A sapataria entrou na vida de Ocival Wanzeler de Souza por necessidade, quando o pai adoeceu. O que não fazia parte dos seus planos se transformou em uma trajetória de 44 anos, durante os quais encontrou no conserto de calçados uma maneira de sustentar a família. Em Belém, uma história semelhante é vivida por Raimundo Borges Santana, que começou a trabalhar ainda garoto e, aos 77 anos, acumula 56 anos de experiência na profissão. No Dia do Sapateiro, celebrado neste domingo (25), os dois artesãos mostram como um ofício tradicional continua presente na cidade e nas histórias de quem vive dele.
Aos 67 anos, Ocival recorda que a decisão de seguir os passos do pai não foi motivada por uma vocação inicial. A responsabilidade familiar acabou se transformando em uma escolha para a vida inteira.
“Não era o meu sonho de trabalho. Meu pai adoeceu, eu tive a necessidade de abraçar essa ideia para poder ajudá-lo. Quando comecei a pegar gosto, vi que é um trabalho honroso, aí eu continuei. Vi que dava para sustentar a família”, conta Ocival.
O pai já tinha experiência na fabricação de calçados femininos, masculinos e até sapatos destinados a oficiais da Aeronáutica. Foi com orientações dele e, principalmente, com a prática diária que Ocival desenvolveu as próprias habilidades. O negócio familiar, segundo o sapateiro, teve início em 1975.

A trajetória de Raimundo começou de outra maneira, mas também encontrou na profissão uma oportunidade de independência. Ainda jovem, passou de aprendiz a proprietário do próprio negócio.
“Comecei como garoto, aprendendo em oficina de sapato. Trabalhei ainda como empregado por uns seis anos. Depois comprei a oficina do mestre com quem trabalhava”, relembra Raimundo.
Durante cerca de 50 anos, o sapateiro manteve o trabalho na rua Boaventura da Silva, bairro do Umarizal. Há seis anos, passou a atender em outro endereço, na avenida Alcindo Cacela, onde conta com o auxílio de três trabalhadores e de um dos filhos, responsável pelo atendimento na frente da oficina. Raimundo, atualmente, dedica-se mais à administração do estabelecimento.
A atividade foi fundamental para a criação dos filhos e continua sendo motivo de orgulho para o artesão. “Tive quatro filhos e os quatro filhos foram criados com dinheiro do sapato. Com ajuda das mães também”, destaca Raimundo.

Oficinas continuam com alta demanda por consertos
Apesar das transformações no mercado de calçados, os dois profissionais afirmam que continuam recebendo uma quantidade expressiva de serviços. Ocival, que trabalha ao lado de outros artesãos, incluindo familiares, conta que a procura é suficiente para manter a oficina ocupada.
“Se eu quiser ir até de noite, com certeza vai ter trabalho. O trabalho é constante”, afirma Ocival.
Na oficina dele, uma costura de tênis costuma custar entre R$ 30 e R$ 40. Em peças mais difíceis de trabalhar, como determinadas botas, o preço pode chegar a R$ 50 ou R$ 60. O profissional explica que a complexidade de cada reparo influencia o orçamento.
Raimundo também atende clientes de diferentes condições financeiras. A oficina realiza consertos de sapatos, bolsas, cintos e malas, além de fabricar calçados sob encomenda. Os serviços variam de R$ 20 a R$ 150, conforme a necessidade de cada peça.
O volume de trabalho oscila ao longo da semana. “Tem dia que a gente faz 10, 20 pares de conserto. Outros dias já pode fazer um pouco menos, outros já pode fazer um pouco mais”, explica Raimundo.
Para o artesão, a permanência no mercado está diretamente relacionada à confiança construída com os consumidores. Além da qualidade do trabalho, ele considera o cumprimento dos prazos um dos principais diferenciais da oficina.
“Primeiro, eu acredito que seja minha pontualidade. Se marca para sexta, tem que ser sexta. Se deixou pago, tem que entregar o produto”, ressalta Raimundo.
Experiência e novas técnicas mantêm viva a profissão
Na avaliação de Ocival, aprender a profissão exige dedicação, observação e disposição para aperfeiçoar as técnicas. Ele próprio modificou procedimentos ao longo dos anos, principalmente na recuperação de solados e nos acabamentos dos calçados.
Um exemplo está no aproveitamento das linhas utilizadas nas costuras. Antes, os reparos eram feitos com fios mais grossos. Com a experiência, ele percebeu que poderia dividir a linha e produzir um acabamento mais discreto, sem comprometer a resistência do material.
A mesma evolução ocorreu na recuperação de sapatos femininos. Se antes cortava e ajustava os solados durante o processo de colagem, hoje utiliza moldes para preparar as peças com maior precisão.
“A pessoa que vai começar tem que entender que vai evoluindo no conserto do sapato”, explica Ocival.

O artesão também acredita que a popularização dos tênis representa uma oportunidade para quem deseja ingressar na atividade. Segundo ele, a variedade de modelos ampliou as possibilidades de especialização em costuras e reparos.
“Essa profissão tem muito futuro, principalmente com tênis. Se uma pessoa se dedicar a aprender a costurar esse tipo de calçado, vai ter um trabalho para toda a vida”, avalia Ocival.
Raimundo, por outro lado, demonstra preocupação com a renovação dos profissionais. Embora acredite que a sapataria não desaparecerá completamente, considera que a falta de interessados em aprender o ofício poderá comprometer sua continuidade.
“Hoje em dia ninguém quer mais aprender essa profissão de sapateiro. Todo mundo quer ser doutor, e eu também sou doutor, na minha profissão”, afirma Raimundo.

Após décadas de trabalho, sapateiro escolhe passar mais tempo para a família
Se o trabalho garantiu o sustento durante boa parte da vida, também ensinou Ocival a rever suas prioridades. Durante muitos anos, o sapateiro costumava prolongar o expediente até as 18h, dedicando grande parte do dia à oficina.
A mudança aconteceu durante a pandemia, quando as restrições alteraram sua rotina. Ocival passou a encerrar o atendimento às 15h e descobriu que não precisava retornar à jornada anterior para manter uma renda satisfatória.
Com o passar dos anos, percebeu que o tempo dedicado à família tinha um valor que não poderia ser recuperado apenas com mais horas de serviço.
“Quando tu vê que tu perdeste algumas horas que tu podia ter dedicado ao teu lar, à tua família, à tua esposa, então, quando veio a pandemia, aquilo me deu uma visão diferente”, reflete Ocival.
Mesmo depois do fim das restrições, decidiu manter o novo horário. Atualmente, chega à oficina por volta das 8h e encerra o expediente às 15h. Assim, consegue conciliar o trabalho com a convivência com a esposa, os filhos e os netos.
“Vi que até três da tarde dava para ter uma boa renda e depois tomar um café com a esposa, curtir um pouco netos, filhos. Ou seja, dá para viver a tua vida social e também familiar com mais tranquilidade”, conta Ocival, que afirma obter com a sapataria uma renda mensal superior a quatro salários mínimos, mesmo após reduzir a jornada de trabalho.
Aos 67 anos, ele não demonstra arrependimento pela profissão que abraçou para ajudar o pai. O que mudou foi a maneira de compreender o próprio sucesso: depois de tantas décadas, continuar trabalhando também significa saber a hora de voltar para casa.
“O que eu ganho dá o suficiente para eu viver uma vida tranquila e familiar. Mas ser sapateiro é prazeroso”, conclui Ocival.

