A expansão da inteligência artificial (IA) pode aumentar a vulnerabilidade das mulheres no mercado de trabalho paraense, especialmente em atividades administrativas, atendimento ao cliente e serviços financeiros. Em Belém e na Região Metropolitana, a automação de tarefas repetitivas exige que trabalhadoras se adaptem às novas ferramentas tecnológicas, enquanto a falta de acesso à qualificação pode dificultar a permanência no emprego e o crescimento profissional.
O economista paraense Genardo Chaves de Oliveira avalia que a adoção da tecnologia sem políticas de inclusão pode agravar desigualdades já existentes. Segundo ele, setores como administração, escritórios, serviços financeiros, seguros, comércio e varejo de baixa complexidade estão entre os mais vulneráveis à automação.
“Essas transformações podem reduzir empregos formais femininos, pressionar salários e aumentar a informalidade, especialmente em Belém e municípios vizinhos, onde a infraestrutura digital ainda é limitada”, afirma.
O cenário também chama atenção para a participação das mulheres no desenvolvimento dessas tecnologias. Relatório do Fórum Econômico Mundial, citado em reportagem da agência de notícias Agence France-Presse (AFP), aponta que as mulheres ocupam apenas 1 em cada 5 cargos de engenharia de inteligência artificial. A baixa representatividade pode limitar o acesso feminino às oportunidades criadas pelo setor e contribuir para a reprodução de desigualdades nos sistemas tecnológicos.
Para Genardo, a concentração de mulheres em atividades rotineiras aumenta a exposição às mudanças. “A adoção da IA, sem políticas inclusivas, tende a ampliar desigualdades salariais e de acesso, exigindo medidas urgentes de qualificação e inclusão digital”, avalia.

Entre as atividades mais suscetíveis à automação, de acordo com ele, estão rotinas de escritório, secretariado, contabilidade básica, processamento de contratos e atendimento bancário. No comércio, tarefas como operação de caixa, vendas simples e atendimento básico também podem ser parcialmente realizadas por sistemas automatizados.
Isso não significa, necessariamente, que todas essas ocupações serão eliminadas. Segundo ele, a inteligência artificial pode assumir tarefas específicas, modificar as atribuições dos trabalhadores e criar novas funções. O desafio, segundo os especialistas ouvidos, é garantir que as mulheres tenham condições de acompanhar essas mudanças e aproveitar as oportunidades.
Sobrecarga pode dificultar qualificação
A especialista em Gestão de Recursos Humanos (RH) Anna Padinha afirma que a inteligência artificial já transforma os processos de contratação e a organização do trabalho, principalmente por meio da automação de tarefas repetitivas.
“Áreas como atendimento, telemarketing e atividades administrativas estão entre as mais impactadas”, destaca.
Para ela, mulheres com menos acesso à qualificação tecnológica podem enfrentar dificuldades adicionais para permanecer competitivas no mercado. A sobrecarga de responsabilidades domésticas e familiares também pode limitar o tempo disponível para estudar e desenvolver novas habilidades.

“Até a carga de ocupações fora da empresa, como cuidar de casa e filhos, pode ser um dos fatores em reduzir o tempo para novas capacitações fora da empresa”, observa Anna.
A especialista defende que as empresas assumam parte da responsabilidade pela preparação das equipes, oferecendo treinamento para o uso de ferramentas digitais e de inteligência artificial. A medida pode ajudar a reduzir o risco de que as mudanças tecnológicas ampliem as diferenças nas oportunidades de contratação, promoção e remuneração.
“A tecnologia deve ser uma aliada, e não uma barreira. Afinal, preparar as mulheres para o futuro do trabalho é investir em empresas mais competitivas e em um mercado mais justo e inclusivo”, afirma.
Outro ponto de atenção é o uso da inteligência artificial nos processos seletivos e nas avaliações de desempenho. Sistemas automatizados podem reproduzir padrões discriminatórios presentes nos dados utilizados para seu desenvolvimento, prejudicando candidatas ou trabalhadoras de determinados grupos.
Na avaliação do economista Genardo Chaves, é necessário supervisionar essas ferramentas para evitar vieses de gênero. Ele defende auditorias nos algoritmos utilizados em recrutamento e gestão de pessoal, além de programas de formação tecnológica voltados às mulheres.
Tecnologia também pode ampliar oportunidades
Apesar dos riscos, a inteligência artificial pode ajudar mulheres a melhorar a produtividade, organizar atividades e ampliar a competitividade de seus negócios.
A gerente da Unidade de Sustentabilidade e Inovação do Sebrae no Pará, Renata Batista, afirma que a instituição oferece capacitações, consultorias e orientações práticas para apoiar mulheres empreendedoras na adoção da tecnologia.

Segundo ela, uma comerciante, por exemplo, pode usar a IA para produzir campanhas de divulgação, elaborar textos para redes sociais e planejar promoções. Já uma empreendedora do setor de alimentos pode recorrer às ferramentas para organizar cardápios, estimar a demanda, planejar compras e reduzir desperdícios.
A tecnologia também pode auxiliar no controle de estoque, na organização das finanças e na análise das vendas, permitindo que as empresárias dediquem mais tempo a outras atividades do negócio.
“Nossas capacitações mostram, na prática, como utilizar ferramentas gratuitas ou de baixo custo, avaliar os resultados e adaptar as soluções à realidade de cada negócio”, explica Renata.
A gerente ressalta, porém, que o acesso ao conhecimento precisa alcançar mulheres que enfrentam maiores barreiras tecnológicas, especialmente em municípios do interior do Pará. “A inteligência artificial precisa ser uma oportunidade para todas, e não um fator de aprofundamento das desigualdades”, afirma.
Qualificação e inclusão digital
Para evitar que a transformação tecnológica aprofunde a desigualdade de gênero, Genardo Chaves defende a ampliação de cursos de programação, análise de dados e competências digitais, com atenção especial às mulheres de Belém e do interior do estado.
O economista também aponta a necessidade de ampliar a conectividade, criar oportunidades de formação tecnológica e incentivar empresas a aumentar a presença feminina em cargos de tecnologia e liderança.
“As medidas devem ser acompanhadas de políticas para garantir igualdade de oportunidades e mecanismos de fiscalização dos sistemas automatizados utilizados pelas organizações”, defende.
Anna Padinha reforça que a preparação das trabalhadoras não deve ficar restrita à iniciativa individual. “As empresas precisam oferecer condições para que suas equipes aprendam a utilizar as novas ferramentas e acompanhem as mudanças nas funções profissionais”, afirma.
