O Pará tinha 344 mil pessoas de 15 a 29 anos que trabalhavam e estudavam simultaneamente em 2025, segundo dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (Pnad Contínua) do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). O número faz parte de um cenário nacional em que 15,5 milhões de brasileiros conciliavam emprego e formação no ano passado, um crescimento de 27% em relação a 2019. Moradora do bairro do Coqueiro, em Ananindeua, na Região Metropolitana de Belém (RMB), a enfermeira Kelem Barros, de 28 anos, conhece de perto os desafios de conciliar profissão e estudos. Ela cursava Direito enquanto trabalhava em dois empregos e chegou a enfrentar uma rotina em que praticamente todo o dia era ocupado por trabalho, deslocamento, aulas e atividades acadêmicas. “Quando iniciei o curso, estava trabalhando em dois locais, ou seja, 24 horas direto. Saía de manhã do trabalho e ia para casa dormir um pouco. Nesse contexto, dormir muito não é uma opção”, relata. O formato híbrido do curso ajudava na organização da rotina, permitindo que Kelem aproveitasse alguns períodos para estudar e fazer trabalhos. O objetivo era mudar de carreira, mas a combinação de jornadas acabou se tornando difícil de sustentar. Após enfrentar um período de esgotamento relacionado ao trabalho, ela decidiu reduzir a carga profissional e interrompeu temporariamente a graduação. Atualmente, Kelem mantém apenas um emprego e retomou os estudos, mas mudou de estratégia. A faculdade de Direito está em pausa e ela passou a se preparar para uma carreira policial. “Hoje em dia é muito mais fácil, muito mais tranquilo, porque eu trabalho um dia e folgo no outro. As aulas são noturno. Eu saio de casa, vou para o plantão, do plantão vou para o curso e retorno para casa. No outro dia, tenho o dia todo livre para conseguir estudar”, explica. Rotina dividida Em Belém, Bárbara Ferreira, de 26 anos, residente no bairro da Cidade Velha, também organiza o dia em torno de diferentes compromissos. Estudante de Fisioterapia, ela é atleta de remo olímpico, estagiária de técnica de enfermagem e ainda trabalha à noite em uma lanchonete. A rotina começa às 5h30, com o treino. Depois, ela dedica a manhã aos estudos, antes de seguir para o estágio durante a tarde. “Meu horário de estudo está sendo durante a manhã depois que saio do treino, que começa às 5h30 e termina às 8h. Eu estudo das 8h30 até as 11h, assisto às aulas e faço as atividades e depois vou para o estágio”, conta. O trabalho noturno pesa principalmente nos fins de semana, quando Bárbara termina a jornada à meia-noite e precisa acordar poucas horas depois. Ainda assim, ela mantém o objetivo de concluir a formação. “A minha estratégia para não abandonar o curso é sempre pensar que preciso ter um futuro melhor e que é uma profissão de que gosto. Por mais cansativo que seja, é um esforço que vai valer a pena no final”, afirma. Perfil Entre os paraenses de 15 anos ou mais que estudavam em 2025, 420 mil estavam ocupados, enquanto 679 mil não tinham trabalho. Os dados da Pnad Contínua Educação mostram, portanto, que uma parcela expressiva dos estudantes precisa conciliar a formação com uma atividade profissional. O IBGE, porém, esclarece que as bases disponíveis não permitem cruzar simultaneamente a condição de estudante, o curso frequentado e o setor de atividade profissional. Por isso, não é possível apontar exatamente quais cursos são feitos pelos trabalhadores-estudantes ou em quais áreas eles estão empregados. Os dados da Pnad Contínua ajudam a dimensionar o mercado em que esse público está inserido. Em 2025, o Pará tinha 3,761 milhões de pessoas de 14 anos ou mais ocupadas. O comércio, com 771 mil trabalhadores, era o maior grupo de atividade econômica do Estado. Na sequência, aparecem administração pública, defesa, seguridade social, educação, saúde humana e serviços sociais, com 628 mil ocupados; agricultura, pecuária, produção florestal, pesca e aquicultura, com 544 mil; indústria geral, com 457 mil; e construção, com 310 mil. Também aparecem informação, comunicação e atividades financeiras, imobiliárias, profissionais e administrativas, com 240 mil trabalhadores; alojamento e alimentação, com 215 mil; transporte, armazenagem e correio, com 194 mil; e outros serviços, com 192 mil. Áreas de formação O Censo Demográfico 2022 ajuda a traçar o perfil das áreas de formação superior mais presentes entre os paraenses. Naquele ano, o Estado tinha 601.096 pessoas com pelo menos a graduação concluída. Negócios, Administração e Direito reuniam 150.079 pessoas, o maior contingente. Educação vinha em seguida, com 140.546, enquanto Saúde e Bem-Estar somavam 102.326. Artes e Humanidades tinham 46.714 pessoas com graduação concluída, e Engenharia, Produção e Construção, 44.907. Os números não correspondem necessariamente aos cursos frequentados atualmente pelos trabalhadores-estudantes, mas ajudam a contextualizar as áreas de formação superior mais comuns no Estado. Sem um cruzamento que permita identificar individualmente profissão, curso e situação de estudo, os dados não revelam um retrato completo dos trabalhadores-estudantes paraenses. As histórias de Kelem e Bárbara, porém, mostram como a busca por qualificação pode exigir uma reorganização constante da rotina e, em alguns casos, mudanças na própria trajetória profissional.