A população negra representa 81,1% dos trabalhadores ocupados no Pará, mas ainda enfrenta desigualdades no mercado de trabalho, principalmente em relação à renda e à formalização. No segundo trimestre de 2026, o rendimento médio mensal desse grupo foi de R$ 2.300, enquanto entre os trabalhadores não negros chegou a R$ 3.391, uma diferença de R$ 1.091. Além disso, 58% dos negros ocupados estavam na informalidade e a mesma proporção recebia até um salário mínimo (R$ 1.621).
Os dados são de um levantamento do Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (Dieese/PA), com base na Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (PNAD Contínua), do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). O estudo considera a população negra as pessoas autodeclaradas pretas ou pardas e compara os indicadores com os trabalhadores brancos e amarelos.
No Pará, 81,4% da população era negra no período analisado. Entre os ocupados, os pardos correspondiam a 69,5%, enquanto os pretos representavam 11,7%. A participação dos negros no mercado de trabalho variava conforme a localização: chegava a 84,3% na Foz do Rio Amazonas, 82,7% no Baixo do Rio Amazonas e 80,3% no Sudeste Paraense. Em Belém, o percentual era de 76,4%.
Apesar de constituírem a maioria dos trabalhadores, os negros permanecem em desvantagem na remuneração. Entre 2016 e 2026, o rendimento médio desse grupo aumentou 21,1%, passando de aproximadamente R$ 1.899 para R$ 2.300. Entre os não negros, a alta foi de 20,3%, com os ganhos passando de R$ 2.819 para R$ 3.391.
Mesmo com crescimento proporcional ligeiramente maior, os trabalhadores negros tiveram um aumento menor em valores absolutos: cerca de R$ 401, contra R$ 572 entre os não negros. Com isso, a diferença mensal entre os rendimentos passou de aproximadamente R$ 919 para R$ 1.091.
Desigualdade também aparece entre homens e mulheres
A diferença salarial fica ainda mais evidente quando são considerados, conjuntamente, sexo e raça. As mulheres negras tinham o menor rendimento médio entre os quatro grupos analisados, com R$ 2.185 por mês. Os homens negros recebiam R$ 2.368, enquanto as mulheres não negras tinham média de R$ 3.139. No topo da comparação estavam os homens não negros, com R$ 3.569.
Na prática, as mulheres negras recebiam 38,8% menos que os homens não negros, uma diferença de aproximadamente R$ 1.384 mensais.
A desigualdade também aparece na distribuição dos salários. Mais da metade dos trabalhadores negros ocupados no estado (58%) recebia até um salário mínimo, percentual superior aos 46% registrados entre os não negros.
Na Foz do Rio Amazonas, a proporção de negros nessa faixa de rendimento chegava a 69%. No Baixo do Rio Amazonas, era de 61%. Mesmo em Belém, onde os rendimentos médios eram os mais elevados do levantamento, 49% dos trabalhadores negros recebiam até um salário mínimo, contra 34% dos não negros.
Informalidade é maior entre trabalhadores negros
Outro indicador que evidencia a desigualdade é a informalidade. No segundo trimestre de 2026, 58% dos trabalhadores negros ocupados estavam em atividades informais, ante 49% dos não negros. A diferença era de nove pontos percentuais.
A situação era mais acentuada na Foz do Rio Amazonas, onde a informalidade atingia 68% dos trabalhadores negros. No Baixo do Rio Amazonas, chegava a 64%, contra 47% entre os não negros. Em Belém, os percentuais eram de 47% e 40%, respectivamente.
Já a taxa de desocupação apresentava uma diferença menor entre os grupos. Entre os negros, era de 6,3%, enquanto entre os não negros ficava em 5,8%. Em comparação com 2016, houve redução nos dois indicadores: a taxa dos negros caiu de 11,2% para 6,3%, e a dos não negros passou de 10,1% para 5,8%.
Desigualdade vai além do acesso ao emprego
Para o supervisor técnico do Dieese/PA, Everson Costa, os números mostram que a participação expressiva da população negra no mercado de trabalho não significa igualdade de condições.
“Embora a população negra represente a grande maioria dos trabalhadores ocupados no Pará, isso ainda não se traduz em igualdade de renda, qualidade das ocupações e proteção social”, afirma.
Segundo ele, a proximidade entre as taxas de desocupação não elimina as diferenças existentes nas condições de trabalho. “Mesmo com a redução do desemprego ao longo dos anos e a aproximação das taxas entre negros e não negros, ainda persistem diferenças expressivas nos rendimentos e na informalidade, com desvantagens ainda maiores para as mulheres negras”, destaca.
Everson Costa avalia que a redução dessas desigualdades depende de medidas que melhorem não apenas a quantidade de vagas disponíveis, mas também as condições oferecidas aos trabalhadores.
“Enfrentar esse quadro exige políticas públicas que combinem geração de empregos de qualidade, valorização salarial, qualificação profissional e ampliação da proteção social, acompanhadas de ações de combate ao racismo e à discriminação no trabalho”, afirma.
Para o supervisor, a redução das desigualdades raciais no mercado de trabalho também é fundamental para melhorar as condições de vida da população paraense. “Reduzir essas desigualdades significa melhorar as condições de vida da maioria dos trabalhadores e distribuir de forma mais justa os resultados do desenvolvimento econômico”, conclui.
Dados da pesquisa do Dieese/PA sobre a população negra no mercado de trabalho paraense
2º TRIMESTRE DE 2026 | FONTE: DIEESE/PA E PNAD CONTÍNUA/IBGE
Participação no mercado de trabalho
- 81,1% dos trabalhadores ocupados no Pará são negros (pretos e pardos).
- A população negra representa 81,4% dos habitantes do estado.
- Pardos correspondem a 69,5% dos ocupados; pretos, a 11,7%.
- Participação de negros entre os ocupados por área:
- Foz do Rio Amazonas: 84,3%.
- Baixo do Rio Amazonas: 82,7%.
- Sudeste Paraense: 80,3%.
- Entorno metropolitano de Belém: 78,5%.
- Belém: 76,4%.
Rendimento médio mensal
- Trabalhadores negros: R$ 2.300.
- Trabalhadores não negros: R$ 3.391.
- Diferença: R$ 1.091 a menos por mês para os negros.
- O rendimento dos negros é 32,2% inferior ao dos não negros.
- Entre 2016 e 2026, a renda média dos negros cresceu 21,1%, enquanto a dos não negros aumentou 20,3%.
- Apesar disso, a diferença absoluta de rendimento aumentou de R$ 919 para R$ 1.091.
Desigualdade salarial por sexo e raça
- Mulheres negras: R$ 2.185 (menor rendimento médio).
- Homens negros: R$ 2.368.
- Mulheres não negras: R$ 3.139.
- Homens não negros: R$ 3.569.
- Mulheres negras recebem 38,8% menos que homens não negros, uma diferença de aproximadamente R$ 1.384 mensais.
