A expansão da inteligência artificial (IA) está mudando a forma como os jovens se preparam para ingressar no mercado de trabalho. Tarefas tradicionalmente executadas por aprendizes e profissionais em início de carreira, como atividades administrativas, organização de informações e produção de conteúdos, já podem ser automatizadas por ferramentas capazes de realizar funções em poucos segundos. Para instrutores do Serviço Nacional de Aprendizagem Comercial (Senac) Pará, porém, a tecnologia não deve ser vista apenas como uma ameaça às primeiras oportunidades, mas como uma ferramenta que exige dos novos profissionais mais capacidade de análise, criatividade e pensamento crítico.
Segundo Franco Sério, instrutor dos cursos de Tecnologia da Informação do Senac Pará, a instituição vem reforçando competências que vão além do domínio técnico. Ele explica que o trabalho acompanha o Marco Referencial de Competência de Uso da IA para Estudantes, desenvolvido pela Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco), em 2025.

“O papel dele é, de fato, pensar em soluções, pensar em resolver o problema, pensar em resolver esse problema de forma criativa”, afirma. Para o instrutor, o estudante precisa aprender a utilizar a IA como apoio, sem se tornar dependente dela: “Ela está lá para somar, para colaborar junto com o aluno, que agora vai ser o analista, que vai gerenciar esses processos em conjunto com essas ferramentas’.
Criatividade e pensamento crítico
A instrutora Joana Sousa, também dos cursos de Tecnologia da Informação do Senac Pará, avalia que o avanço da automação aumenta a necessidade de profissionais capazes de interpretar e questionar os resultados produzidos pelas ferramentas. “O jovem precisa não só utilizar a Inteligência Artificial para resolver problemas, ele precisa ter um olhar crítico, saber ler o que a inteligência artificial mostra para ele”, afirma.

Na avaliação dela, as empresas passam a buscar profissionais que consigam trabalhar em conjunto com a tecnologia para tornar as atividades mais rápidas e eficientes. Nesse cenário, saber utilizar a IA deixa de ser apenas um diferencial técnico e passa a fazer parte da preparação profissional.
Franco Sério acrescenta que as empresas também valorizam características como proatividade, capacidade de solucionar problemas, criatividade, responsabilidade e ética. Outro ponto destacado por ele é o cuidado com os dados corporativos e o uso consciente das ferramentas.
A tecnologia também pode aproximar a formação profissional da realidade do mercado. Segundo Franco, os estudantes conseguem prototipar soluções, testar possibilidades e experimentar situações semelhantes às que encontrarão no trabalho. As ferramentas também podem auxiliar na preparação para entrevistas e na elaboração de currículos.
Aluno já utiliza IA nos estudos e no trabalho
A mudança já faz parte da rotina de estudantes. Tiago Rosário, aluno do curso Técnico de Programação de Sistemas em Aplicações Financeiras do Senac Pará, utiliza ferramentas de IA tanto para estudar quanto em atividades profissionais. Ele conta que recorre à tecnologia principalmente para compreender conteúdos nos quais encontra maior dificuldade. “Eu leio o livro, tiro uma foto das páginas e peço para ela resumir as informações e me explicar também. Depois eu peço para ela fazer umas questões, para eu treinar”, relata.

No ambiente de trabalho, Tiago afirma que utiliza a ferramenta para interpretar documentos e auxiliar em demandas administrativas. Para ele, a tendência não é que a IA substitua a maior parte das profissões, mas que automatize determinadas tarefas. “A IA não vai substituir a maioria dos empregos, ela vai automatizar algumas coisas e vai ajudar. Você tem que saber usar corretamente”, avalia.
O estudante considera que a capacidade de trabalhar com inteligência artificial pode se tornar um diferencial na busca pelo primeiro emprego. “Se a tendência é ir para as coisas mais automatizadas, como a IA, então se adaptar a isso é essencial, senão você fica para trás”, afirma. Para os profissionais do Senac, portanto, a questão para os jovens não é competir diretamente com a inteligência artificial. O desafio é desenvolver conhecimentos técnicos e habilidades humanas que permitam utilizar a tecnologia de maneira crítica, criativa, ética e estratégica.
