Pioneirismo e representatividade. Talvez essas sejam as melhores palavras para traduzir a importância do Gavião Kyikatejê, primeiro clube de futebol formado por indígenas a chegar à divisão de elite de um torneio estadual. A equipe, sediada em Bom Jesus do Tocantins, município do sudeste do Pará, está longe da Primeira Divisão do Parazão desde 2021, mas segue sendo exemplo de luta e resistência dos povos originários do Brasil.
Em alusão ao Dia dos Povos Indígenas, comemorado no Brasil no dia 19 de abril, o Núcleo de Esportes de O Liberal conversou com Jakure Pepkrakte, mais conhecido como "Zeca Gavião", presidente do clube. Na entrevista, o mandatário da equipe disse que o Kyikatejê ainda tem como prioridade o futebol profissional masculino. No entanto, a visibilidade adquirida nos últimos anos fez com que a equipe expandisse, criando times nas categorias de base e no futebol feminino.
"A gente está se preparando pro campeonato da Segunda Divisão deste ano. Além disso, estamos Copa Pará Sub-20, onde ganhamos dois jogos, empatamos um e perdemos outro. No feminino é mais complicado, porque é difícil juntar as meninas. Elas têm dificuldade de jogar porque a maioria delas é mãe e não temos uma categoria de base do futebol feminino. A maioria vem mesmo jogar por amor ao esporte. Apesar disso, estamos trabalhando para criar um time feminino para jogar o Campeonato Paraense", explicou.
O amor ao esporte, citado por Zeca Gavião, parece ser uma das poucas coisas que incentivam o clube para a permanência no profissionalismo. Segundo ele, o Kyikatejê sofre com várias dificuldades em relação à logística em épocas de competições.
"A mesma dificuldade de um clube pequeno do interior, ainda mais sendo um clube indígena. Não temos apoio nenhum. A gente dá o nosso jeito aqui de bancar alimentação e estadia dos atletas. Agora no Sub-20, a maioria já transfere a escolaridade para dentro da comunidade, alguns não indígenas. Eles já estudam aqui, ficam por aqui mesmo, porque alguns que a gente percebe que vai dar certo para o profissional. Mas as dificuldades são grandes, muito grandes para nós, tudo é complicado para o indígena. Aí fica ruim para conseguir patrocínio, tudo a gente não tem", lamentou.
As categorias de base, entretanto, parece ser a grande garantia de futuro da equipe. Segundo Zeca Gavião, os times não-profissionais tem desempenhado boas campanhas em torneios juvenis. O desempenho só não é melhor, de acordo com o presidente, devido ao número reduzido de potenciais atletas na comunidade.
"Na nossa base está funcionando agora só o Sub-20 e estamos aguardando o campeonato Sub-17. A categoria de base menor a gente ainda não está trabalhando. Pra eles, o foco é no colégio mesmo, nas aulas de educação física. A gente até trabalhou um ano passado com a categoria de base dentro da nossa comunidade, só que a nossa aldeia não tem um contingente muito grande de atletas. Nisso, outras aldeias vinham trazer seus filhos, só que as coisas começaram a apertar e eles foram desistindo. Ficomos com poucos atletas e demos uma pausa nas categorias de base de 17 anos para baixo", contou.
História

Fundada na década de 1980, o Gavião era uma equipe tradicional do futebol amador do sudeste do Pará, tendo disputado cinco finais do campeonato marabaense, ganhando três destas. Com os bons resultados na liga municipal, o povo Gavião decidiu profissionalizar o time em 2009 junto a Federação Paraense, adotando o nome de Gavião Kyikatejê.
Em 2013 o time alcançou ótimos resultados: primeiro na Segunda Divisão, onde terminou em 2º colocado avançando para divisão de acesso; e na Seletiva do Parazão, desqualificando equipes tradicionais do estado, e avançando a elite estadual em 2014.
