Recorde de satisfação no trabalho: o que explica a alta em meio a desafios econômicos?
Pesquisa aponta que 78,1% dos trabalhadores estão satisfeitos com o emprego atual; fatores como segurança no emprego e valorização da qualidade de vida são fundamentais para o cenário
A oitava edição dos Indicadores de Qualidade do Trabalho, divulgada pela Sondagem de Mercado de Trabalho (SMT) do FGV Ibre, trouxe uma surpresa para os estudiosos do mercado: 78,1% dos trabalhadores brasileiros se declararam "satisfeitos" ou "muito satisfeitos" com seus empregos. Esse índice, o maior desde o início da pesquisa em 2025, ocorre em um contexto ainda marcado por desafios econômicos e incertezas no cenário político e social.
Embora o número de satisfeitos tenha atingido um recorde, a pesquisa revela que a remuneração continua sendo um ponto de insatisfação significativo para os trabalhadores. O levantamento aponta que 60,5% dos insatisfeitos mencionam os salários como principal fator de descontentamento. No entanto, a satisfação com outros aspectos do trabalho, como a estabilidade no emprego e as políticas de bem-estar organizacional, parece pesar mais positivamente na percepção geral.
Segurança no emprego e valorização do bem-estar
Segundo Nélio Bordalo, economista e membro do Corecon-PA/AP (Conselho Regional de Economia do Pará e Amapá), a percepção mais positiva dos trabalhadores pode ser explicada por uma série de fatores econômicos.
“A melhora das condições do mercado de trabalho nos últimos trimestres, como a queda da taxa de desemprego e o aumento da estabilidade no emprego, contribuem diretamente para essa mudança na percepção. Além disso, o crescimento da renda real e a redução da insegurança quanto à manutenção do emprego desempenham um papel importante nesse cenário mais otimista”, explica.
Genardo Oliveira, economista paraense, complementa, destacando que a geração de empregos formais em 2025 também é um fator relevante.
“A expansão do emprego formal foi significativa, especialmente em setores que oferecem maior segurança e benefícios para os trabalhadores. Isso, aliado a políticas sociais e a valorização da renda, ajudou a reduzir a insegurança financeira de muitos”, afirma.
O sentimento de estabilidade, refletido na queda da taxa de insatisfação para 6,1%, é um dos principais fatores que explicam a melhoria na percepção dos trabalhadores, mesmo em um cenário econômico ainda desafiador.
O impacto da remuneração: tensão no cenário
Apesar de os números de satisfação serem altos, a remuneração continua sendo um ponto delicado. Para Anna Padinha, gerente de Recursos Humanos e Diretora da Associação Brasileira de Recursos Humanos do Estado do Pará (ABRH-PA), as empresas têm se esforçado para melhorar as condições de trabalho, oferecendo mais flexibilidade e atenção à saúde mental, mas a questão salarial ainda precisa de ajustes.
“O RH tem atuado como uma ponte entre os candidatos e as lideranças empresariais, trazendo dados de mercado e insights para tornar as vagas mais competitivas e ajudar na retenção de talentos. No entanto, as empresas ainda precisam lidar com os desafios orçamentários e a revisão de estruturas salariais”, comenta Anna.
No entanto, como destaca Bordalo, a insatisfação com os salários pode se tornar um fator limitante a médio prazo.
"Embora as condições atuais sejam vistas como favoráveis em comparação a períodos anteriores, se a remuneração não crescer de forma consistente, a insatisfação com o salário pode ganhar peso, especialmente em um contexto de aumento do custo de vida”, alerta.
Mudança nas expectativas: o que esperar no futuro?
Embora o aumento da satisfação esteja relacionado a melhorias estruturais no mercado de trabalho, como o aumento da empregabilidade formal e políticas de valorização da saúde e bem-estar, o principal desafio segue sendo o salário. Genardo Oliveira aponta que o fator mais relevante para a percepção positiva é a estabilidade no emprego.
"O aumento da satisfação no trabalho não está apenas relacionado à recuperação do emprego, mas à estabilidade e à qualidade das vagas. A sensação de continuidade e segurança tem mais peso na avaliação dos trabalhadores do que a simples geração de novos postos de trabalho", destaca.
Satisfação na prática: relatos de belenenses reforçam peso da estabilidade e da realização pessoal
Se os dados da pesquisa da FGV Ibre apontam para um recorde de satisfação, as histórias de trabalhadores em Belém ajudam a ilustrar como estabilidade, propósito e equilíbrio entre vida pessoal e profissional têm influenciado essa percepção.
O personal trainer Vinícius Guimarães afirma que vive um momento de realização.
“Extremamente satisfeito por trabalhar fazendo o que eu amo e poder ajudar pessoas a viver uma vida sem dores no corpo por meio do exercício físico”, relata.
Para ele, o sentido do trabalho vai além da remuneração e está diretamente ligado ao impacto positivo na vida dos alunos.
Sobre o salário, Vinícius diz que a realidade superou as expectativas iniciais. “Sim, atende as minhas necessidades no momento. Sobre as expectativas, confesso que foi uma surpresa, tinha um teto em mente, mas a minha área de atuação se mostra cada vez mais importante na sociedade e as expectativas agora são as melhores possíveis em relação a salário”, afirma.
Ele também destaca a importância do equilíbrio entre as diferentes dimensões da vida.
“Já priorizei bem mais a vida profissional do que a pessoal. Mas, hoje sei que esse equilíbrio precisa sempre estar presente nas nossas vidas e consigo manter tranquilamente”, completa.
A percepção de estabilidade também aparece com força no relato da servidora pública Keila Vale. “Satisfeita porque como funcionária pública tenho estabilidade e algumas vantagens que a CLT não tem, como carga horária menor”, diz.
No entanto, assim como indica a pesquisa, a remuneração segue como ponto sensível.
“O salário poderia ser melhor, pra ganhar mais tenho de tirar, fazer extra”, reconhece.
Por outro lado, a carga horária reduzida contribui para a qualidade de vida. “Como a carga horária é menor, tenho tempo pra vida pessoal, para estudar etc.”, afirma.
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