Uma entrevista de emprego vai muito além das respostas dadas pelo candidato. A maneira como ele se senta, olha para o entrevistador, gesticula e reage às perguntas também faz parte da comunicação e pode contribuir para a impressão transmitida durante o processo seletivo. No entanto, especialistas em Recursos Humanos alertam que esses sinais precisam ser interpretados com cautela e nunca devem, isoladamente, determinar a contratação. A linguagem corporal é uma forma de comunicação não verbal e pode complementar ou até contradizer aquilo que está sendo dito. Para a psicóloga Aline Sampaio, que atua como Coordenadora de Seleção em uma empresa de Recursos Humanos, postura, olhar, gestos e reações involuntárias podem transmitir informações sobre segurança, interesse, disponibilidade e abertura para a conversa. “É importante lembrar que o processo de entrevista é uma comunicação bidirecional. A forma como nos posicionamos, olhamos para o entrevistador e para as pessoas ao nosso redor, nossas gesticulações e até algumas reações involuntárias às perguntas também transmitem informações”, explica. Apesar disso, Aline destaca que o contexto precisa ser considerado. O próprio processo seletivo pode provocar ansiedade e fazer com que um candidato apresente comportamentos que não representam necessariamente sua capacidade profissional. Fatores externos, como frio, dor, sono ou algum mal-estar, também podem interferir na postura e nos gestos. Para Vanessa Mendes, presidente da Associação Brasileira de Recursos Humanos no Pará (ABRH-PA), a linguagem corporal ajuda o recrutador a perceber o grau de conforto, autenticidade e conexão do candidato com a conversa. Porém, ela não deve ser o principal critério de avaliação. “Em uma entrevista, buscamos compreender competências, experiências, potencial e aderência à cultura da organização. A linguagem corporal contribui para essa leitura, mas precisa ser analisada em conjunto com todo o contexto da interação”, afirma. Olhar natural Entre os sinais que podem contribuir para uma percepção positiva estão uma postura confortável, contato visual natural, atenção enquanto o entrevistador fala e gestos equilibrados. Um leve sorriso no primeiro contato e uma expressão compatível com a conversa também podem transmitir abertura e interesse. O contato visual, porém, não significa encarar o recrutador durante toda a entrevista. Segundo Aline, o candidato pode manter o olhar enquanto responde e também demonstrar atenção quando escuta, fazendo pausas naturais para organizar os pensamentos. “É uma conversa, e não um teste de quem consegue sustentar mais tempo o olhar”, resume. Em entrevistas coletivas, a recomendação também vale quando outros candidatos estiverem falando. Demonstrar atenção e respeito aos demais participantes pode indicar capacidade de escuta e maturidade para lidar com diferentes pessoas e opiniões. Gestos Mexer excessivamente nas mãos ou pernas, brincar com objetos, ajustar constantemente a roupa, morder os lábios, apresentar respiração acelerada, manter o corpo muito rígido ou evitar completamente o contato visual são comportamentos que podem chamar a atenção de recrutadores. Ainda assim, nenhum deles deve ser interpretado automaticamente como sinal de insegurança ou desinteresse. “Um dos maiores equívocos é interpretar um único comportamento como um diagnóstico definitivo”, afirma Vanessa. Cruzar os braços, por exemplo, pode representar desconforto, mas também ser simplesmente uma posição habitual ou uma reação ao frio. Da mesma forma, movimentar as pernas pode estar relacionado ao nervosismo, ao cansaço ou até à necessidade de permanecer desperto. Aline ressalta ainda que características individuais e condições específicas podem influenciar a comunicação não verbal. Por isso, o recrutador deve observar padrões ao longo da entrevista e buscar coerência entre aquilo que o candidato fala e a forma como se comunica. Preparação É possível desenvolver consciência sobre a própria linguagem corporal antes de uma entrevista, mas o objetivo não deve ser criar um personagem. A preparação pode incluir pesquisas sobre a empresa e a vaga, revisão da trajetória profissional e simulações de entrevista. Gravar vídeos ou treinar diante do espelho também pode ajudar o candidato a identificar gestos involuntários, excesso de movimentos, alterações na velocidade da fala ou outros comportamentos que prejudiquem a clareza da comunicação. “O objetivo não é decorar movimentos ou criar um personagem, mas desenvolver consciência sobre a própria comunicação”, explica Aline. Vanessa segue a mesma linha e afirma que o treinamento deve aumentar a autoconsciência, e não produzir comportamentos mecânicos. Quanto maior a preparação, segundo ela, maior tende a ser a naturalidade durante a conversa. Nervosismo Para quem fica nervoso em processos seletivos, atitudes simples podem ajudar. Conhecer a empresa e a função, revisar a própria trajetória, chegar com antecedência e respirar antes de responder são algumas delas. Ouvir a pergunta até o fim e não ter pressa para formular a resposta também pode reduzir a ansiedade. As especialistas reforçam que demonstrar algum nervosismo é normal, especialmente quando a oportunidade é importante para o candidato. O que deve ser observado é a capacidade de conduzir a conversa e comunicar experiências e competências de maneira clara e genuína. “Não tentem interpretar um personagem durante a entrevista. Nós sabemos que não existe candidato perfeito, tampouco somos”, afirma Aline. No fim, a melhor linguagem corporal é aquela que acompanha uma comunicação autêntica. Mais do que decorar gestos, posturas ou técnicas de contato visual, o candidato deve chegar preparado, presente e capaz de falar sobre a própria trajetória. Para os recrutadores, é justamente a combinação entre comunicação, competências, experiências e comportamento ao longo de toda a entrevista que permite uma avaliação mais adequada.