ganhar sempre. Mas nem sempre é possível. Acho que o torcedor entende também um pouco esse passo a passo que o clube está tentando construir, e na hora que entenderam que era importante protestar, estão no direito deles. Aqui, pelo menos conosco, foram conversas pacíficas, não houve nada de falta de respeito de nenhuma parte. Os jogadores aceitaram conversar com eles, escutaram, eles escutaram os jogadores, entenderam também o que a gente falou. Até algumas perguntas que tu citaste de contratação a gente explicou, e eles entenderam. Às vezes, eu acho que falta até melhor comunicação externa para o pessoal entender um pouco a realidade do clube dentro do cenário da série A. É claro que o Remo é um clube gigante, mas a gente está inserido hoje na série A que os clubes estão há mais tempo com grandes receitas, alguns anos à frente em relação à estrutura, processo, dinheiro, receita, estrutura de elenco, investimento categoria de base, venda de jogadores, tudo isso são coisas que o clube precisa ir incorporando cada vez mais para ir crescendo, como eu acho que cresceu muito aí nesses últimos anos.

Vivian teve que reunir com torcedores entre os meses de agosto e setembro. (Foto: Carmem Helena/O Liberal)
Vivian teve que reunir com torcedores entre os meses de agosto e setembro. (Foto: Carmem Helena/O Liberal)

OL: A questão do atrito após o jogo com o Santos, do Alef Manga com o Marllon. Aquilo externou para o torcedor algo que é normal no futebol. Sabemos que os jogadores nem sempre são amigos e nem sempre estão se abraçando. Mas, internamente, como vocês trabalham com essa questão de controlar o vestiário em situações como a que o Remo vive hoje, estamos há oito jogos sem vencer no Brasileiro, na zona de rebaixamento e não consegue voltar a vencer. Como controlar este vestiário? 

LVV: Quando existe respeito e querer o bem do clube, não para si próprio, individualidades ou egoísmos e vaidades, eu acho que é uma crítica construtiva. Eu aceito, se qualquer um vier aqui e 'Luís, o teu trabalho não está bom por isso, por isso, por isso', eu vou absorver aquilo, vou ver, refletir. Lógico que a decisão final vai ter que ser minha porque eu que sou responsável pela decisão, mas eu escuto e analiso. Então acho que todo mundo tem que fazer isso. Os jogadores da mesma forma. Quando não há agressão física, xingamento, ofensas e há uma cobrança dentro do vestiário, isso é normal no futebol. Time que não se cobra não ganha de ninguém. Tanto da comissão para cobrar os jogadores, quanto a diretoria cobrar a comissão, cobrar os jogadores, quanto a torcida cobrar também o time, acho que faz parte, todo mundo quer ganhar. Isso não me preocupa. O que me preocupa é vazar as coisas de dentro do vestiário para fora. Isso me preocupa muito mais do que qualquer coisa porque tem muita coisa que acontece ali, você resolve ali. As coisas que acontecem dentro da casa, tu resolve lá. Agora, quando se interna isso, tu cria um ambiente de desconfiança por parte do jogador. E isso não faz bem para ninguém. 

OL: Vivian fica para 2027? 

LVV: O meu contrato encerra no final do campeonato. Ninguém me procurou para conversar sobre isso, mas também para mim não é o mais importante agora. É a gente, dia a dia, ir melhorando em todos os sentidos e buscar as vitórias que a gente está precisando.