O tradicional roteiro profissional "estudar, trabalhar e se aposentar pouco depois dos 60 anos” que moldou o mercado de trabalho brasileiro por gerações, vem sendo substituído pela perspectiva de permanecer economicamente ativo por mais tempo, por necessidade financeira ou por escolha, de fato. Em Belém, profissionais do mercado de trabalho apontam que esse modelo mais rígido de estudar, trabalhar e se aposentar, vem perdendo espaço de forma definitiva para trajetórias mais fluidas, marcadas pela flexibilidade e pela transição entre múltiplas carreiras ao longo da vida economicamente. “Ele não só deixou de ser a única regra, como ficou obsoleto para a maioria. A ideia da carreira linear de entrar numa empresa aos 20 e sair de lá aposentado aos 65 pertence a um mundo com menor expectativa de vida e transformações tecnológicas muito mais lentas”, assegura Érica Figueiredo, que tem 11 anos de atuação profissional com seleção de profissionais no setor privado, na capital paraense. Érica afirma: ”Hoje vivemos o conceito de ‘carreira em portfólio’. A expectativa de vida aumentou, o mercado mudou na velocidade de um clique e as pessoas buscam propósito, não apenas estabilidade financeira. O ciclo agora é contínuo: aprender, aplicar, desaprender, reinventar e recomeçar”. Como profissional do mercado de RH, Érica avalia como positiva a atitude do profissional que decide mudar radicalmente de área ou iniciar uma nova carreira após os 40 ou 50 anos. “Eu vejo essas movimentações com muito entusiasmo, e sim, elas estão acontecendo com uma frequência cada vez maior”. "No RH, chamamos isso de maturidade profissional aliada à coragem de reinvenção. Um profissional de 40 ou 50 anos traz algo que a inteligência artificial ou um recém formado ainda não têm: inteligência emocional lapidada pela bagagem de vida, resiliência e bagagem de resolução de problemas (soft skills)”. Ela observa, por exemplo, que “o mercado já entende que quem muda de área nessa fase não está ‘começando do zero’, mas sim transferindo um repertório gigante de habilidades para um novo contexto. As empresas que ignoram essa riqueza de diversidade etária (prática ainda existente, infelizmente) estão perdendo talentos brilhantes”. Sobre as principais estratégias que um profissional deve adotar hoje para garantir uma melhor empregabilidade, pensando a longo prazo, Figueiredo, afirma: “A empregabilidade não é sobre garantir o emprego de amanhã, mas garantir que você continue sendo desejado pelo mercado. Para isso, vemos muito os três pilares’, diz. Ela cita a construção de rede (Networking); e afirma que relacionamento não é só pedir indicação quando se fica desempregado. “É trocar conhecimento, participar de comunidades e ser visto. Também é vital criar uma marca pessoal. O mercado precisa saber o que você faz bem. Produza conteúdo, compartilhe aprendizados no LinkedIn, posicionar-se como referência, e ter flexibilidade cognitiva, que é a capacidade de se adaptar a novos cenários e metodologias sem apegar-se ao "sempre fiz assim". Questionada sobre o fato de a qualificação contínua ter se tornado uma obrigação, Érica nem titubeia, ao afirmar: “Podemos dizer que se tornou condição de sobrevivência, pois o termo técnico para isso é Lifelong Learning (aprendizado ao longo da vida)”. O conhecimento hoje tem "data de validade" curta. O que aprendemos na faculdade há 10 ou 15 anos provavelmente já mudou ou se automatizou, se qualificar continuamente deixou de ser aquele diploma a mais para colocar no currículo e passou a ser o ar respirável da vida profissional. Quem para de aprender, estatisticamente, começa a se aposentar do mercado sem perceber". “Um ponto importante é fazer o teste da automação: tudo o que fazemos de forma repetitiva e operacional será feito por sistemas ou IA. Focar em desenvolver habilidades que exigem julgamento humano, estratégia, criatividade e negociação. Pesquisar vagas da área no LinkedIn (em empresas de referência). Listar os requisitos que ainda não domina, focar no que gera impacto, dividir os estudos entre aprofundar o que já faz (usando novas tecnologias) e diversificar adquirindo uma habilidade complementar (como análise de dados ou gestão de projetos), isso tudo são domínios e comportamentos estratégicos para a longevidade exitosa da carreira profissional”, ensina a profissional de RH.