Sebos de música resistem ao tempo e seguem movimentando o mercado de Belém

Vendas seguem estáveis no setor, com mais de 3 mil unidades mensais apenas no caso dos discos de vinil, diz lojista

Maycon Marte

Em meio à popularização das plataformas digitais, os sebos de música seguem resistindo em Belém e mantêm viva a tradição de ouvir discos de vinil, CDs, fitas e outras raridades. A demanda é constante e as vendas seguem a todo vapor diariamente. Prova disso é a experiência do comerciante Fernando Souza, conhecido como Nando Vinil, proprietário de uma das lojas mais tradicionais do segmento, instalada no bairro de São Brás há mais de 40 anos.

Segundo ele, apenas os vinis têm uma média de cem unidades vendidas por dia — número que, mesmo em períodos de menor movimento, ultrapassa facilmente a marca de 3 mil discos por mês, sem contar as demais mídias de áudio comercializadas no local.

Nando explica que o segmento atrai colecionadores e preserva a memória de outras gerações, alimentando a nostalgia de consumidores locais, ao mesmo tempo, em que realiza o sonho que compartilhou com seu pai. Hoje, o patriarca não compartilha mais os momentos ao lado do filho, que seguiu o desejo de satisfazer o saudosismo de seus clientes. Nessas mais de quatro décadas, o empresário menciona que o mercado se manteve constante, em paralelo às novas tecnologias, e que a preferência ainda é pelos vinis, em comparação à demanda por fitas e CDs.

image Nando Vinil, proprietário de uma loja de mídias de áudio em Belém (Carmem Helena | O Liberal)

Os preços dos produtos que comercializa não são tabelados e se guiam por critérios de qualidade e raridade, o que fica mais evidente nos vinis. Como explica o empreendedor, os discos mais difíceis de encontrar tendem a custar mais, em comparação aos mais comuns, sejam nacionais ou internacionais. Mas a qualidade do produto, que obrigatoriamente precisa estar em condições suficientes para ser tocado, também interfere nessa precificação, o que vale para todas as mídias da loja.

“Tem vinil de R$ 5, R$ 10, R$ 15, tem de todo o preço e todos os vinis têm preço. E existem vinis raros — não são todos, mas existem alguns que infelizmente são difíceis de encontrar — que a gente já vende por um valor um pouco mais alto. Esses já ficam numa faixa de R$ 300 a R$ 400”, explica Nando.

A trajetória com esse tipo de comércio e com a música de maneira mais ampla começou desde muito novo, aos doze anos, quando auxiliava o pai, que possuía uma aparelhagem. Nando ajudava na montagem da estrutura que, na época, dependia fortemente dos discos. A venda dos produtos iniciou o negócio de pai e filho, em 1985, na beira da rua, em uma feira improvisada, para completar a renda familiar. Mesmo após o falecimento do pai, o vendedor seguiu no ramo, expandindo gradualmente o negócio até conquistar a loja própria, que curiosamente fica no mesmo lugar anteriormente usado como depósito para os vinis.

Os produtos da loja vêm de diferentes origens, mas quase sempre de outros consumidores que possuem as mídias em casa e não escutam mais. A curadoria desses materiais também considera o perfil dos seus consumidores, que demonstram preferência por dois gêneros musicais principais: Música Popular Brasileira (MPB) e rock internacional. Ele enfatiza que possui clientes de todas as idades e de diversos locais, inclusive de fora do país.

“Tenho cliente do interior de Belém, tenho cliente de fora do país e já mandei para os Estados Unidos, para a Europa. O pessoal faz o pedido para mim e eu envio”, ressalta o empreendedor.

VEJA MAIS

image 'Empreenda+' é vitrine que impulsiona um dos motores da economia paraense em O Liberal
Publicada aos domingos no caderno ‘Panorama’ de O Liberal, a seção valoriza o empreendedorismo local, dando voz a MEIs e pequenas empresas

image Negócios feitos em casa expandem rendas familiares e ganham espaço no mercado
Em épocas movimentadas, o empreendimento de produção de biscoitos feito por Glauce Machado chega a representar 70% do orçamento da família

Gosto não vê idade

A estudante Beatriz Camacho, que veio de São Paulo para aproveitar as férias em Belém, é um dos exemplos de consumidora que traçou um percurso longo até a loja. Ela justifica a preferência pela compra na capital paraense com a percepção de preços menores aqui, em comparação aos praticados em seu estado. Ela veio adquirir exclusivamente discos de vinil, desejo que chama atenção pela pouca idade, já que tem apenas quinze anos.

Camacho estava acompanhada da mãe e da avó, que contrastavam em gosto com a estudante, apesar da diferença geracional. O desejo da neta foi uma surpresa para ambas, que viveram de perto a febre dos discos, mas que também abraçaram a modernidade e a praticidade das plataformas digitais, como explicou Karla Camacho, mãe da jovem. “Ela desenvolveu esse gosto sozinha”, lembra.

Beatriz recorda que seu gosto pelos vinis já dura cerca de um ano, principalmente por artistas de gerações passadas. Ela prefere artistas antigos, que acabam sendo difíceis de encontrar em plataformas digitais. “Eu sempre gostei muito de coisas antigas e eu também sempre amei música desde pequena, então surgiu esse interesse”, explica. Além dos discos, durante a compra, ainda foi surpreendida pela avó, que decidiu ali mesmo presenteá-la com uma vitrola.

Assine O Liberal e confira mais conteúdos e colunistas. 🗞
Entre no nosso grupo de notícias no WhatsApp e Telegram 📱
Empreenda +
.
Ícone cancelar

Desculpe pela interrupção. Detectamos que você possui um bloqueador de anúncios ativo!

Oferecemos notícia e informação de graça, mas produzir conteúdo de qualidade não é.

Os anúncios são uma forma de garantir a receita do portal e o pagamento dos profissionais envolvidos.

Por favor, desative ou remova o bloqueador de anúncios do seu navegador para continuar sua navegação sem interrupções. Obrigado!