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Entre laços e medalhas: Tia e sobrinho dividem pódio mundial e paixão pelo judô

Rosângela Ribeiro levou Rafael ao judô ainda criança; anos depois, os dois dividiram o pódio no Mundial de Veteranos, em Sarajevo, e agora ajudam uma nova geração da família a entrar no esporte.

Fábio Will e Caio Maia

4 de outubro de 2026 às 08:00

Rosângela e Rafael, tia e sobrinho, medalhistas em mundial de judô

Rosângela e Rafael, tia e sobrinho, medalhistas em mundial de judô ( Foto: Igor Mota/ O Liberal )

O judô entrou na vida de Rafael Ribeiro quando ele ainda era criança. Aos oito anos, levado pela tia, Rosângela Ribeiro, ele deu os primeiros passos no tatame. Mais de duas décadas depois, a relação que começou com uma tia conduzindo o sobrinho aos treinos ganhou novos capítulos: os dois passaram a dividir competições, treinamentos e, mais recentemente, um pódio mundial.

Em Sarajevo, na Bósnia e Herzegovina, Rosângela conquistou o pentacampeonato mundial da Classe Veteranos, aos 48 anos. Rafael, na categoria M1, garantiu a medalha de bronze e chegou ao quinto ano consecutivo entre os medalhistas do Mundial. O resultado dos dois, no entanto, representa mais do que duas conquistas individuais. É a consequência de uma trajetória construída em família e que já começa a alcançar uma nova geração.

A primeira ligação de Rafael com o esporte aconteceu justamente por influência da tia. Rosângela já vivia o judô e levou o sobrinho para os treinamentos quando ele ainda era menino. O que começou como uma atividade de infância se transformou em carreira, até Rafael passar a acompanhar Rosângela também nas competições internacionais.

“Eu fico feliz dele me acompanhar nas competições. Há cinco anos ele tem ido pros mundiais. O judô entrou na família pela escola. Quando ele era criança, já levava ele pros treinos e, aos oito anos, ele deu o pontapé inicial no judô”, conta Rosângela.

Parceria nos treinos

Rafael e Rosângela são parceiros de treino
Rafael e Rosângela são parceiros de treino (Igor Mota/ O Liberal)

A parceria, entretanto, mudou com o passar dos anos. Quando Rafael era menor, os dois conseguiam dividir os combates nos treinamentos. Hoje, com o sobrinho mais alto e em uma categoria de peso superior, a disputa direta ficou para trás. A função de Rafael passou a ser outra: ajudá-la na preparação para as competições.

“Antigamente eu conseguia treinar com ele, quando ele era menor, mais magrinho. Hoje ele ganhou corpo, altura e está muito forte, acima da minha categoria de peso. A gente treina movimentos específicos, mas o combate não consigo mais”, brinca Rosângela.

Mesmo sem o confronto direto, a parceria permanece. Rafael treina com homens e, segundo ele, essa experiência também ajuda na preparação da tia para enfrentar adversárias de outras características físicas. Nos Mundiais, a relação familiar ainda ganha uma função técnica. Em duas lutas de Rosângela, Rafael esteve no papel de treinador.

Nervosismo toma conta dos torneios

Rosângela foi pentacampeã mundial de judô
Rosângela foi pentacampeã mundial de judô (Igor Mota/ O Liberal)

Na campanha do pentacampeonato, a experiência foi especialmente marcante. Depois de vencer uma adversária francesa e outra da República Tcheca, Rosângela chegou à decisão contra uma judoca russa. Rafael esperava uma final rápida e até brincou com a necessidade de acompanhá-la devidamente vestido.

“Nas finais eu precisava vestir uma beca completa na decisão, para acompanhá-la, mas pensei: ‘não vou comprar uma beca nova aqui na Europa pra tua luta porque ela só vai durar 10 segundos’. Até que a luta pra final foi bem dura, mas ela conseguiu vencer”, lembra Rafael.

O nervosismo, porém, não é exclusividade de quem está dentro do tatame. Rosângela também acompanha as lutas do sobrinho com a tensão de quem conhece as dificuldades do esporte e sabe exatamente o que está em jogo. Do lado de fora, ela torce, sofre com as derrotas e comemora cada conquista como se fosse sua.

“Eu fico bem nervosa quando ele vai lutar, chateada quando ele perde, sobretudo quando vejo que ele tinha condições. Lá embaixo ele não ouve nada, mas lá em cima fico torcendo, porque sempre quero ver ele no pódio”, diz.

Terceira geração

Família quer levar o judô para a terceira geração
Família quer levar o judô para a terceira geração (Igor Mota/ O Liberal)

Na família, o caminho já começa a se repetir. A filha de Rosângela e a filha de Rafael também praticam judô. O cenário faz com que os dois atletas enxerguem no tatame não apenas uma possibilidade de competição, mas um espaço de convivência que atravessa gerações.

“Eu sempre imaginei meus filhos treinando judô, competindo comigo. Já me imaginei sendo treinadora deles, mas deixo eles livres pra escolher. Hoje acho que o mais importante é eles estarem praticando esporte”, afirma Rosângela.

Rafael também prefere não antecipar o que o futuro reserva para a filha. Para ele, a principal herança do judô não está necessariamente nas medalhas, mas nos valores que o esporte pode deixar para quem passa pelo tatame.

“Primeiro que o judô vai muito além da luta. O esporte foi criado como uma ferramenta de educação do ser humano. Fico feliz de estar dando continuidade disso. A Rosângela tem a filha dela como atleta, eu tenho minha filha também. O resultado só o futuro vai nos dizer”, destaca.

Futuro na categoria

Rafael tem competições marcadas para a temporada de 2027
Rafael tem competições marcadas para a temporada de 2027 (Igor Mota/ O LIberal)

O bronze conquistado por Rafael em Sarajevo teve um significado especial. Além de manter a sequência de cinco anos consecutivos no pódio mundial, a medalha encerrou seu ciclo na categoria M1. 

Agora, o desafio será voltar ao sênior, categoria que integra a modalidade olímpica. O paraense pretende disputar o Campeonato Brasileiro Sênior e retomar a rotina de treinamentos depois de um breve período de descanso.

Rosângela conhece essa dificuldade, mas também conhece o significado de chegar novamente ao topo. O Mundial de Sarajevo foi sua única competição após a reconstrução do ligamento cruzado anterior. Foram cinco meses até voltar aos treinamentos e apenas um mês de preparação específica antes do torneio. Agora, ainda em recuperação, ela pretende voltar a competir no interior do Pará e planeja disputar o calendário completo na próxima temporada.

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