QUI · 15 OUT 2026Assine
O Liberal 80 anos

Conselho

Infantino se desculpa, mas é cobrado por conselheiros em reunião da Fifa

Apesar de se desculpar na presença de dirigentes de todas as entidades mundiais, Infantino ainda sofre forte pressão da Europa, Ásia e até Concacaf para abrir mão do cargo, o que ele desconsidera

Estadão Conteúdo

15 de outubro de 2026 às 15:36

Gianni Infantino

Gianni Infantino ( Foto: Instagram @gianni_infantino )

A reunião do Conselho da Fifa em Zurique não foi da maneira que Gianni Infantino imaginava, nesta quinta-feira. De olho no quarto mandato, o presidente da entidade pediu desculpas pelo fracassado plano de vender participações comerciais da Copa do Mundo, o programa Fifa Forward Enterprise (FFE), e mesmo assim foi bastante cobrado por não dar explicações claras, ouvindo que no momento "não está apto para liderar."

Foram três horas e meia de reunião na sede da Fifa. Apesar de se desculpar na presença de dirigentes de todas as entidades mundiais, Infantino ainda sofre forte pressão da Europa, Ásia e até Concacaf para abrir mão do cargo, o que ele desconsidera. Após o debate, o mandatário evitou atender a imprensa, optando por um comunicado gravado.

"Antes de mais nada, peço desculpas pelos erros que cometemos em relação ao processo de comunicação e consulta referente ao projeto Fifa Forward Enterprise, que acarretaram diversas consequências", disse Infantino na gravação divulgada nas páginas oficiais da Fifa. "Mas é importante lembrar que se tratava de uma proposta, e não de um acordo fechado, que tinha como objetivo permitir que a Fifa investisse mais em suas associações membro, em vez de substituir o apoio proveniente de recursos já existentes", se defendeu.

O dirigente anda visitando o planeta em busca de apoio - o continente africano é quem dá o maior respaldo ao dirigente. "Após finalmente retirar essa proposta, o presidente Gianni Infantino pediu desculpas aos membros do Comitê Executivo. Seguiu-se um debate responsável, durante o qual a questão foi, de certa forma, deixada de lado. Acredito que, no interesse do futebol, o Comitê Executivo está olhando para o futuro e buscando soluções - acima de tudo, com uma atitude positiva -, concentrando-se nos aspectos positivos que o futebol tem a oferecer hoje e tentando seguir em frente", afirmou Ahmed Yahya, membro do Conselho da Fifa e presidente da Federação Mauritana de Futebol, um dos fortes apoiadores do atual gestor e tentando pregar a paz.

O encontro na capital suíça era apenas para tratar da concessão de aproximadamente R$ 125,6 milhões a todas as associações, medida que visava amenizar a cobrança dos opositores e possível apenas após a ampliação de seleções na Copa do Mundo. O plano envolve uma bagatela de US$ 6 bilhões (cerca de R$ 30,16 bilhões) para o desenvolvimento do futebol entre 2027 e 2030, um valor 25 vezes maior do anterior, disponível há uma década. Os dirigentes europeus, porém, não queriam saber de dinheiro e saíram insatisfeitos com a falta de muitas respostas.

"Foi uma reunião mais robusta, franca e aberta. Uma das coisas decepcionantes é que não obtivemos respostas para nada do que solicitamos especificamente. Por exemplo, obter os documentos da FFE", reclamou Debbie Hewitt, presidente da Federação Inglesa de Futebol (FA) e vice na Fifa, à BBC Sports.

"Eu perguntei e nos pediram para enviar essas perguntas por escrito. Acho que esse homem precisa responder a essas perguntas e, se não as responder agora, não está apto para ser presidente da Fifa. E foi isso que foi discutido na reunião", revelou. "Já pedi repetidamente que os documentos fossem compartilhados. Não os recebi e, apesar do pedido de hoje, ainda não os recebi."

A pressão de um lado contrasta com a apoio do outro, sobretudo das entidades africanas, mais pobres e satisfeitas com as medidas anunciadas por Infantino.

"Já afirmei que o presidente Gianni Infantino está impulsionando o futebol em todo o mundo. Venho do continente africano e sei do que estou falando. Ele quer promover o futebol e deseja que todos participem", defendeu Ahmed Yahya, reconhecendo uma dura convivência de Infantino com os europeus.

"Veja bem, uma das coisas boas do futebol é a sua democracia. Quanto aos europeus, alguns têm uma opinião, outros não. É verdade que nossos amigos, nossos irmãos europeus, desejam reformas na Fifa, mas nós também defendemos que, se é para realizar reformas na Fifa, elas precisam ocorrer em todos os níveis (associações, confederações e própria entidade)", explicou.

Infantino mostrou-se disposto a reformas e aprimoramentos no futebol sem abrir mão de ser o responsável por gerir tais modificações. Ele ainda prometeu responder todos os questionamentos "em tempo oportuno."

"Como tem sido dito muitas vezes desde 2016, o dinheiro da Fifa, incluindo as suas reservas, pertence às 211 Associações-Membros, e a proposta de aumentar o investimento em todas as Associações-Membros, confederações e outras partes interessadas para 6,35 mil milhões de dólares visa reforçar o nosso compromisso inabalável de continuar a apoiar o desenvolvimento do futebol e o acesso a nível global, graças ao extraordinário resultado financeiro do Campeonato do Mundo da Fifa de 2026", declarou Infantino ao site da Fifa, sobre a reunião e se esquivando das polêmicas.

"Em dez anos desde que me tornei presidente da Fifa, passamos de um milhão de dólares por Associação-Membro para 25 milhões de dólares para cada uma, em todo o mundo. Ao mesmo tempo, gostaria de agradecer a todos os que apresentaram sugestões ao longo dos últimos meses sobre a distribuição dos fundos às nossas 211 Associações-Membros, uma vez que precisamos olhar para o futuro num espírito de unidade e no melhor interesse do futebol."